segunda-feira, 23 de abril de 2012

Terça, 24/04



Café com Poesia - edição de abril do Projeto Café com Poesia, onde a Literatura é a “atração” principal. Venha prestigiar conosco! Escritora convidada: Gerusa Leal (PE)
Mediação: Mariane Bigio (PE)
Painel Temático: A Criação Literária
Horário: A partir das 19h30
Público alvo: estudantes universitários, professores, poetas, prosadores e afins.
Local: Salão de eventos do SESC Garanhuns


sábado, 21 de abril de 2012

terça-feira, 3 de abril de 2012

Diversos Afins

Conto de Gerusa Leal na Diversos Afins - 66ª Leva - abril/2012

Dedos de Prosa II

COSTUME
Foto: Kenia Vartan

Escorada na porta, olho para a cozinha: tamboretes, mesa e armário de louça enegrecidos pelo tempo, panelas, conchas e peneiras cansados pelo uso suspensos no ar por ganchos fixos no teto, a noite já bem instalada.

Em que momento havia começado a me acostumar?

O menino brinca e sorri, neto em casa de avó. Aparece de vez em quando. Não pede comida, não quebra nada, não fala, não geme nem suspira. Minha filha adorava brincar com ele, que sorria e brincava com ela de igual para igual.

Acho que por isso tudo, e porque não pede doce nem missa, também fui me acostumando.

Depois de circular para lá e para cá o dia inteiro cuidando da casa, nem pra comer se senta, Da Paz enxuga e guarda a louça do jantar e eu me sento no tamborete ao lado do fogão escutando as dez badaladas no relógio do corredor. Ela tropeça no cachorro deitado ao lado do menino, atento à brincadeira, xinga alguma coisa, pergunta se ainda preciso dela, dá boa noite e some no corredor.

Às vezes chegava a pensar, nesse trajeto sem pouso, que nada me faria mais sair da cama; que nada me restava a não ser esperar pelo nada ao final desse sertão de solo rachado, riachos secos e arbustos retorcidos. Mas havia, sim, havia algo. Ouço a risada infantil e sinto no ar o cheiro do sabonete do banho recém tomado e saboreio esse perfume como se fosse alegria.

O rosto pousado na mão, o cotovelo apoiado na perna, olho o menino girando o pião, que avança pelo piso sem se abalar pelas falhas e tábuas soltas. Mas ele está ainda muito lá adiante. Concentro-me no percurso do pião.

Em qual tábua solta é que foi mesmo que eu parei de girar?

Estamos fazendo companhia um ao outro desde o entardecer. Minha filha chega na porta, estira os olhos até o cachorro deitado ao lado do menino e pensa:

- Já devem ser dez horas.

Depois de conferir se a janela está fechada, some no corredor.

Hoje somos só nós duas e minha neta, Gabriela. Não faz muito, éramos quatro, mas fomos nos dispersando até só restarmos nós. Primeiro foi o menino, depois meu marido, pai de Sandra. Da Paz ainda ficou mais um tempo, mas depois também se foi.

O pião bambeia e para a meus pés: não ouso tocá-lo, chuto de volta para o menino, que me sorri e volta a brincar. Continua a sorrir e a brincar até que, de repente, se vai. Eu sei que ele foi ao quarto de Gabriela. Fecho o casaco sobre o peito, esfrego as mãos para aquecê-las.

Não falamos muito uma com a outra. Já faz tempo que se acabou qualquer assunto que importe. Acabou-se com o silêncio que reina na casa. Sei que ela conversaria se eu quisesse, mas não tenho vontade. As palavras não se formam, e quando alguma passa pelo pensamento, não tem força pra mover a língua. É assim. Por isso não falamos muito.

O cachorro abaixa as orelhas, pousa o focinho sobre as patas e começa a cochilar.

Cai uma gota da torneira, fazendo um som surdo na cuba da pia. Outra começa a se formar, fico esperando que engorde e caia também. Mas ela fica lá, pendurada. Não cresce. Não despenca. O vento sopra nuvens que passam transparentes pelo alto da mangueira, e a gota pendurada finalmente cai.

Sandra passa por mim puxando a gola do robe sobre o pescoço, bebe um copo de água recostada no balcão, os olhos perdidos na noite que entra pela janela. Costumava sonhar muito com minha filha no início, sempre criança, brincando com o menino. Não lembro quando parei de sonhar. Acho que foi quando nasceu minha neta, Gabriela.

Sandra também não sonhou mais. Acorda todas as noites na mesma hora, e vem à cozinha beber água.
Ouço o riso de Gabriela, de lá do berço no quartinho pintado de azul, ao lado do quarto da mãe. Sandra também escuta, seu rosto se anima, e a passos largos some outra vez no corredor.

http://diversosafins.com.br/?p=950

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Anacy

Conto de Gerusa leal em Escritores & Tal http://www.escritoresetal.com.br/main/textos/conto-textos/

Quando vi o carro de minha filha mais velha estacionado em frente ao prédio, caí na real. Tinha esquecido de todo que saí mais cedo exato porque havíamos combinado sair juntas para jantar. Entrei no prédio e sentei na mureta do estacionamento. Só então percebi o carro da segunda filha parado na vaga. Amanda não suportava que alguém faltasse a um compromisso com ela sem desmarcar. Rita era a preocupação personificada.

Eu só queria chegar em casa, tomar um banho, deitar, pôr uma música romântica e continuar curtindo a noite. Por sorte Ricardo morava a umas poucas quadras antes e o convenci de que chegaria bem em casa sozinha. No final meu sexto sentido funcionou outra vez. Teria sido constrangedor ele presenciar minhas filhas me dando bronca. Arrumei os cabelos com as mãos, respirei fundo e entrei no elevador.

Todas as luzes do apartamento acesas, Amanda no celular, Rita no telefone fixo. Assim que me viram, desligaram os aparelhos sincronizadamente e avançaram em minha direção.

- Graças a Deus, já estava ligando para a polícia. Por que seu celular está sempre fora de área ou desligado?
Já cansei de lhe dizer pra se livrar desse dinossauro e comprar um celular decente. Mas enfim, por que demorou tanto? Por onde andava?

Amanda me olhava sem dizer palavra.

- Como vêem estou viva. Para quê esse escarcéu todo? E quantas perguntas, Rita, parece uma metralhadora.

O efeito da brincadeira foi paradoxal. Rita começou a chorar se lamuriando e me acusava de insensível. Agora um mecanismo automático que eu conhecia bem havia sido acionado e uma queixa puxava uma crítica, que puxava uma queixa, e a não ser por um colapso o fenômeno só parava quando descarregavam as baterias. Olhei para Amanda.

- Tudo bem?

Ela enfrentou meu olhar num silêncio mais eloqüente que a verborréia de Rita. Meu coração se apertava. Inesperadamente Amanda desatou também a chorar.

- Você sabia que havíamos combinado de ir jantar. Custava ter ligado dando sinal de vida?

- Esqueci, desculpe, me envolvi com uma coisa e outra e esqueci.

- Ligamos para a casa e os celulares de todas as suas amigas e só o conseguimos apurar que às oito da noite você pegou uma carona para casa com uma antiga colega de faculdade, mas que ninguém tinha visto nem sabia quem era. E já são onze horas. O que queria que pensássemos?

Não tinha feito nada errado além de esquecer do compromisso com Amanda mas me sentia mais culpada que o normal. Eu com medo de ser castigada por minhas filhas por haver chegado em casa mais tarde sem ter avisado antes?

- Saí daqui cedo para encontrar com a turma no baile da terceira idade, como faço toda quarta-feira, vocês sabem. Quando já estava de saída encontrei uma velha amiga que não via há anos, está morando no nosso bairro e me convidou para voltarmos juntas, pôr a conversa em dia. Depois de um tempo deu fome, paramos para comer uma pizza e tomar um chope e continuamos caminhando para casa, fazer a digestão.

- Andando? Só as duas? Do clube até aqui? Está mesmo senil. Já ouviu falar em assaltantes, marginais, latrocínio?

Já quase perdendo a paciência, tentava recuperar a autoridade materna.

- Rita, não é tão longe assim. É bem iluminado e até essa hora ainda tinha muita gente nas ruas. Sinto ter assustado você e obrigada pela preocupação, por ter vindo até aqui. Amanda, desculpe mais uma vez o esquecimento, não foi proposital, aconteceu.

- Eu já tinha combinado uma saída com amigos quando Amanda ligou. Ela só perguntou se você estava comigo, não queria alarmar, nem disse que estava preocupada, mas eu senti no tom de voz.

- Desculpem.

- Acabei cancelando a saída para vir aqui.

- Sinto muito.

Amanda pegou a bolsa e as chaves do carro. Rita fez o mesmo. Já da porta, virou e sorriu.

- Tá, o que importa é que você está aqui e bem. Mas enfim quem é essa velha amiga? Nós conhecemos?

Já mais tranqüila, considerando a crise superada, ri.

- Na verdade não foi uma amiga. Foi um amigo – disse meio sem graça.

Ela acentuou o sorriso.

- Hum, um amigo…

E numa demonstração rara de controle, transformou o sorriso na cara mais fechada que eu já vira nela.

- É pior do que eu imaginava – Amanda falou por ela.

Suspirei arrependida de ter dito a verdade. Aquele não era mesmo o momento para isso. Só porque eu achara a coisa mais gostosa do mundo, depois de anos pensando que não existia mais para os homens, passar algumas horas com alguém gentil, confiável e atraente, e porque havia chegado em casa flutuando em nuvens e querendo que o tempo parasse, isso não queria dizer que minhas filhas ficariam felizes por mim, muito menos que veriam as coisas pelo mesmo ângulo.

As duas largaram as bolsas e sentou uma de cada lado, no sofá, me cercando.

- Eu não acredito – era Amanda com aquele seu jeito de ser tão explícita nas entrelinhas.

- Vá para casa. Seu marido já deve estar sentindo sua falta. Vá você também, Rita. Garanto que ainda não alimentou seu gato hoje. Sinto que não é um bom momento para levarmos avante esse assunto. Não há clima.

- Não, mamãe, agora queremos saber.

- Muito bem então. Encontrei com Ricardo, um antigo colega de universidade, no clube, conversamos, viemos para casa caminhando e na metade do percurso comemos uma pizza juntos. Foi isso.

- Saiu para jantar com um cara que encontrou num baile da terceira idade pela primeira vez desde a faculdade?

Incrível. Parecia até que eu tinha ido a um motel com um perfeito estranho, no primeiro encontro. Será que elas não percebiam que eu não era uma garotinha inexperiente e indefesa? Por que tanto barulho?

- Sim, foi isso mesmo, qual o problema?

- Você não sabe? Depois reclama quando a gente diz que não tem mais idade para estar saindo por aí sozinha. Por que não pergunta a qualquer adolescente? Sua filha mais nova, por exemplo. Pena que ela tenha ido dormir na casa de uma amiga. Diria com toda a clareza qual é o problema. Qualquer adolescente sabe. Com a diferença que você não é mais uma adolescente.

Elas percebiam. Não era esse então o problema.

- Além do que você não tem mais idade para essas coisas, mãe.

Estava enganada. Era esse, exatamente, o problema. E que tais coisas eu fizera para não ter mais idade para elas? Sair com um amigo? Tomar um chope? Conversar?

- Chega, meninas. Vão para casa antes que eu diga algo de que me arrependa amanhã.

Rita me deu um beijo e se despediu. Amanda saiu sem me olhar nem abrir a boca.

Tranquei a porta e sentei um instante tentando pôr as idéias e os sentimentos no lugar. Tanto tempo havia se passado desde a última vez que eu vira Ricardo. E hoje descobrir que ele já é meu vizinho há alguns anos.
Provavelmente passaria mais uma eternidade, quem sabe o resto da vida sem vê-lo. Quanta bobagem.

Pena que o embate com as meninas me deixou tão sóbria e lúcida que o restinho de encantamento que pretendia curtir até pegar no sono evaporou como por mágica. Lembrei que tinha sessenta anos e pelo menos três quilos de sobra na cintura que já desistira de tentar fazer sumir.

Embora de vez em quando me dessem preocupações, me sobrecarregassem ou me magoassem eu adorava meus filhos. E os netos então nem se fala, eram meus tesouros.

Apaguei a luz da sala e fui pelo corredor direto para a cama. Sonhei a noite inteira com Ricardo. Eu vestia um vestido lindo e esvoaçante e ele, em um terno claro, camisa sem gravata, mais elegante do que nunca, me tirava para dançar. A lua clareava a pista, que era no meio de um jardim ao ar livre e onde dançávamos a sós. Não sei de onde vinha a música nem me preocupou isso no sonho. Mas era maravilhosa. Ele pôs a mão em meu rosto, sorriu e quando pensei que ia me beijar, disse: boa noite, Anacy, e eu acordei com o toque do interfone.

- Um rapaz deixou uma encomenda para a senhora.

- Acordei agora, seu Manoel, não dava para colocar no elevador e eu pego aqui?

- Agorinha mesmo.

Quando a porta do elevador abriu pensei que ainda estava sonhando. No carpete o mais lindo arranjo de flores que eu já vira. As pernas tremeram. Peguei o arranjo antes que o elevador fechasse outra vez.

Entrei no apartamento e sentei com as flores no colo, apatetada. Havia um envelope, e dentro um cartão. Podia até ser sonho mas não era engano, era eu mesma a destinatária das flores.

Anacy,
Adorei nosso passeio ontem.
Quer jantar comigo amanhã?
Ricardo

Comecei a sorrir como se tivesse esperado por aquele convite a vida inteira. De repente caí na real outra vez. E as meninas? Ah, azar. Depois eu pensava nesse detalhe.

Acabava de colocar as flores no vaso quando o telefone tocou.

- Alô?
- Gostou das flores?
- São lindas.
- Apanho você em casa?
- Não, não, é que há uns desdobramentos, depois, pessoalmente, eu explico.
- Então o que sugere?
- Nos encontramos na pizzaria de ontem. Lá resolvemos onde jantar.
- Às oito?
- Às oito.

Tinha uma voz ainda mais sensual ao telefone.

Telefone. Liguei correndo para Graça, que ria de toda a história, e mais ainda quando lhe pedi que se algum de meus filhos ligasse querendo saber onde eu andava dissesse que eu tinha ido ao banheiro, comprar cigarros, qualquer coisa. E desse um toque para o meu celular.

- Acho isso meio absurdo, afinal você é adulta, mas se é assim que deseja serei seu álibi. Se vocês forem discretos eles nunca saberão. Afinal é apenas um jantar e pode ficar só nisso não é? Ou você tem planos mais ousados? – e riu.

- Pode parar de zoar. É só isso mesmo. A não ser que acabe não sendo – sorri. Então estamos combinadas.

Sentei junto à janela e comecei a cuidar das flores na jardineira. Quanto tempo andei tão só sem perceber.
Como pude deixar que me fizessem de velhinha quando ainda não era? Seria algum dia? Por que deixei que me convencessem de que com a separação e a idade minha vida útil havia acabado? E a não ser pela morte gente tem prazo de validade? Foi muito bom ter reencontrado Ricardo, ia ser ótimo jantar com ele e o que mais o destino nos reservasse. Mas se descobrisse agora que ele tinha sido apenas só um sonho, fantasia, o mal já estava feito.

No mercado conversei leve com a moça do caixa e as outras pessoas na fila. Comprei um batom novo.
Passei no salão, cortei e pintei o cabelo, ousei um tom e um corte diferentes. Dei metade de minhas roupas, comecei a usar outros modelos e cores que antes jamais ousaria. Minha vida não cheira mais a naftalina. Não há mais sonhos proibidos. Alguns são mais difíceis de alcançar, mas é só planejar com cuidado e paciência.
Voltei a cantar no chuveiro.

Meus filhos acabaram se acostumando a que eu não desse mais muita satisfação da minha vida. Assim como eles não me dão da deles. Deixei de temer críticas e opiniões. São só críticas e opiniões. Eles têm o direito e o dever de fazê-las. E eu as considero importantes, afinal eles me amam. Ouço e avalio a quais devo dar ouvidos. Mas as decisões, certas ou erradas, são minhas.

Passaram três anos daquele segundo jantar. Eu e Ricardo fizemos um trato. Não iríamos morrer lentamente um sufocando o outro. Mais ou menos uma vez por mês recebo um arranjo de flores com um cartão:

Anacy,
Quer jantar comigo amanhã?
Ricardo

Até quando? Quem se importa?

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Os cães

Conto publicado no volume II da coletânea PUBLIQUE-SE! Literatura na Hora! editado pela Livrinho de Papel Finíssimo Editora (livrinhoeditora.blogspot.com / livrinhoeditora@gmail.com), fruto de projeto viabilizado na VIII Bienal do Livro de Pernambuco, com patrocínio da FUNDARPE e da Secretaria de Cultura do Estado de Pernambuco. (a ilustação aqui no blog não consta na publicação)

           A criança apertada entre os braços, a mulher atravessa o bairro desolado, o nariz enfiado por baixo da manta que cobria a cabeça do menino recostada em seu ombro, para esconder o rosto. Sabe que foi loucura, queria apertar o passo mas anda quase sem respirar, espreitando a matilha que invadia as ruas desertas. Não devia, foi bobagem. Não, não pode ficar com a criança.

O menino olhou para ela. E sorriu. E estendeu os bracinhos em sua direção. Ninguém prestou atenção quando o pegou no colo e saiu andando. Devagar.

          Devagar como agora, para não atiçar os cães. Pensa em jogar uma pedra mas não havia pedras na rua, além do mais se acertasse mesmo na cabeça de um e o matasse aí sim estaria perdida - quem mata um cão deve a alma a São Lázaro e será castigado.         Ela sentia que seria castigada, de um jeito ou de outro. Nem sabia o nome do pequeno. O menino começa a chorar, empurra seu peito com as mãozinhas, talvez seja só frio, ajeitou a manta, ele esperneia, apertou ainda mais forte, sentiu o líquido quente empapando seu corpo, precisava chegar em casa, lavar a criança, trocar a roupa urinada, dar-lhe algo que comer, improvisar um lugar para ele dormir, mas não pode andar mais depressa, os cães. Os cães imundos, cães pretos de olhos amarelos - de onde surgiam? - multiplicavam-se e espalhavam-se por todos os lados, seus braços doem de carregar o menino, coloca a criança no chão, andam de mãos dadas - passaria por seu filho? -, anoitece. Está cansada, mas não pode parar - os cães. Servis e covardes criaturas, agora em bandos, ameaçadores, rosnam como se fossem valentes, um para e uiva, deve estar vendo alma do outro mundo nas sombras do fim de tarde - todo agouro para o teu coro, animal tinhoso. Ninguém nas ruas, só ela e a criança. E os cães. Lambendo as feridas da mulher e do menino estatelados no asfalto do cruzamento.

Não devia ter roubado a criança. Não devia. Sabia que seria castigada.

Caminha com o menino, de mãos dadas, pelo bairro desolado. Devagar. Para não atiçar os cães.

Gerusa Leal

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Mas hoje ainda não


 
http://www.escritoresetal.com.br/site/2011/11/mas-hoje-ainda-nao/
 
Posted by on 2 nov 2011 in Destaques, Poema | 0 comments
 

Sempre chove no dia dos mortos
já são três horas da tarde
e hoje ainda não choveu.
O Captain! my Captain! Rise up and hear the bells.
Hear the sound of silence as well.
Sempre chove no dia dos mortos
mas hoje ainda não choveu.

No limiar do outro mundo
em fila eu vejo os meus
que antes de mim se encantaram.
O Captain! my Captain!
Sempre chove no dia dos mortos
e os olhos dos céus se nublaram
mas hoje ainda não choveu.

E se antes do fim do dia
a chuva me alcançar
não encontrará casa limpa
nem mesa posta também
e nada estará no lugar.

O Captain! my Captain!
que o poema encontre os versos
que dizem de aproveitar
o dia que já se finda.
Pois sempre chove no dia dos mortos
mas hoje não choveu ainda.

Resultado Final do II Prêmio #TOC140


1° @marcos1moura GOYA TRAGOU MEU SONO// Éluard eternizou-se em minhas pálpebras/ Matisse sarou as feridas/ E até hoje vangogueio/ Pelos campos da cana #TOC
Marcos Roberto Moraes de Moura. Recife, PE.
 
22316 (36.37%)
2° @simonebrichta Ex-impressionismo// No lago do cisne/ a bailarina de Degas/ ouviu o grito de Munch. #TOC
Simone de Fátima Brichta. Fortaleza, CE.
 
12587 (20.52%)
3° @Daniele_SF BLECAUTE// TV não liga/Computador trava/E o que seria da nova era /se por trás dos prédios /não houvesse um céu sem tomada? #TOC
Daniele Souza Freitas. Criciúma, SC.
 
9967 (16.25%)
4° @GerusaLeal O outono cintila em prata nos cabelos dela / No sorriso largo e na blusa florida / ainda passeia descuidada a primavera.#TOC
Gerusa Barbosa Leal. Olinda, PE.
 
8953 (14.59%)
5° @flaviomachado59 águia//embalsamada/pousa na palmeira/os gritos de desesperos.#TOC
Flavio Machado. Cabo Frio, RJ.
 
4032 (6.57%)
6° @carlaceres Arco-Íris // Mil pingos de chuva / seduzem a luz solar / que, em cores, se curva. #TOC
Carla Ceres Oliveira Capeleti. Piracicaba, SP.
 
1353 (2.21%)
7° @rodrigodomit Minimalismo: Papelão sobre tela / jornal sobre calçada // Muito pouco sobre quase nada // A dura arte de sobreviver #TOC
Rodrigo Domit. Rio de Janeiro, RJ.
 
1252 (2.04%)
8° @Sempoesianaoda OLHOS DE LIZ TAYLOR-Tão fácil antes/falar deles:/céus acesos na tela./Difícil é agora/que se apagaram/como safiras engolidas por lobos # TOC
Sérgio Bernardo. Nova Friburgo, RJ.
 
434 (0.71%)
9° @adrianarazia: OBRA// No avesso do barro/ Fractais adâmicos// Impressões digitais do oleiro/ Engendram alma/ Vida/ Arte/ No corpo terral do pote #TOC
Adriana Cristina Razia. Quatro Barras, PR.
 
304 (0.5%)
10° @juauqxz Homologia// Não à toa/ o movimento de abrir janelas,/ abrir asas/ e abrir livros é o mesmo:/ é o movimento da liberdade. #TOC
João Paulo Silva Mammana. Sumaré, SP.
 
154 (0.25%)
Total de Votos: 61352
http://www.premiosfliporto.com.br/2011/resultado.php

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Escritores & Tal

Só por um instante

http://www.escritoresetal.com.br/site/2011/09/so-por-um-instante/

Posted by on 11 set 2011 in Blog | 0 comments
Owl Clock

Bum. Bum. Bum. Bum. O socador golpeia o chão compactando o solo bum bum bum bum. A poeira cinzenta cobre as botas cinzentas sem cadarços sem meias as pernas magras mergulham nas calças desbotadas, os joelhos dobram, esticam e bum bum bum bum as mãos ressecadas pelo cimento, calejadas pela madeira das hastes do socador que bum bum bum bum a camisa bem gasta aberta no peito que se contrai e distende enquanto o socador bum bum bum bum a cabeça que levanta deixando ver o rosto e bum. O socador pousa na terra, a mão segura a ponta da camisa, passa no rosto enxugando o suor.
E ela vê então o pedreiro, mas só por um instante, um ínfimo instante.
Aperta o passo atravessa a rua as pessoas indo e vindo, as fachadas das lojas, as placas, os pontos de referência, está com pressa, não sabe direito o caminho. Perde-se.
Perde a hora. Perde a urgência, se senta na tora de madeira embaixo da árvore.
E bum… bum… bum… bum… Deixa a moça ela tá descansando e bum… bum… bum… Menino, para de mexer aí e bum… bum… bum… e o ônibus parou e abriu a porta e alguém subiu dando bom dia ao cobrador. Será que tá passando mal? e bum… bum… tá tá tá tá tá tá tá o martelo na madeira desmontando o tapume.
O cheiro da rua é forte, mistura de esgoto com fruta, verdura, carne, suor, óleo diesel, flores, suspira e bum sumiu tudo, tudo parou, o silêncio zumbindo ao redor.
Foi tanto tempo, foi quase nada, e Bum. Bum. Bum. Bum.
Está atrasada, abre os olhos, levanta, atravessa a rua, caminha alguns passos, reconhece a fachada da loja, sobe as escadas, apanha o relógio que deixou no conserto.
Coloca no pulso, desce os degraus lentamente, agora tem tempo. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tic. Tic. Tic.
Merda. Parou outra vez.

domingo, 31 de julho de 2011

Notas Cotidianas e Literárias X

UM POEMA DE GERUSA LEAL

Em Versilêncios (2008), Gerusa Leal pratica uma escrita delicada e sem alarde, mas também sem resignação nem aceitação cega do que a rodeia. Vive e exprime situações cotidianas em sua inteireza ou parcialidade. Questiona os atos simples da vida para melhor compreendê-los. Interage com o ambiente exterior através da poesia que enfoca ângulos diferenciados de visada na percepção de seres e objetos, na fatura que passa a limpo como espetáculos do mundo um vaso de flores, uma laje de prédio, uma vizinha próxima e ao mesmo tempo distanciada. E isto se verifica tanto naqueles dias em que nada dá certo e é preciso esperar pelos instantes seguintes em que porventura o mundo e as idéias retornem ao seu imprevisível lugar. Não intenta estabelecer, nos seus poemas, nenhum ciclo novidadeiro ou fluxo inventivo impossível de ser conseguido por agora. É um fato que, na atualidade, escasseiam materiais concernentes e renovados para isso, no caos de uma grande produção que vem permeando a poesia ao longo dos séculos. Sem se abater, ela trabalha com afinco os materiais líricos que se mostram à mão. Por isso, dirá no poema “Escrevedor”:

não escrevo o que não sinto
amadora que sou
sinto o que não escrevo
jeito de driblar a dor

escrevo o que não sinto
salvo a vida
não sinto o que não escrevo
nem percebo que vivi

O poema não partilha ilusões, falseadas às vezes, ou assimiladas cotidianamente pela sina do ser poeta. Vislumbra a condição e o fingimento pessoano, que anula a dor suposta e a real, e, por uma ironia suprema e incisiva, passa a reafirmar sensivelmente o amor. Assim, no estrato secular e fragmentário das formas e sentidos, Gerusa Leal procura descartar discretamente a “dor”. Elege a “vida” antes da escrita do que não se sente. E assume o silêncio do não escrever que não se amplie em vida, que não renda homenagem ao milagre de se estar vivo.



http://omundocircundante.blogspot.com/2010/02/notas-cotidianas-e-literarias-x.html

terça-feira, 26 de julho de 2011

Despedida: encantou-se nosso Luiz Carlos

Faleceu na noite desta segunda-feira, 25 de julho, nosso querido colaborador Luiz Carlos Monteiro. O poeta e crítico nasceu em Sertânia e, pelas notícias que chegam, encantou-se também no sertão pernambucano, em Sertânia. Era graduado em Pedagogia, com mestrado em Teoria da Literatura pela UFPE. Publicou, entre outros, os livros de poesia Na solidão do neon (Pirata, 1983), Vigílias (Fundarpe, 1990), Poemas (Ed. Universitária da UFPE, 1999) e O impossível dizer e outros poemas (Bagaço, 2005).
Já com saudades, demais!

quarta-feira, 20 de julho de 2011

O susto chega no calor da tarde (ou no frescor da manhã?)

por Gerusa Leal
        “Observo seu esforço, pois a doença ainda o sobrecarrega com seus ásperos vestígios. E sua coragem, atributo que sempre o distinguiu, não só como homem, mas também como escritor.” Assim inicia José Castello, em seu blog A literatura na poltrona, relato sobre seu reencontro com Carrero, em mesa de abertura do Laboratório de Autoria Ascenso Ferreira, no SESC Santa Rita, no final de abril, uns seis meses após o acidente vascular cerebral que o amigo sofrera.
        A conversa era sobre Literatura e Realidade. Em cinco de maio, Castello nos dizia: “Acompanho a fala de meu amigo e percebo, de repente, que sua doença - afora todas as contingências médicas, que são reais - é um sintoma literário. A escrita de Carrero força com fúria as fronteiras da literatura, desferindo golpes duros na própria cauda (como "pedras que se consomem").”
        Diante desse comentário de Castello, e ao iniciar a leitura do romance SERIA UMA SOMBRIA NOITE SECRETA - frase de Retrato do Artista quando Jovem, que Carrero emprestou de Joyce, para título e início da epígrafe da nova obra – me chega com um certo sabor de biografia às avessas, denunciando o quanto de sua alma, de seu sangue e de seus nervos Carrero doou ao apaixonante Alvarenga, protagonista dessa sua mais recente narrativa publicada, e que será lançada dia 21 na Livraria da Jaqueira.
        E aí, tanta razão tem Castello, fica muito difícil separar o homem do escritor (a literatura da realidade). Para Alvarenga, o susto chega no calor da tarde. Para Carrero, foi no início do dia ou, como diz meu amigo, Às vésperas do sol. Um susto em que talvez a ficha só tenha caído depois. Diria Alvarenga: “Porque só depois é que a gente percebe o perigo que correu.”
        Não dá pra deixar de pensar que a voltagem de investimento no protagonista do romance foi tão alta que em alguns momentos o narrador parecia estar escrevendo uma biografia antecipada do autor. Alvarenga, também “Ele se viu sem controle. A primeira sensação era de que estava perdendo o controle do corpo. Tem isso? Tem isso mesmo de perder o controle do corpo? Uma coisa por demais esquisita.”
        Uma coisa por demais esquisita, amigo Carrero. A vida e a literatura, irmãs de sangue, têm coisas muito esquisitas. E Alvarenga talvez seja um personagem tão apaixonante, apesar de tão próximo da gente de maneiras que a gente não consegue explicar racionalmente, porque mesmo não sendo irmão de pai e mãe, é seu irmão de sangue. Pulsa em suas veias o sangue que você lhe doou, em transfusão que, diria Castello, talvez quase lhe custou a própria vida.
        Mas não vamos falar mais de Carrero, nosso amigo querido, mestre e exemplo na literatura, e de vida, de força, de determinação, de entusiasmo e de um humor que faz rir à própria morte. Pois Carrero nós já conhecemos e amamos. Vamos falar e ir atrás de conhecer, viver, rir e chorar com Alvarenga, que foi sorveteiro, sim. Que toca corneta, sim. Que nutre, sim, um afeto de total doação e abnegação por Rachel. Mas que é tão único, e tão vivo, que apesar de toda falta de capacidade de se expressar, e até de se entender a si próprio, nos encanta com sua humanidade.
        Alvarenga que “não sabia fazer nada de propósito”. Alvarenga em quem, apesar de toda bizarrice, “Há algo de reverente.” Que nunca decorou o nome da mãe. Que cresceu com aqueles sapatos e aquelas roupas tão maiores do que ele, e “de não trocar nunca.” A quem qualquer um teria “imensa dificuldade para olhá-lo, aquele menino na sua pureza, na sua elegância.”
        Alvarenga nos apaixona tanto e nos convence tanto com a sua realidade, sua autonomia, mesmo tão dependente de Rachel, que quase esquecemos que não estamos bem apenas olhando pelo buraco da fechadura e enxergando gente de verdade existindo. Que há ali um autor calejado, em todos os sentidos, que sofisticadamente entrega a narrativa à personagem e pede: “Você conta por mim, Rachel, conta?” E a quem Rachel responde: “para evitar sua exposição, por orgulho e vaidade, eu conto. O que você faz é organizar. Está bem?” Ou terá sido a Alvarenga que Rachel respondeu?
        E assim Rachel, quem sabe se “por orgulho e vaidade”, acredita que é ela, e só ela, quem conta a história. A história de Alvarenga. Contada na verdade pelo grande romancista que, apesar de uma obra tão madura e consistente, apesar do total domínio técnico dos recursos de criação, continua em busca da invenção, da superação, de forma apaixonada, mesmo com todas as angústias desse processo que muitas vezes, lá pelo meio da obra deve pensar: “Não devia ter chegado até ali, não devia, e agora não sabia mais andar, e tinha que atravessar a ponte, tinha de continuar andando, ah, meu Deus, para que foi começar, por que fizera a loucura de chegar até ali?” Ou teria sido Alvarenga quem pensou?
        O escritor, em Seria uma sombria noite secreta, nos conta uma outra história incomum, com personagens absurdamente cativantes, envolve-nos, seduz-nos com as personalidades dos dois, com seus jeitos de serem gente embora, como diria ainda Castello, “insubordinados, que não se submetem a regras e que agarram a vida com desespero, mas com fé.”
        E às vezes Alvarenga pensa ah, “Nunca escolheria uma ponte se lhe fosse dado escolher.” Ainda bem que não lhe é dado, meu amigo Carrero, para a riqueza da literatura, e para sorte nossa, que saímos sempre outros dos mergulhos em seus romances. Mas chega de falar em Carrero, vamos atrás de Alvarenga pois “Agora o olho era ele.” Vamos nos empapuçar de boa literatura, escrita por quem vive a literatura feito a vida pois, sem isso, “A vida é tão pouco, não é?”

Serviço:

Sessão de autógrafos: 21 de julho, 19 horas, na Livraria Jaqueira - Recife/PE

http://www.interpoetica.com/site/index.php?/O-susto-chega-no-calor-da-tarde-ou-no-frescor-da-manhã.html

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Histórias Possíveis - edição 61

HP 61

junho 19, 2011 por historiaspossiveis

Dos Colaboradores

Meu filho – Daniela Mendes
Vi uma meia suja jogada no canto do banheiro, a água de uma piscina se espalhando para fora depois de um berro “Olha mãe”. Continue aqui
Quando se acabam os andares – Dheyne de Souza
Mas você está louca? Você pode me explicar o que raios merda caralho é isso? Continue aqui.
Autorretrato – Erwin Maack
A grande sensação que o assaltou foi a da inevitabilidade da morte. Ela o atingira profundamente ao levar seu velho. Continue aqui
Costume – Gerusa Leal
Em que momento havia começado a me acostumar? Continue aqui
Todas as cores da vida – Leandro Resende
Tudo constrange a quem chega. Mas não ocorrem tantas visitas. Só pizzas e putas. Poderia dizer a todos que aquilo era um mesa-de-centro, um aparador. Continue aqui.
Paris, meio Dia – Lucia Bettencourt
Um padre, jovem, atlético, não resiste ao encanto da jovem, de seus cabelos desalinhados, de seus ombros delicados e friorentos por baixo do xale florido. Continue aqui.
Ela insiste em falar comigo em húngaro – Wesley Peres
Ela fala português, não muito bem, mas o suficiente, mais do que suficiente para que eu a entenda em português. Continue aqui

Dos Assinantes

Vivendo de brisa – Bernardo Morais
E como amar ainda era de graça, Oriomba e sua recém eleita patroa deixaram-se envolver pelo relento irresistível do depois, de forma que, adormecidos, não deram atenção à panela de alumínio fundido. Continue aqui.
Caixa de Espelhos – José Carneiro leão
Mesmo assim, pela saudade dele, por querer vê-lo e sentir sua presença, vesti uma roupa de estreia, maquiei-me finamente, preparei o cabelo só para abrir a caixa de espelhos. Continue aqui.
Imagem: Wenders, Wim. Der Himmel über Berlin



Adquira aqui a nossa coletânea de contos publicada em e-book!!!

Entrevista ao NotaPE

Entrevista: Gerusa Leal



Gerusa Leal nasceu em Recife, Pernambuco, mora em Olinda e é autora de contos e poemas publicados nas coletâneas Contos de Oficina, organizadas pelo escritor Raimundo Carrero, Panorâmica do conto em Pernambuco, Anais da FLIPORTO, Haikais poemínimos senryus, Recife Conta o São João (pela Fundação de Cultura Cidade do Recife) e em alguns blogues literários. Conquistou premiação nos concursos Luís Jardim, com o conto “Por um triz”; Prefeitura de Cordeiro – RJ, com “Anacy”; Maximiano Campos, com “Os brincos prateados”; Fliporto com o poema “Momento”, e o prêmio Edmir Domingues de Poesia 2007 da Academia Pernambucana de Letras, com o livro de poemas Versilêncios.

por Thiago Pininga

Quais são os autores que mais influenciam na tua escrita e quais são as contribuições e/ou novidades deles, na sua opinião, para o desenvolvimento da Literatura de modo geral?

São tantos, Thiago. A gente vai assimilando autores ao logo de toda uma vida de leituras então não há muito como dissecar as influências já metabolizadas, que atuam a partir do inconsciente. Conscientemente, de uma penca, vou selecionar por serem os que agora me vêm à mente, Machado de Assis, Flaubert, Tchechov, Raimundo Carrero. Machado, por uma narrativa oblíqua e dissimulada, um narrador não confiável mas absurdamente convincente, que convida o leitor, a partir de marcações ou de técnicas mais sofisticadas, para participar da trama; Flaubert por narrar seletivamente a partir do ponto de vista do personagem, como tão bem disse Vargas Llosa em A Orgia Perpétua: “A grande contribuição técnica de Flaubert consiste em aproximar tanto o narrador onisciente do personagem que as fronteiras entre ambos se evaporam, em criar uma ambivalência na qual o leitor não sabe se aquilo que o narrador disse provém do relator invisível ou do próprio personagem que está monologando mentalmente.”; Tchechov pela eloquência dos silêncios narrativos. Como alguém já disse, não me lembro agora quem, a profundidade da alma das personagens não é descrita por meio de palavras, mas está por detrás dos diálogos, das cenas, dos cenários, dos pequenos detalhes narrativos, deixando o texto, que também rompe com a estrutura linear de começo, meio e fim, ‘em aberto’, dando espaço para que o leitor o complemente com suas próprias impressões; Raimundo Carrero principalmente pelo desenvolvimento do que ele batiza como ‘pulsação’ narrativa – do texto, do personagem, do leitor, onde a tradição e a subversão se unem, atendendo à função não de atingir a ‘perfeição’, a ‘correção’, mas a serviço da ‘pulsação’ que é única para cada texto, cada personagem, cada leitor.

 E com relação a tua produção de poemas?

Minha produção de poemas foi uma coisa assim sazonal, fui provocada por Márcia Maia a fazer uma oficina de quatro dias com Frederico Barbosa, depois me convidou a participar de um grupo pequeno de poetas daqui, do RJ, de São Paulo, de Vitória, e ali a gente exercitou, durante uns três anos, a criação de poemas provocados por uma imagem, uma frase, os poemas uns dos outros, espontaneamente. Após esses três anos, a mesma Márcia Maia me instigou a participar de um concurso na Fundação Cultural de João Pessoa e de outro na Academia Pernambucana de Letras, que aconteciam ao mesmo tempo. Tive que juntar tudo que eu tinha, pois o de J. Pessoa pedia um mínimo de 70, 80 páginas, não me lembro bem. Em João Pessoa, nem menção honrosa. Na APL, foi o prêmio de poesia do ano, isso em 2007. Animada com o retorno, entrei com um projeto no Sistema de Incentivo à Cultura da Prefeitura do Recife, que foi selecionado, imprimi como edição do autor, lancei, divulguei, vendi. Toda essa coisa de publicar por conta própria me tomou tanto tempo e energia que acabei dando uma parada na produção. E de lá pra cá raramente tenho escrito um poema. Baixou uma autocrítica mais severa ainda do que antes de começar a escrevê-los. Não sei se, e quando, voltaria a me concentrar na produção de poemas. Voltei à prosa, que me dá muito mais trabalho, onde os resultados não tem sido tão gratificantes, mas que me dá muito mais prazer, é algo que tenho meio que como hobby, meio como cachaça, mas também, cada vez mais, mais focada na brincadeira de escrever que na preocupação em divulgar ou publicar, seja por que meios forem. Basta uma provocação pra me fazer escrever um conto. O diabo é o tempo que levo burilando…rs Mas passo sem escrever. Não passo mesmo é sem ler, pelo menos algumas páginas, um poema, por dia. Me faz bem.

Gerusa, você falou algo importante com relação a crítica. Como vê a produção de nossos críticos literários? Só existem no meio acadêmico ou círculos fechados? A Internet é um bom meio para discutir e analisar uma obra?

A pergunta é provocativa, Thiago, mas vou me ater ao que você julgou importante com relação a crítica. Falei de autocrítica. Autocrítica no sentido que dei à minha resposta anterior tem muito mais a ver com uma espécie de superego literário do que com qualquer crítica literária no sentido acadêmico. É muito mais uma espécie de autoexigência pautada pela bagagem acumulada de boas leituras. Não tenho, absolutamente, como opinar sobre a produção de críticos literários, notadamente os acadêmicos, já que minha formação acadêmica é em outra área, está para as bandas da psicologia. Como leitora, gosto quando leio um crítico que de fato leu a obra e que de fato consegue, mesmo se valendo de ferramentas adacêmicas e parâmetros externos, enxergar a obra de dentro, no que ela tem de singular, de próprio, a partir dela mesma, principalmente naquilo que ela tem de estrutural, de formal, de estético, sem descurar, claro, do conteúdo, da legibilidade. Mas não valorizo muito, como leitora, uma crítica que se foca demasiadamente apenas no conteúdo da obra, na história contada e, muito menos, naquela que se sustenta basicamente em cima da biografia do autor. Como pretensa escritora, acho que meu sonho de consumo seria o de uma crítica que, levados em conta os parametros acima, externos e interiores à obra, apontasse pontos fortes e fracos, e fizesse um balanço geral sobre a qualidade da obra. Balanço este que será, sempre, por mais parâmetros objetivos que se tenha, pessoal, subjetivo. Os críticos, meu amigo, existimos por toda parte. Nos criticamos e a todo mundo a cada instante. A crítica é uma atividade humana por excelência. A exteriorização dessa crítica é que precisa ser pensada. Porque é importante. Porque forma opinião. Porque, se o criticado tem mente aberta, tem muito a crescer com qualquer crítica, mesmo as incompetentes e/ou maldosas. E pensar não é prerrogativa do meio acadêmico; se pensa no meio acadêmico e fora dele. A internet é um meio como outro qualquer, com suas vantagens e desvantagens. Para mim tem a vantagem de me permitir ler ao invés de ouvir, já que sou muito visual, e surda de um ouvido, então ao ouvir sempre perco alguma coisa. E também porque nos permite ler e interagir, se for o caso, sobre a análise de uma obra, no tempo, no ritmo, no jeito de cada um. Acho válido como meio, pelo menos para quem não sofre de tecnofobia ou não acha que para salvar o mundo, mesmo que apenas o literário, precisemos voltar à idade da pedra. Até porque a caneta e o teclado são bem mais práticos que o martelo e o cinzel para materializarmos nossas ideias. Mas há quem discorde, até por questões de imperialismo econômico.

domingo, 5 de junho de 2011

O grito e as botas

http://ogritoeasbotas.blogspot.com/2011/05/gritos-e-botas-por-gerusa-leal.html 

Segue mais uma importante colaboração com nosso projeto. Dessa vez um conto e um poema foram analisados e comentados pela escritora Gerusa Leal.

Conto - Um novo ideal para um par de sapatos, de Rafael Eduardo.
Poema- ( Sem título ), de Danielly Vieira - Que você conheceu AQUI

Sobre Gerusa...

     Gerusa Leal nasceu em Recife, Pernambuco, mora em Olinda e é autora de contos e poemas publicados nas coletâneas Contos de Oficina, organizadas pelo escritor Raimundo Carrero, Pimenta rosa, O fim da velhice, O talento com as palavras, Panorâmica do conto em Pernambuco, Anais da FLIPORTO, Haikais poemínimos senryus, Recife Conta o São João (pela Fundação de Cultura Cidade do Recife) e em alguns blogues literários. Conquistou premiação nos concursos Luís Jardim, com o conto "Por um triz"; Prefeitura de Cordeiro – RJ, com "Anacy"; Maximiano Campos, com "Os brincos prateados"; Fliporto com o poema "Momento", e o prêmio Edmir Domingues de Poesia 2007 da Academia Pernambucana de Letras, com o livro de poemas Versilêncios.

Sobre o Conto...
Trecho
"Lembrava-se do que antes achava serem seus dias de glória, quando transitava por doces ruas, inalando o talco dos pés perfumados... quando contemplava um futuro de bota de rei. Contemplação efêmera."

   Li o conto e quero parabenizar o autor pela criatividade e originalidade do texto. Evidentemente, escrever é, acima de tudo, reescrever. Claro que meu comentário se reveste de todas as minhas preferências pessoais, portanto sem nenhuma conotação de certo ou errado, em que pese ter lido ainda ontem, em entrevista de José Castello ao Diário de Pernambuco, que "A literatura não é o campo do acerto, mas do erro. A questão, em literatura, não é acertar, mas errar bem. O que é o erro? É a maneira com que nos desviamos da regra, da norma, do "certo". É uma espécie de dissonância, com que afirmamos nossa singularidade diante do real. A questão, portanto, é encontrar a sua maneira pessoal de "errar", que é sempre única e imprevisível. Perseguir sua voz interior, fundar os preceitos de sua própria escrita, encontrar a própria voz." pois "Um escritor só se forma na mais absoluta solidão."

     Portanto, permitam-me comentar o texto a partir de minha maneira pessoal de "errar". Que se aproveite o que tiver proveito, e se descarte o que não fizer sentido, afinal, o autor é o dono do texto.

      Como é solicitado que se diga o que não funciona, sugestões, eliminações, dicas, achei melhor copiar o texto em Word, pois lá a ferramenta de inserção de comentários me auxilia a organizá-los. 

 A análise completa do texto foi entregue ao autor - Rafael Eduardo, e estará disponível na integra, no livro de análise que será organizado em breve.

Sobre o poema...
Trecho
É música no bico desse artista
Que geme e grasna e grita um pesadelo
De visões desgraçadas que eu mereço

   Gostei muito do poema. Forma e conteúdo se amalgamam, o ritmo, a métrica, as rimas internas. No entanto, como a opção for pela forma fixa, me arranhou um pouco o ouvido a segunda estrofe. De repente, do segundo verso em diante as tônicas e a métrica claudicam, as rimas parecem forçadas. Acho que é uma estrofe que merecia ser retrabalhada. Reafirmando que gostei bastante do poema.


Um grande abraço e obrigada pela oportunidade do exercício da análise e da crítica.

Nosso grupo agradece o apoio e a disponibilidade.
Aguardamos a escritora no lançamento em novembro!

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Escritores & Tal

Estreia de Gerusa Leal no Escritores & Tal
POSTADO POR GERUSA LEAL DIA 7 DE ABR DE 2011 EM CONTO [COMENTE LÁ]
http://www.escritoresetal.com.br/site/2011/04/sabrina/


Conheci fazendo ponto na frente do hotel. Uma pele de cetim, olhos brilhantes na carinha de criança. De jeans e camiseta, não fosse o falso louro, lembrava minha filha adolescente, corpo ainda em formação.
- Entra aí.
- Já entrei, gatão.
- Quanto é?
- Pra você, cem paus.
- É muito.
- Tá bom, baixo pra cinquenta, se me pagar uma bebida.
Fechou a porta do carro e seguimos. Pedimos duas caipirinhas, o garçom me olhava divertido. Será que o sacana pensava que eu não dava conta da ninfetinha?
- Me dá um cigarro?
Quando aproximei o isqueiro do rosto, vi que tinha o olhar bastante seguro para alguém tão jovem. Me provocava, muito à vontade. Tomamos mais uma, paguei a conta e saímos. Entramos no carro, parado numa rua lateral, sem qualquer movimento àquela hora. Sentou no banco do passageiro, manteve a porta aberta.
- Só tem uma coisa, é adiantado.
- Acha que tenho cara de otário?
- Olha, você parece um coroa legal, já levei calote e agora só adiantado.
Puxei a arma do porta-luvas.
- Entra aí. Tô mandando.
Ao invés de entrar, fez menção de correr. Joguei a arma no chão do carro, dei partida e arranquei.
No dia seguinte era o assunto no escritório.
- Você viu?, mataram mais uma. Dizem que foi queima de arquivo. Tinha testemunhado a morte de uma coleguinha uns meses atrás. Ou então a mocinha não quis dar pra algum bundão.
Não sei o que me deu. Ele era um petisco. Mas não era o único. E nem havia me reconhecido.
Creative Commons License photo credit:  Isa Costa

http://www.escritoresetal.com.br/site/2011/04/sabrina/

Diversos Afins

QUINQUAGÉSIMA QUINTA LEVA
Foto: Cristina Carriconde
 

CICERONEANDO


A dinâmica das imagens sempre se equilibrou, por aqui, com uma certa ordenação textual. Curiosamente, cabe até dizer que, desde o início, nada foi premeditado nesse sentido. Com suas linguagens autônomas, fotógrafos e artistas plásticos, por vezes, promoveram diálogos imprevisíveis com os demais textos selecionados por edição. E quando tudo está em mãos o que se procura realmente é harmonizar sentidos em torno de uma noção de unidade apartada do óbvio. Interessa-nos mesmo é fazer com que tudo seja extraído do mundo numa perspectiva ampla e amalgamada. Nesse partilhar de signos, experimentamos renovadas sensações a cada Leva, como é o caso, agora, dos intensos e sensíveis registros fotográficos de Cristina Carriconde. Atravessados pelos ventos oportunos da poesia, acolhemos como nossas as vozes de Cyro de Mattos, Débora Tavares, Edson Bueno de Camargo, Josely Bittencourt, Silvia Favaretto e Nicolau Saião.
Noutro momento, somos envolvidos pelos epigramas do poeta e filósofo Hilton Valeriano. Para falar um pouco sobre sua carreira e seu mais recente trabalho solo, o cantor, compositor e tecladista dos Titãs Sérgio Britto é o nosso artista sabatinado da vez. Em termos de prosa, contamos com as linhas e entrelinhas amarradas aos textos de Wesley Peres, Gerusa Leal e Nilto Maciel. O convite cinéfilo de Larissa Mendes também aparece como uma instigante opção em torno do mais recente filme da diretora Sofia Coppola - Um Lugar Qualquer. Depois de algum tempo sem lançar um disco inédito, o pai do samba-rock Marku Ribas, com seu 4 Loas, é destaque em nossa coluna Ouvidos Abertos. São 55 Levas cuidadosamente orquestradas para sua apreciação, caro leitor. Seja bem-vindo ao presente!

*Comentários podem ser feitos ao final da Leva, no link EXPRESSARAM AFINIDADES.

http://www.diversos-afins.blogspot.com/

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

HISTÓRIAS POSSÍVEIS EM NÚMEROS

Os números de 2010

fevereiro 24, 2011 por historiaspossiveis Os duendes das estatísticas do WordPress.com analisaram o desempenho deste blog em 2010 e apresentam-lhe aqui um resumo de alto nível da saúde do seu blog:
Healthy blog!
O Blog-Health-o-Meter™ indica: Este blog está em brasa!.