terça-feira, 26 de maio de 2009

JAGUADARTE



Era briluz. As lesmolisas touvas
Roldavam e relviam nos gramilvos.
Estavam mimsicais as pintalouvas,
E os momirratos davam grilvos.

"Foge do Jaguadarte, o que não morre!
Garra que agarra, bocarra que urra!
Foge da ave Felfel, meu filho, e corre
Do frumioso Babassurra!"

Ele arrancou sua espada vorpal
E foi atrás do inimigo do Homundo.
Na árvora Tamtam êle afinal
Parou, um dia, sonilundo.

E enquanto estava em sussustada sesta,
Chegou o Jaguadarte, ôlho de fogo,
Sorrelfiflando através da floresta,
E borbulia um riso louco!

Um, dois! Um, dois! Sua espada mavorta
Vai-vem, vem-vai, para trás, para diante!
Cabeça fere, corta, e, fera morta,
Ei-lo que volta galunfante.

"Pois então tu mataste o Jaguadarte!
Vem aos meus braços, homenino meu!
Oh dia fremular! Bravooh! Bravarte!"
Ele se ria jubileu.

Era briluz. As lesmolisas touvas
Roldavam e relviam nos gramilvos.
Estavam mimsicais as pintalouvas,
E os momirratos davam grilvos.

Augusto de Campos [transcriação de Jabberwocky, de Lewis Caroll]

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Na lata


Entrevista concedida ao poeta Samuca, e publicada no seu blog http://samucablogsantos.blogspot.com/ Confiram, lá, esta e outras matérias interessantes.

domingo, 17 de maio de 2009

Histórias Possíveis


Edição 42 da revista eletrônica Histórias Possíveis http://historiaspossiveis.wordpress.com/

“A razão cria cárceres mais escuros que a teologia. O inimigo do homem se chama Urizel (a Razão), o “deus dos sistemas”, o prisioneiro de si mesmo. A verdade não precede a razão e sim à percepção poética, isto é, da imaginação. O órgão natural do conhecimento não são os sentidos nem o raciocínio; ambos são limitados e na verdade contrários à nossa essência última, que é desejo infinito: “Menos do que tudo não pode satisfazer o homem”. O homem é imaginação e desejo”.[Otávio Paz, trad. de Sebastião Uchoa Leite]
Dos Colaboradores,
Gerusa Leal, de vidro transparente – com prescrições eu irei te preencher para facilitar a tua vida dolorosa
Leandro Resende, Primeiro Epílogo
Lúcia Bettencourt, A morte e a donzela
[Imagem: Richard Kalvar.]

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Resenha de Versilêncios no Homem Nerd


Resenha de Versilêncios no site http://www.homemnerd.com.br/
É só clicar na capa do livro após chegar no site que acessa a resenha. Se gosta de boas resenhas, principalmente de FC, passeie pelo site.

sábado, 9 de maio de 2009

um haicai recifense

entre os dedos
do pé da árvore
cócegas de grama

sábado, 2 de maio de 2009

Reverso do nada

Poema meu publicado no blog do Samuca. Confiram e naveguem pelo blog que tem, dentre outras pérolas, saída do forno, entrevista com a poeta Graça Graúna http://samucablogsantos.blogspot.com

sexta-feira, 1 de maio de 2009

terça-feira, 28 de abril de 2009

sábado, 18 de abril de 2009

eterno

mais que sorriso silente
mais que ruidosa mudez

mais que paleta de tintas
ressacada, quebradiça
que o pincel endurecido
no ateliê deserto

mais que partir outra vez
dói a terrível certeza
do retorno sempre certo


do livro Versilêncios

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Entrevista

Entrevista ao poetamigo, compositor, advogado, radialista, editor, cultivador e divulgador das artes e da cultura e gentefiníssima Luiz Alberto Machado, pernambucano radicado atualmente em Maceió, para o seu blog Varejo Sortido http://varejosortido.blogspot.com/2009/04/poetas-pernambucanos-entrevista-gerusa.html

terça-feira, 14 de abril de 2009

Foto no lançamento de Versilêncios

Foto no lançamento de Versilêncios, dia 26 de março 2009 na Biblioteca pública do Estado de Pernambuco - Digital Arte Imagem

segunda-feira, 6 de abril de 2009

in preciso

há proibições demais nas placas da vida
também tantos deve e é preciso
inscritos em letreiros quando olhamos para dentro
que raramente pisamos descalços
nos gramados de nossos sonhos


é proibido também divagar
assumir o devaneio pelo devaneio
é preciso viver?
o que diabos há de preciso
em qualquer arte?

terça-feira, 24 de março de 2009

Entrevista



A poesia de Gerusa Leal


O Café colombo conversou com a contista e agora poetisa Gerusa Leal, que está lançando o premiado Versilêncios.



Ouça o áudio em http://www.cafecolombo.com.br/

quarta-feira, 11 de março de 2009

Lançamento

Obra vencedora do Prêmio Edmir Domingues de Poesia 2007 da Academia Pernambucana de Letras, o livro é nosso primeiro solo.
Edição da autora, patrocínio do Sistema de Incentivo à Cultura da Prefeitura do Recife. Via Livros (2137-0300). / Livraria Imperatriz Shopping Tacaruna / inter.g@terra.com.br R$ 20,00

Serviço:
Lançamento em 26 de março de 2009, das 19h às 21h
Recital do grupo Vozes Femininas
Local: Biblioteca Pública do Estado de Pernambuco
Rua João Lira, s/nº, Parque 13 de Maio
Fones: 3181 2647 / 3221 3716

Sejam bem-vindos

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Ana-crônica

O pai, cioso da virtude das filhas, sob a guarda de uma tia, permitiu que fossem ao baile no clube. A tia acreditava que o corte de cabelo à escovinha, quase máquina zero, dos meninos do Colégio Militar era garantia de masculinidade e certeza de casamento bem sucedido. Vista grossa se as via pulando o frevo de mãos dadas com algum. A única condição era passar na mesa a intervalos onde não houvesse tempo para mais que um beijinho, um amasso sem sair do salão.
Treze anos, e não achava graça nos meninos.
Saquinhos de filó cheios de confete e serpentina, fantasias, ele aparece. Muito, muito, muito mais velho que ela. Hoje seria chamado de tio. Olhou e estendeu a mão. Foi.
No meio dos foliões, abraçados, a cabeça repousada no peito dele. Sentiu que lhe cheirava os cabelos. E a cada quarto de hora batia o ponto na mesa da tia.
No primeiro cheiro no pescoço, o frio na espinha. Ele sorriu.
Ninguém falava. Fim de baile. Sem despedida. Não com palavras.
Dia seguinte, lá estavam outra vez, ela, a tia, as primas.
Tédio.
De repente uma mão. Quente. Um olhar, um sorriso. O cheiro nos cabelos, no pescoço.
Terça-feira gorda. Mal pisava o chão. Era o último dia e mesmo assim nada era dito, não se conversava. Circulavam pelo salão, mãos dadas, abraçados.
Hora de ir embora. Nem despedida, muito menos telefones.
Carnaval. Até hoje traz pressentimento de um roçar de rosto, um calor, um cheiro no cabelo, no pescoço, um arrepio. E a nostalgia do desejo por um beijo na boca que nunca aconteceu.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Este resumo não está disponível. Clique aqui para ver a postagem.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Nós Pós realiza encontro na sorveteria Santo Doce

Na última 5ª feira, dia 22 de Janeiro, em concorrido encontro, o movimento Nós Pós realizou encontro na sorveteria Santo Doce, nos Aflitos, com a participação dos escritores Felipe Jr., José Terra, Yugo Taroo, Gerusa Leal e Mariane Bigio.
Acesse os textos lidos durante o evento, no blog do Nós Pós, na lista de links ao lado esquerdo desta página.

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Nota veiculada na edição de 25 de janeiro do informativo A voz do Escritor, da União Brasileira de Escritores, Seção Pernambuco.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Rabanadas

Desceu do ônibus e atravessou a rua. Era uma tarde quente. Nem percebeu que estava parado em frente da casa. Ouviu a voz da mulher chamando pelo filho. Já fazia tanto tempo. Baixou a cabeça, virou-se para seguir seu caminho e parou outra vez.

Naquele dia o cachorro perseguiu o menino latindo. Apanhou o primeiro objeto que a mão alcançou. Mas não precisou usar, o garoto havia subido na árvore onde acabara de pendurar a gambiarra, arrastando no tombo parte da fiação e fazendo várias lâmpadas coloridas espatifarem-se no chão.


- Droga. Vai cortar o pé, infeliz.

O moleque correu para dentro de casa.

A mulher está de pé junto ao fogão, os cabelos presos por um lenço. Parece que só enxerga as panelas. Prepara o almoço mas já cortou o pão para as rabanadas.

Escuta o arrastar dos chinelos e vê uma blusa desbotada se aproximando. Ela sempre sabia quando ele chegava e vinha encontrá-lo no portão. Levantou a cabeça e olhou ao redor como se não a tivesse visto.

- Já vou abrir.

Deu um passo para o lado parou e olhou a mulher. A blusa desbotada sobre a saia larga de estampado florido também já desmaiado. Não acreditava em violência. Não devia ter feito aquilo.

Caminhava devagar, o rosto sem expressão como se até as rugas houvessem esquecido a própria história. É de estatura mediana mas os ombros arqueados a fazem menor embora a firmeza do olhar afaste qualquer impressão de fragilidade. Ele tenta se lembrar de como ela era e só consegue ver uma jovem numa foto amarelada de casamento. Uma jovem que parece nunca ter sido ela.

- Venha, entre.

Despregou-se do chão e passou para dentro do jardim. O rosto dela ganhara um aspecto definitivo feito o das esculturas no museu onde ele ficara circulando enquanto esperava que a tarde passasse e não desse mais tempo de ir. A primeira vez fora pedir que lhe perdoasse e se o enxotasse mal o visse isso não o surpreenderia.

Limpava os pés no capacho com os olhos entre o chão e a guirlanda verde com um sino dourado pendurada na porta.

- Entre.

Sentou-se à mesa no canto da sala enquanto ela, arrastando os pés, sumiu no corredor que dava para a cozinha de onde vinha o cheiro doce. Serviu-lhe duas e ocupou a cadeira em frente, calada, as mãos cruzadas sobre a mesa, olhando ele cortar pedaços da rabanada e levá-los à boca.

Quando acabou, ela levantou-se, apanhou a travessa com o restante do doce, o prato vazio e lentamente sumiu outra vez no corredor. Ele imagina que assim como na sala, no restante da casa permaneça tudo igual, os mesmos móveis, nos mesmos lugares, os mesmos quadros pendurados nos mesmos pregos nas mesmas paredes, a mesma árvore no quintal.

Nunca foram de conversar muito mas se diziam o indispensável e passavam um pelo outro sem evitarem se esbarrar. Naquele dia ela queimou-se na panela de feijão que se esparramou por todo o chão da cozinha. Ele havia entrado atrás do menino com o chinelo na mão e quando ela se abaixou para limpar ergueu-a pelo braço xingando-a de estúpida e perguntando e agora o que nós vamos almoçar?

Ficaram as marcas na pele alva do braço e ele saiu batendo a porta. Sem coragem de contar que fazia um mês que passava os dias perambulando pelos parques, igrejas, museus, depois de conferir mais um anúncio de emprego onde não se interessavam por seus serviços.

- Beba a água. Está gelada.

Quando chegou ela não estava e só uma semana depois recebeu o bilhete onde dizia que estava trabalhando na casa de uma família e o menino ficava com ela. No mesmo bilhete e pelo mesmo portador escreveu que voltasse para a casa, não a incomodaria.

Secou os lábios com as costas das mãos. Quando ela voltou da cozinha já estava de pé ao lado da porta. Caminhou atrás dela que fechou o portão e quando já voltava para dentro ele girou sobre os calcanhares. Ela parou.

- E o menino?

- O menino está bem.

Entrou na casa e ele atravessou a rua para apanhar o ônibus.
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Publicado na edição de 20 de dezembro da revista eletrônica Histórias Possíveis

Marilyn Lisa

alguma coisa há de vegetal
nos cachos repolhudos dos teus cabelos
nos teus lábios monroe
no teu sorriso lisa

alguma coisa há de espectral
no tom tofu da tua pele
no rosa macerado do teu rosto
no sépia desbotado em tuas vestes

alguma coisa há de surreal
nos traços comestíveis do teu rosto
e esse teu olhar de modo oposto
tem algo de ser sobrenatural

sábado, 17 de janeiro de 2009

A última refeição

Escutou os gritos agudos ouviu também e sentiu as vibrações dos golpes no assoalho de madeira. Gregório precipitava-se pelo corredor e quase se choca com Mara que saía afobada do gabinete. Disparou entre os dois, forçou a passagem por uma brecha na porta da cozinha, no mesmo pique escalou o muro e mergulhou na lixeira. Ali estaria seguro.

Tateou alguma coisa para matar a fome. O ventre aberto do pássaro oferecia-lhe o manjar das vísceras expostas e ainda mornas, com que se regalou.

Por instinto, contorceu-se, virando a cabeça para a porta. Alguma razão que não conseguia desvendar levava-o a reviver a última refeição. Ouviu Gregório gritar alguma coisa e seu coração se contraiu. Mas Inocêncio replicou com serenidade. A voz suave devolveu-o ao relativo conforto do devaneio com o último jantar.

Pendia, de cabeça para baixo, seguro, atado pelos membros inferiores. A vertigem da rápida descida, misturada à dor aguda da queimadura. Já não era uma sensação nova. Não o apavorava mais tanto. Mesmo assim, sentiu-se miserável e infeliz como nunca. Se é que se poderia chamar de sentimento ao desfalecer que lhe percorria o corpo e ameaçava engolfar-lhe o cérebro.

O contato do instrumento frio trouxe-o de volta. Era tudo confuso. Agora explorava o baú que um dia encontrara aberto no gabinete. O brilho da lâmpada no teto refletia-se nos artefatos de metal e isso o fascinava. Uma sombra o alertou de que não estava mais só. Sentiu o toque da mão, ouviu o grito agudo e retesou-se pronto para fugir. Mas a gargalhada grave e cristalina, já tão familiar, o acalmou. Enquanto os passos, o choro e a risada se afastavam, aproveitou para escapar da armadilha.

Depois da refeição, gostava de se esgueirar pelos móveis. Lembrou-se daquele frasco em cima do aparador em que numa madrugada esbarrara enquanto fazia seu passeio exploratório. E do susto quando mais rápido do que imaginava a lâmpada se acendeu, flagrando-o desprotegido. Estudou cuidadosamente o ambiente em volta e mergulhou na gaveta das fotos.
Então novamente o calor do fogo. Havia compreendido que de nada adiantava, mas talvez por puro reflexo estorcia-se, guinchava. Grudava-lhe na pele o líquido morno e gosmento. Torturava-o a ardência nos pontos onde perdera os pelos.

O trecho roído na borda da foto que emoldurava o rosto pálido da moça não lhe afetava a beleza. Degustava-a despreocupada e lentamente. Cabelos negros presos em coque, ornados pela grinalda de flores miúdas, os olhos castanhos, grandes, profundos e tristes, foi a última imagem que seu cérebro reteve antes de tudo escurecer.

Já não se movia mais, mas ainda estava ali. O suficiente para sofrer, em algum lugar da já quase inexistente consciência, a dor mais lancinante. Era lenta e se prolongava, parecia não ter fim. Depois de algum tempo, chegava, aos ouvidos, apenas, o som de batidas, num bombo, gigantesco, e distante, o líquido morno, pingando, dentro do recipiente, sob sua cabeça.

Acabara-se a urgência. E a sensação de perigo. Já se esquecera do mundo quando sentiu outra vez o fogo lambendo-lhe o corpo. Não havia mais dor. Terminara a agonia. As imagens iam e vinham, em flashes, e foram se dissipando, virando sombra de sombra, até ficarem opacas e cinzas. Feito o pelo chamuscado.
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Texto publicado no caderno especial em homenagem a Machado de Assis, na coletânea Contos de Oficina 2008, organizada por Raimundo Carrero, lançada em 08 de novembro de 2008 na Festa Literária Internacional de Porto de Galinhas – ano IV.

ex-finge

percorre as veredas do meu corpo
verás que ainda há parte do humano
que fui quando assim fingia ser

tateia com vagar todos os flancos
desse ser tão incomum igual a ti

de quatro talvez me descortines
de quatro animais encontras partes
à minha humanidade amalgamada

cabeça e seios de mulher
corpo de touro (ou de cão se assim preferes)
garras de leão asas de ave
e essa imensa cauda de dragão

não temas, amado, inda sou eu
a mesma que desconhecendo, amastes
e se duvidas de mim, olha no espelho
verás que, enfim, me decifrastes