sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

aquática

Navega-me,
que me faço mar.
Não para me singrares de velas enfunadas.
Teu deslizar há de fazer marolas
que hás de alisar docemente.
Eu crescerei em vagas impetuosas
e te farei soçobrar.
Mergulharás em mim e eu, maremoto.
Até que,
juntos,
na praia morna,
em branca espuma
morreremos.
Publicado em Pimenta rosa, coletânea de poemas e textos eróticos de 16 autoras pernambucanas - edição das autoras - esgotado.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Os brincos prateados

Arrumava os cabelos com as mãos onde quer que estivesse, sem precisar de espelho. Fizera isso vezes sem conta. A vida não contribuía para amenizar os traços.
Tivesse o cuidado de não dar moleza desde o início, não estava passando por tanta decepção. Sim, pode-se perder o controle do lance, ser trapaceada e levar uma rasteira. Dava lá as escorregadas dele, ela sabia, sempre tinha uma explicação você que é meu amor, ela precisava que a convencesse. Não era mais menina, ralando daquele jeito, chegando em casa à noite no bagaço. Em vez de chorar, devia era soltar foguete.
Retocou o batom, também sem espelho, contornando os lábios com precisão.
Calma. Tenho que ter calma. Adianta me descabelar? Por que não escutei a voz da razão? Teria percebido que era sorte demais para ser verdade. Tem cabimento acreditar que um rapagão daqueles ficasse com ela muito tempo? Uma tonta, é o que foi. Ainda por cima deixar de se cuidar para vestir ele com roupa de marca, fazer prestação pra financiar o carro usado que tanto queria e botar no nome dele, onde já se viu? A amiga alertou, e daí? E daí que para seu azar apaixonou-se. Toda a sensatez foi parar na lata do lixo. Na lata de lixo.
Enxugava as mãos no vestido, suadas feito quando era adolescente.
Isso pode acontecer com qualquer uma.
Andava de um lado para o outro na sala. Na imaginação o rosto do amante, cara lisa, barba feita, no meio do mundo.
Sabia quando estava chegando pelo barulho do elevador, ficava de pé olhando a porta, aguardando que ele abrisse. Entrava, pegava pela cintura, virava de costas, empurrava para o sofá e ali mesmo a possuía, ela de quatro. Como uma cadela.
Escurecia lá fora, o ar frio do inverno entrando pelo apartamento.
O cordão dourado com a letra M, que usava sempre, era fantasia, imitação barata. Único presente que lhe dera em três anos; bem mais vagabundo que o par de brincos prateados com pedrinhas brilhantes que encontrara na gaveta de cuecas e meias, por baixo de tudo, bem lá no fundo, comprado com o dinheiro dela para a outra: sacudiu na cara dele, aos gritos, como se isso resolvesse alguma coisa.
Ele negou, era surpresa, para comemorar a data em que se mudou para a casa dela, mas não faz mal, e adulou, e fez carinho, levou pra cama, e ela se acalmou. Colocou os brincos.
Dia seguinte fazia quatro anos, um sábado. Culpada por haver desconfiado dele, comprou dois metros de viscose à prestação, abriu a máquina de costura, pegou a tesoura grande para cortar a camisa. Com sorte estaria pronta antes que ele voltasse da pelada com os amigos.
Cedo ainda, nem prestou atenção no barulho do elevador abrindo. Tocaram a campainha, não podia ser ele. Deu de cara com a ninfeta dizendo para ela passar os brincos, que não engolia essa de ter paciência e abrir mão para uma velha enrugada, pelancuda, só porque ele tinha pena.
Bateu a porta, sentada na sala não escutava nada, nem os berros da outra de isso não vai ficar assim, até que tudo ficou silêncio, olhou ao redor, a máquina aberta, o tecido na mesa, devia ser intriga da garota, ele não ia dizer uma coisa dessas dela, de que jeito a outra sabia dos brincos?, dizia para si mesma que não era nada daquilo, haveria explicação, sempre tinha uma, a visão dele abraçado com a ninfeta, a voz dentro da cabeça sussurrando no ouvido da outra você é que é meu amor, imagina se tem comparação com aquela velha enrugada, pelancuda, é que ela é tão sozinha, tenho dó, paciência que vou dar um jeito.
Dar um jeito.
Na delegacia, arrumava os cabelos com as mãos, retocou o batom, se deixou conduzir para a cela. Com a roupa do corpo, de chinelos, usando os brincos prateados.

………………………
O conto Os brincos prateados foi classificado em primeiro lugar entre os 10 melhores para compor o livro do Prêmio Maximiano Campos de Literatura 2006, selecionados pelo escritor, crítico e professor da Universidade Federal de Pernambuco – UFPE Luis Carlos Monteiro. O conto foi publicado também na antologia Panorâmica do conto em Pernambuco, em 2007, e na edição de nº 23, de 4 de setembro de 2008, da revista eletrônica Histórias Possíveis.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Gaza

o dia terminava
e o poente, escurecendo o céu
não poupava às criaturas terrenas
a sede

apenas aumentava a escuridão
o silêncio entrecortado de gemidos

nos hospitais, nas ruas
o percorrer dos ásperos caminhos
e das lastimosas visões
que as retinas
mesmo na escuridão
insistiam em exibir

divididos em três
invocamos os deuses
as musas
os homens
mas não nos chegam alimentos
remédios
sequer livros ou alaúdes
onde mitigar ou cantar nossa dor

nossas crianças já não dormem
o sono dos inocentes

wall-eribu

Sol na moleira, sacos de lixo, cheiro de fome. Dois pacotes de macarrão, dois pacotes, inteirinhos. Caruncho a gente bota no sol e eles fogem.
Ninguém por perto a ressaca da virada de ano deixou todo mundo jiboiando, de fome ou barriga cheia, em sombra de árvore, de teto de papelão ou de cachaça.
Deus ajuda quem cedo madruga é tudo nosso.
Uma pia, meu Deus, uma pia. Tá rachada mas a gente cola com o resto de durepóxi que encontramos na lixeira do prédio de luxo semana passada e tá limpeza. Uma pia, meu deus, só falta a torneira. O lixão há de prover.
Remexo restos de rosas todas tão frescas ainda. Aquela garrafa de cidra dá um bom vaso. Flores pra alegrar o barraco.
Preciso achar outro par de meias vermelhas. Essas são da última vez que vi Paris, não dá mais pra remendar.

Um jornal inda no plástico, que maravilha. Bancário surta, foge de manicômio e vira mendigo.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

quando

Quando achava que já não havia esperança, uma bem verde pousou-lhe na janela.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

cintilância

desde que brota
desejante
vai umedecendo de vida todo o curso

num remanso
embora feita de assossego
embora pura harmonia
inacessível e mansa
branca e elegante se faz garça

e num segundo de descuido
deixa-se fotografar
desnuda

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Momento

O espelho que me interroga evoca antigo retrato
no quarto deserto, inundado por oceano de aço,
onde correntes de versos vazados a faca se esvaem
em cartas não escritas, laços frágeis,
pássaros feitos pedra em pleno vôo.

Nostalgia de percorrer estradas
sem rumo certo ou prazo de chegar.


(poema premiado com o 3º lugar no concurso literário Fliporto 2006)

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Rato

El espejo que me interroga evoca antiguo retrato
en el cuarto desierto, inundado por océano de acero,
donde corrientes de versos traspasados por cuchillo se desvanecen
en misivas no escritas, lazos frágiles,
pájaros cambiados em piedra en pleno vuelo.

Añoranza de recorrer calles
sin rumbo cierto o plazo de llegar.

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Livre versão do poema, pela autora, para o espanhol, agradecendo as correções feitas pelo poeta cubano Alina Galliano

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Só por isso

Porque refrescou no fim da tarde, cantou com a voz dos pardais e o sino dos ventos.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

eterno

mais que sorriso silente
mais que ruidosa mudez

mais que paleta de tintas
ressecada, quebradiça
que o pincel endurecido
no ateliê deserto

mais que partir outra vez
dói a terrível certeza
do retorno sempre certo



Clique no título e ouça o poema na voz de Mariane Bigio, no programete Pois é, Poesia

acidente de percurso

Já começou errada. Nos sonhos via-se outra. Lembrando de estudos e práticas antigas, herméticas, sonhava de olhos abertos, na intimidade aconchegante da poltrona velha de couro na biblioteca do avô.

Passou a vida tentando apagar as próprias pegadas. O colo materno não redimia; mesmo seguindo os passos do pai e da mãe (e talvez por isso mesmo), estava errada.

Culpada de não ter pintado, cantado, dançado, por habitar um mundo que não era o seu. Quantas guerras lutou que não lhe diziam respeito.

Porque não teve coragem de bradar o seu serei poeta ou nada. Nunca empreendeu sua viagem à Ìndia. Nem a crise nervosa a justificava. Pelo contrário: era delação. Culpada. Errada. Não era questão de velocidade nem direção, mas de sentido.

Como é que agora, o corpo preso entre as ferragens, vem com essas desculpas?

não-falo

falo de mãos e de dedos
falo de figos
e de seus segredos

falo de lábios e línguas
falo de peixes e serpentes
e maçãs

falo de pele e de arrepio
falo de velas, espadas e
bastões

falo de cheiros e de sabores
falo de flores
falo de romãs

falo de cálices, de sinos
e de torres
falo de calores e de convulsões

falo e a noite se vai
e eu não durmo

não-falo

Sabrina

O nome era Sabrina. Conheci fazendo ponto na frente do hotel. Uma pele de cetim, olhos brihantes na carinha de criança. De jeans e camiseta, não fossem os cabelos oxigenados, lembrava minha filha adolescente, o corpo ainda em formação.
- Entraí.
- Já entrei, gatão.
- Quantoé?
- Pra você, cem paus.
- Émuito.
- Tá bom, baixo pra cinqüenta se me pagar uma bebida.
Fechou a porta do carro e seguimos. Pedimos duas caipirinhas, o garçom me olhava divertido, será que o sacana pensava que eu não dava conta da ninfetinha?
- Me dá um cigarro?
Quando aproximei o isqueiro do rosto para acender, vi que tinha o olhar bastante seguro para alguém tão jovem. Me provocava, muito à vontade. Tomamos mais uma caipirinha, não demorou paguei a conta e saímos. Entramos no carro, que estava parado numa rua lateral, sem qualquer movimento àquela hora, ela sentou no banco do passageiro, manteve a porta aberta.
- Só tem uma coisa, é adiantado.
- Qualé, minha filha, achaquetenhocaradeotário?
- Olha, você parece um coroa legal mas já levei calote e agora só trabalho adiantado. Se não interessa, então volto pro meu ponto.
Não sei o que me deu, puxei a arma do porta-luvas.
- Entraaí, tô mandando.
Ao invés de entrar, ela fez menção de correr. Joguei a arma no chão do carro, dei partida e arranquei cantando pneu.
No dia seguinte, era o assunto no escritório.
- Cara, você viu?, mataram mais uma boneca. Dizem que foi queima de arquivo, o gajo tinha testemunhado a morte de uma coleguinha uns meses atrás. Ou então a moçoila não quis dar pra algum bundão.
Não sei o que me deu. Ela era um petisco, mas não era a única. E nem havia me reconhecido.

Entrevista sobre o livro de contos eróticos Pimenta Rosa

No dia 1° de outubro de 2006, o Café Colombo recebeu nos estúdios da Rádio Universitária as escritoras Beatriz Brenner, Gerusa Leal, Inah Lins, Lucia Moura e Virgínia Leal para discutir o livro de contos eróticos Pimenta Rosa.
GERUSA LEAL [11/08/2008]

Pouco antes da viagem
Desse aqui pro outro mundo
O cisne já moribundo
Canta fazendo miragem
Mas o seu canto é voragem
Apesar de doce e alado
E mesmo ouvi-lo calado
Ilude e a mente tonteia
Que na gravura em madeira
Esse Samico é um danado

Cruzando a noite e as ondas
Do mar e do pensamento
Serpenteia seu lamento
Que ninguém dele se esconda
Pois se vem feito anaconda
Enrodilhar-se ao coitado
Não há choro não há brado
Que segure a maré cheia
Que na gravura em madeira
Esse Samico é um danado

A lua divide em duas
A do céu e a do inferno
E as duas somam o eterno
Assim as serpentes nuas
E tudo que continua
Permanece lado a lado
E é assim nesse estado
Que a vida rola na esteira
Que na gravura em madeira
Esse samico é um danado

em Corda Virtual http://www.interpoetica.com/corda_samico.htm