Escrevedor, de Gerusa Leal (Voz: João Gomes)
domingo, 10 de junho de 2012
segunda-feira, 28 de maio de 2012
Participação no Projeto Nós Pós MostraPe
Desagravo
Gerusa Leal
É a terceira noite que ele
não consegue dormir. Empacado. Fica olhando com inveja a liberdade, o
perambular irresponsável, a frivolidade com que ela leva os dias. Faz o
que quer. Ou não faz nada. Enche o saco. E ele ainda atura. Ela é que é
feliz.
Feliz, eu? Sabe você o que é ser parido
no lixão – no esterco?, precisar descolar o rango em restos e perebas?,
ter que trepar nas horas mais quentes do dia e olhos arregalados
eternidade adentro ser obrigada a contemplar tantas mazelas? Nem mesmo
pisco – não sonho, não me iludo. Sabe o que é ter por sina disseminar a
bubônica, febre, lepra, diarréia, tifo, disenteria?, e ainda ter que
ouvir que sou a chata – abusada – que perturbo o seu sono zumbindo e
voando feito doida? É demais.
Apesar de limitada a um mesmo espaço,
parece estar sempre criando novos circuitos de travessia. Quando pousa,
um leve aceno e logo recomeça a dança. Quem sabe me ensina o segredo dos
criativos voejos. A fórmula da fertilidade. Quem sabe é a inspiração de
que preciso pra poder desempacar.
Bem sei que o que te inspiro é desprezo e
a mim só devotas impaciência. Acho incrível que haja no mundo babacas
feito você – podendo dormir à larga e comandar o viver – a varar a
madrugada, brechando uma pobre mosca, ora tenha paciência.
Paciência bem que eu tenho. Mas como a
de todo mundo a minha também acaba. Apanho o mata-moscas e começo a
duelar com a pequena encrenqueira. Mas como a danada é ágil. E como me
desafia. Já golpeei cada móvel. O ar meia dúzia de vezes. Umas três o
próprio corpo.
Quando ele senta, cansado, já desistindo
da luta, pousa bem na sua frente, sobre a folha de papel. Demora-se
alguns segundos, e então, dando uma rabiçaca, alça voo porta afora. Não
sem antes defecar, no texto em que ele escrevia, bem claro e definitivo,
um nítido ponto final.
Só por um instante
Gerusa Leal
Bum. Bum. Bum. Bum. O socador golpeia o chão
compactando o solo bum bum bum bum. A poeira cinzenta cobre as botas
cinzentas sem cadarços sem meias as pernas magras mergulham nas calças
desbotadas, os joelhos dobram, esticam e bum bum bum bum as mãos
ressecadas pelo cimento, calejadas pela madeira das hastes do socador
que bum bum bum bum a camisa bem gasta aberta no peito que se contrai e
distende enquanto o socador bum bum bum bum a cabeça que levanta
deixando ver o rosto e bum. O socador pousa na terra, a mão segura a
ponta da camisa, passa no rosto enxugando o suor.
E ela vê então o pedreiro, mas só por um instante, um ínfimo instante.Aperta o passo atravessa a rua as pessoas indo e vindo, as fachadas das lojas, as placas, os pontos de referência, está com pressa, não sabe direito o caminho. Perde-se.
Perde a hora. Perde a urgência, se senta na tora de madeira embaixo da árvore.
E bum... bum... bum... bum... Deixa a moça ela tá descansando e bum... bum... bum... Menino, para de mexer aí e bum... bum... bum... e o ônibus parou e abriu a porta e alguém subiu dando bom dia ao cobrador. Será que tá passando mal? e bum... bum... tá tá tá tá tá tá tá o martelo na madeira desmontando o tapume.
O cheiro da rua é forte, mistura de esgoto com fruta, verdura, carne, suor, óleo diesel, flores, suspira e bum sumiu tudo, tudo parou, o silêncio zumbindo ao redor.
Foi tanto tempo, foi quase nada, e Bum. Bum. Bum. Bum.
Está atrasada, abre os olhos, levanta, atravessa a rua, caminha alguns passos, reconhece a fachada da loja, sobe as escadas, apanha o relógio que deixou no conserto.
Coloca no pulso, desce os degraus lentamente, agora tem tempo. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tic. Tic. Tic.
Merda. Parou outra vez.
http://mostrape.nospos.org/2012/galeria_escritores_marco_01.phphttp://mostrape.nospos.org/2012/galeria_escritores_marco_01.php
Projeto Nós Pós MostraPe
Apresentação
Projeto Nós Pós MostraPE
O projeto Nós Pós MostraPE é a construção de um grande catálogo vivo da jovem literatura contemporânea pernambucana. E é também uma homenagem a 20 escritores que muito contribuíram com o reavivamento, nos últimos anos, da nossa literatura.O projeto - contemplado pelo edital 2010/2011 do FUNCULTURA – realizará 20 recitais dinâmicos entre os meses de março e novembro de 2012, em três espaços: Casa Mecane (Av. Visconde de Suassuna, 338 – Sto. Amaro), sede pernambucana da União Brasileira dos Escritores (Rua de Santana, 202 – Casa Forte) e Livraria Cultura (Rua Madre de Deus, S/N - Recife Antigo). Todos os eventos acontecerão na segunda quinzena de cada mês, às quintas-feiras, e são abertos ao público.
O formato dinâmico dos eventos e nossa estratégia de ação primam pela limitação de um número específico de escritores por apresentação com o objetivo de assessorá-los e valorizá-los através da veiculação de seus nomes em Plano de Mídia e junto à imprensa, através de notas e matérias, visando valorizar seus portfólios. Esta estratégia é um diferencial que se mostrou altamente bem aceita pelo público e principalmente enriquecedora para o profissionalismo dos escritores participantes. Basta lembrar a movimentação literária vivida em Pernambuco, principalmente em Recife, a partir do ano de 2008, época em que o projeto Nós Pós (que a partir de 2010 foi rebatizado de Projeto MOSTRA) se cristalizou junto ao público e muito contribuiu para a criação de uma nova cena literária. Os eventos serviam de ponto de encontro para, além de se conhecer e consumir os novos escritores do estado, se discutir literatura, trocar ideias e informações, se desenvolver projetos etc. A partir desses encontros – entre outros pela cidade - muitos escritores passaram a ser mais consumidos e valorizados, surgiram grupos literários, e muitos projetos foram idealizados. Desde outubro de 2007 (época do primeiro evento do projeto Nós Pós) mais de 170 artistas se apresentaram nos eventos produzidos pela produtora Nós Pós.
E pensando em reverenciar todos os que protagonizaram este Movimento, resolvemos homenagear, na figura de vinte, todos os escritores deste período para cá. A cada evento um jovem escritor pernambucano será homenageado pela sua contribuição á nossa literatura.
Na programação de cada evento o público poderá conferir o trabalho de seis escritores. A programação prevê, ainda, shows de bandas locais e exposições. Em todo o projeto serão mais de 120 artistas do estado se apresentando.
Paralelamente à produção e execução dos eventos, estamos fazendo um trabalho de catalogação dos artistas participantes, que serão disponibilizados no site mostrape.nospos.org que, periodicamente, será atualizado. Acessando regularmente o público poderá conferir textos e outras informações sobre os mais de 120 participantes, os 20 escritores homenageados e também a programação e locais de realização dos próximos eventos e os vídeo teasers do projeto.
Ainda pelo site os artistas interessados em participar da MostraPE poderão baixar a Ficha de Inscrição e conhecer os Termos de Participação.
Esperamos com este projeto contribuir um pouco mais com a Literatura de nosso estado.
Produtora Nós Pós.
http://mostrape.nospos.org/2012/projeto_apresentacao.phphttp://mostrape.nospos.org/2012/projeto_apresentacao.php
http://mostrape.nospos.org/2012/projeto_apresentacao.phphttp://mostrape.nospos.org/2012/projeto_apresentacao.php
quarta-feira, 23 de maio de 2012
terça-feira, 22 de maio de 2012
Mallarmargens Revista de Poesia Contemporânea
http://mallarmargens.blogspot.com.br
http://mallarmargens.blogspot.com.br/search/label/Gerusa%20Leal
coelhamente
de
estar sentada
sonhando sem
fazer nada
assim
margaridando
correntes
da
suculenta cenoura
restos
de uma dentada
pôr-de-sal
sobre a pedra
escuta o mar
já não lhe teme a
força
escuta o mar
já o fez olhar
tão longe
até onde o céu
baixando
agora tão
diferente
de quando a alma
nos olhos
imaginando
tesouros
em seu peito
a inundar-lhe de
anseios
transborda um outro
mar
e mesmo
forte o rugido
a urgência com
que clama
aprendeu com as
marés
receia o desejo
de entregar-se ao
infinito
suba ao seu corpo
inteiro
sobre a pedra
e apurando os
ouvidos
escuta as vozes
do mar
Percussão
amor
por trás das portas
das
cortinas
pratos
atirados no chão
lamento
da torneira
pingando
pingando
campainha
(acorde
de trombone)
coração
à porta
(toque
de tambor)
Gerusa
Leal
sexta-feira, 18 de maio de 2012
Coluna Trivial variado simples no NotaPE
por Gerusa Leal
DESAFORO
Três noites maldormidas. Que inveja da liberdade, da
irresponsabilidade, da frivolidade com que essa nojenta leva os dias.
Faz o que quer. Ou não faz nada. Enche o saco. E ele ainda tendo que
aturar. Essa vadia é que é feliz.Feliz, eu? Sabe você o que é ser parido no lixão – no esterco?, precisar descolar o rango em restos e perebas?, ter que trepar nas horas mais quentes do dia e olhos arregalados eternidade adentro ser testemunha de tudo que não presta? Nem mesmo pisco – não sonho, não me iludo. Sabe o que é ter por sina disseminar a lepra, diarreia, tifo, disenteria e o escambau?, e ainda ter que ouvir que sou a chata – abusada – que perturbo o seu sono zumbindo e voando feito doida? É demais.
Eu sufocado nesse quartinho apertado e a debochada desenhando as mais mirabolantes coreografias na minha frente. Não sossega, a desgraçada. Filha da mãe: fica inventando danças, enchendo o mundo de crias. E eu aqui empacado.
Bem sei que o que te inspiro é desprezo. Acho incrível que haja no mundo babacas feito você – podendo dormir à vontade e comandar o viver – a varar a madrugada, brechando uma pobre mosca, ora tenha paciência.
Paciência bem que tenho. Mas como a de todo mundo a minha também acaba. Apanho o mata-moscas e começo a perseguir a pequena encrenqueira. Mas a danada é mesmo ágil. E como me desafia. Já dei porrada em tudo quanto é móvel. No ar, meia dúzia de vezes. Umas três no próprio corpo.
Quando ele senta, cansado, já desistindo da luta, pousa bem na sua frente, sobre a folha de papel. Demora-se alguns segundos, e então, dando uma rabiçaca, alça voo porta afora. Não sem antes defecar, no texto em que ele escrevia, bem claro e definitivo, um nítido ponto final.
http://notape.com.br/blog/?p=4167
quinta-feira, 3 de maio de 2012
Encontro com alunos da Escola Municipal Oswaldo Lima Filho
Momentos preciosos com a turminha do 5º ano D da Escola Municipal Oswaldo Lima Filho no encontro com escritores da programação do Concerto de Leitura. Um belíssimo trabalho de base pelo qual parabenizamos a Escola e todos que a fazem possível, professores, coordenadores, funcionários e, é claro, os alunos que deixam a gente feliz pelo interesse pela leitura e a prontidão para a compreensão dos textos lidos. A turminha gosta de verdade de ler. Um presente pra quem também gosta feito eu.
http://emolf.blogspot.com.br/
http://emolf.blogspot.com.br/
terça-feira, 1 de maio de 2012
segunda-feira, 23 de abril de 2012
Terça, 24/04

Café com Poesia - edição de abril do Projeto Café com Poesia, onde a Literatura é a “atração” principal. Venha prestigiar conosco! Escritora convidada: Gerusa Leal (PE)
Mediação: Mariane Bigio (PE)
Painel Temático: A Criação Literária
Horário: A partir das 19h30
Público alvo: estudantes universitários, professores, poetas, prosadores e afins.
Local: Salão de eventos do SESC Garanhuns
Café com Poesia - edição de abril do Projeto Café com Poesia, onde a Literatura é a “atração” principal. Venha prestigiar conosco! Escritora convidada: Gerusa Leal (PE)
Mediação: Mariane Bigio (PE)
Painel Temático: A Criação Literária
Horário: A partir das 19h30
Público alvo: estudantes universitários, professores, poetas, prosadores e afins.
Local: Salão de eventos do SESC Garanhuns
sábado, 21 de abril de 2012
terça-feira, 3 de abril de 2012
Diversos Afins
Conto de Gerusa Leal na Diversos Afins - 66ª Leva - abril/2012
Dedos de Prosa II
COSTUME
Dedos de Prosa II
COSTUME
Foto: Kenia Vartan
Escorada na porta, olho para a cozinha: tamboretes, mesa e armário de louça enegrecidos pelo tempo, panelas, conchas e peneiras cansados pelo uso suspensos no ar por ganchos fixos no teto, a noite já bem instalada.
Em que momento havia começado a me acostumar?
O menino brinca e sorri, neto em casa de avó. Aparece de vez em quando. Não pede comida, não quebra nada, não fala, não geme nem suspira. Minha filha adorava brincar com ele, que sorria e brincava com ela de igual para igual.
Acho que por isso tudo, e porque não pede doce nem missa, também fui me acostumando.
Depois de circular para lá e para cá o dia inteiro cuidando da casa, nem pra comer se senta, Da Paz enxuga e guarda a louça do jantar e eu me sento no tamborete ao lado do fogão escutando as dez badaladas no relógio do corredor. Ela tropeça no cachorro deitado ao lado do menino, atento à brincadeira, xinga alguma coisa, pergunta se ainda preciso dela, dá boa noite e some no corredor.
Às vezes chegava a pensar, nesse trajeto sem pouso, que nada me faria mais sair da cama; que nada me restava a não ser esperar pelo nada ao final desse sertão de solo rachado, riachos secos e arbustos retorcidos. Mas havia, sim, havia algo. Ouço a risada infantil e sinto no ar o cheiro do sabonete do banho recém tomado e saboreio esse perfume como se fosse alegria.
O rosto pousado na mão, o cotovelo apoiado na perna, olho o menino girando o pião, que avança pelo piso sem se abalar pelas falhas e tábuas soltas. Mas ele está ainda muito lá adiante. Concentro-me no percurso do pião.
Em qual tábua solta é que foi mesmo que eu parei de girar?
Estamos fazendo companhia um ao outro desde o entardecer. Minha filha chega na porta, estira os olhos até o cachorro deitado ao lado do menino e pensa:
- Já devem ser dez horas.
Depois de conferir se a janela está fechada, some no corredor.
Hoje somos só nós duas e minha neta, Gabriela. Não faz muito, éramos quatro, mas fomos nos dispersando até só restarmos nós. Primeiro foi o menino, depois meu marido, pai de Sandra. Da Paz ainda ficou mais um tempo, mas depois também se foi.
O pião bambeia e para a meus pés: não ouso tocá-lo, chuto de volta para o menino, que me sorri e volta a brincar. Continua a sorrir e a brincar até que, de repente, se vai. Eu sei que ele foi ao quarto de Gabriela. Fecho o casaco sobre o peito, esfrego as mãos para aquecê-las.
Não falamos muito uma com a outra. Já faz tempo que se acabou qualquer assunto que importe. Acabou-se com o silêncio que reina na casa. Sei que ela conversaria se eu quisesse, mas não tenho vontade. As palavras não se formam, e quando alguma passa pelo pensamento, não tem força pra mover a língua. É assim. Por isso não falamos muito.
O cachorro abaixa as orelhas, pousa o focinho sobre as patas e começa a cochilar.
Cai uma gota da torneira, fazendo um som surdo na cuba da pia. Outra começa a se formar, fico esperando que engorde e caia também. Mas ela fica lá, pendurada. Não cresce. Não despenca. O vento sopra nuvens que passam transparentes pelo alto da mangueira, e a gota pendurada finalmente cai.
Sandra passa por mim puxando a gola do robe sobre o pescoço, bebe um copo de água recostada no balcão, os olhos perdidos na noite que entra pela janela. Costumava sonhar muito com minha filha no início, sempre criança, brincando com o menino. Não lembro quando parei de sonhar. Acho que foi quando nasceu minha neta, Gabriela.
Sandra também não sonhou mais. Acorda todas as noites na mesma hora, e vem à cozinha beber água.
Ouço o riso de Gabriela, de lá do berço no quartinho pintado de azul, ao lado do quarto da mãe. Sandra também escuta, seu rosto se anima, e a passos largos some outra vez no corredor.
http://diversosafins.com.br/?p=950
quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
Anacy
Conto de Gerusa leal em Escritores & Tal http://www.escritoresetal.com.br/main/textos/conto-textos/
Quando vi o carro de minha filha mais velha estacionado em frente ao prédio, caí na real. Tinha esquecido de todo que saí mais cedo exato porque havíamos combinado sair juntas para jantar. Entrei no prédio e sentei na mureta do estacionamento. Só então percebi o carro da segunda filha parado na vaga. Amanda não suportava que alguém faltasse a um compromisso com ela sem desmarcar. Rita era a preocupação personificada.
Eu só queria chegar em casa, tomar um banho, deitar, pôr uma música romântica e continuar curtindo a noite. Por sorte Ricardo morava a umas poucas quadras antes e o convenci de que chegaria bem em casa sozinha. No final meu sexto sentido funcionou outra vez. Teria sido constrangedor ele presenciar minhas filhas me dando bronca. Arrumei os cabelos com as mãos, respirei fundo e entrei no elevador.
Todas as luzes do apartamento acesas, Amanda no celular, Rita no telefone fixo. Assim que me viram, desligaram os aparelhos sincronizadamente e avançaram em minha direção.
- Graças a Deus, já estava ligando para a polícia. Por que seu celular está sempre fora de área ou desligado?
Já cansei de lhe dizer pra se livrar desse dinossauro e comprar um celular decente. Mas enfim, por que demorou tanto? Por onde andava?
Amanda me olhava sem dizer palavra.
- Como vêem estou viva. Para quê esse escarcéu todo? E quantas perguntas, Rita, parece uma metralhadora.
O efeito da brincadeira foi paradoxal. Rita começou a chorar se lamuriando e me acusava de insensível. Agora um mecanismo automático que eu conhecia bem havia sido acionado e uma queixa puxava uma crítica, que puxava uma queixa, e a não ser por um colapso o fenômeno só parava quando descarregavam as baterias. Olhei para Amanda.
- Tudo bem?
Ela enfrentou meu olhar num silêncio mais eloqüente que a verborréia de Rita. Meu coração se apertava. Inesperadamente Amanda desatou também a chorar.
- Você sabia que havíamos combinado de ir jantar. Custava ter ligado dando sinal de vida?
- Esqueci, desculpe, me envolvi com uma coisa e outra e esqueci.
- Ligamos para a casa e os celulares de todas as suas amigas e só o conseguimos apurar que às oito da noite você pegou uma carona para casa com uma antiga colega de faculdade, mas que ninguém tinha visto nem sabia quem era. E já são onze horas. O que queria que pensássemos?
Não tinha feito nada errado além de esquecer do compromisso com Amanda mas me sentia mais culpada que o normal. Eu com medo de ser castigada por minhas filhas por haver chegado em casa mais tarde sem ter avisado antes?
- Saí daqui cedo para encontrar com a turma no baile da terceira idade, como faço toda quarta-feira, vocês sabem. Quando já estava de saída encontrei uma velha amiga que não via há anos, está morando no nosso bairro e me convidou para voltarmos juntas, pôr a conversa em dia. Depois de um tempo deu fome, paramos para comer uma pizza e tomar um chope e continuamos caminhando para casa, fazer a digestão.
- Andando? Só as duas? Do clube até aqui? Está mesmo senil. Já ouviu falar em assaltantes, marginais, latrocínio?
Já quase perdendo a paciência, tentava recuperar a autoridade materna.
- Rita, não é tão longe assim. É bem iluminado e até essa hora ainda tinha muita gente nas ruas. Sinto ter assustado você e obrigada pela preocupação, por ter vindo até aqui. Amanda, desculpe mais uma vez o esquecimento, não foi proposital, aconteceu.
- Eu já tinha combinado uma saída com amigos quando Amanda ligou. Ela só perguntou se você estava comigo, não queria alarmar, nem disse que estava preocupada, mas eu senti no tom de voz.
- Desculpem.
- Acabei cancelando a saída para vir aqui.
- Sinto muito.
Amanda pegou a bolsa e as chaves do carro. Rita fez o mesmo. Já da porta, virou e sorriu.
- Tá, o que importa é que você está aqui e bem. Mas enfim quem é essa velha amiga? Nós conhecemos?
Já mais tranqüila, considerando a crise superada, ri.
- Na verdade não foi uma amiga. Foi um amigo – disse meio sem graça.
Ela acentuou o sorriso.
- Hum, um amigo…
E numa demonstração rara de controle, transformou o sorriso na cara mais fechada que eu já vira nela.
- É pior do que eu imaginava – Amanda falou por ela.
Suspirei arrependida de ter dito a verdade. Aquele não era mesmo o momento para isso. Só porque eu achara a coisa mais gostosa do mundo, depois de anos pensando que não existia mais para os homens, passar algumas horas com alguém gentil, confiável e atraente, e porque havia chegado em casa flutuando em nuvens e querendo que o tempo parasse, isso não queria dizer que minhas filhas ficariam felizes por mim, muito menos que veriam as coisas pelo mesmo ângulo.
As duas largaram as bolsas e sentou uma de cada lado, no sofá, me cercando.
- Eu não acredito – era Amanda com aquele seu jeito de ser tão explícita nas entrelinhas.
- Vá para casa. Seu marido já deve estar sentindo sua falta. Vá você também, Rita. Garanto que ainda não alimentou seu gato hoje. Sinto que não é um bom momento para levarmos avante esse assunto. Não há clima.
- Não, mamãe, agora queremos saber.
- Muito bem então. Encontrei com Ricardo, um antigo colega de universidade, no clube, conversamos, viemos para casa caminhando e na metade do percurso comemos uma pizza juntos. Foi isso.
- Saiu para jantar com um cara que encontrou num baile da terceira idade pela primeira vez desde a faculdade?
Incrível. Parecia até que eu tinha ido a um motel com um perfeito estranho, no primeiro encontro. Será que elas não percebiam que eu não era uma garotinha inexperiente e indefesa? Por que tanto barulho?
- Sim, foi isso mesmo, qual o problema?
- Você não sabe? Depois reclama quando a gente diz que não tem mais idade para estar saindo por aí sozinha. Por que não pergunta a qualquer adolescente? Sua filha mais nova, por exemplo. Pena que ela tenha ido dormir na casa de uma amiga. Diria com toda a clareza qual é o problema. Qualquer adolescente sabe. Com a diferença que você não é mais uma adolescente.
Elas percebiam. Não era esse então o problema.
- Além do que você não tem mais idade para essas coisas, mãe.
Estava enganada. Era esse, exatamente, o problema. E que tais coisas eu fizera para não ter mais idade para elas? Sair com um amigo? Tomar um chope? Conversar?
- Chega, meninas. Vão para casa antes que eu diga algo de que me arrependa amanhã.
Rita me deu um beijo e se despediu. Amanda saiu sem me olhar nem abrir a boca.
Tranquei a porta e sentei um instante tentando pôr as idéias e os sentimentos no lugar. Tanto tempo havia se passado desde a última vez que eu vira Ricardo. E hoje descobrir que ele já é meu vizinho há alguns anos.
Provavelmente passaria mais uma eternidade, quem sabe o resto da vida sem vê-lo. Quanta bobagem.
Pena que o embate com as meninas me deixou tão sóbria e lúcida que o restinho de encantamento que pretendia curtir até pegar no sono evaporou como por mágica. Lembrei que tinha sessenta anos e pelo menos três quilos de sobra na cintura que já desistira de tentar fazer sumir.
Embora de vez em quando me dessem preocupações, me sobrecarregassem ou me magoassem eu adorava meus filhos. E os netos então nem se fala, eram meus tesouros.
Apaguei a luz da sala e fui pelo corredor direto para a cama. Sonhei a noite inteira com Ricardo. Eu vestia um vestido lindo e esvoaçante e ele, em um terno claro, camisa sem gravata, mais elegante do que nunca, me tirava para dançar. A lua clareava a pista, que era no meio de um jardim ao ar livre e onde dançávamos a sós. Não sei de onde vinha a música nem me preocupou isso no sonho. Mas era maravilhosa. Ele pôs a mão em meu rosto, sorriu e quando pensei que ia me beijar, disse: boa noite, Anacy, e eu acordei com o toque do interfone.
- Um rapaz deixou uma encomenda para a senhora.
- Acordei agora, seu Manoel, não dava para colocar no elevador e eu pego aqui?
- Agorinha mesmo.
Quando a porta do elevador abriu pensei que ainda estava sonhando. No carpete o mais lindo arranjo de flores que eu já vira. As pernas tremeram. Peguei o arranjo antes que o elevador fechasse outra vez.
Entrei no apartamento e sentei com as flores no colo, apatetada. Havia um envelope, e dentro um cartão. Podia até ser sonho mas não era engano, era eu mesma a destinatária das flores.
Anacy,
Adorei nosso passeio ontem.
Quer jantar comigo amanhã?
Ricardo
Comecei a sorrir como se tivesse esperado por aquele convite a vida inteira. De repente caí na real outra vez. E as meninas? Ah, azar. Depois eu pensava nesse detalhe.
Acabava de colocar as flores no vaso quando o telefone tocou.
- Alô?
- Gostou das flores?
- São lindas.
- Apanho você em casa?
- Não, não, é que há uns desdobramentos, depois, pessoalmente, eu explico.
- Então o que sugere?
- Nos encontramos na pizzaria de ontem. Lá resolvemos onde jantar.
- Às oito?
- Às oito.
Tinha uma voz ainda mais sensual ao telefone.
Telefone. Liguei correndo para Graça, que ria de toda a história, e mais ainda quando lhe pedi que se algum de meus filhos ligasse querendo saber onde eu andava dissesse que eu tinha ido ao banheiro, comprar cigarros, qualquer coisa. E desse um toque para o meu celular.
- Acho isso meio absurdo, afinal você é adulta, mas se é assim que deseja serei seu álibi. Se vocês forem discretos eles nunca saberão. Afinal é apenas um jantar e pode ficar só nisso não é? Ou você tem planos mais ousados? – e riu.
- Pode parar de zoar. É só isso mesmo. A não ser que acabe não sendo – sorri. Então estamos combinadas.
Sentei junto à janela e comecei a cuidar das flores na jardineira. Quanto tempo andei tão só sem perceber.
Como pude deixar que me fizessem de velhinha quando ainda não era? Seria algum dia? Por que deixei que me convencessem de que com a separação e a idade minha vida útil havia acabado? E a não ser pela morte gente tem prazo de validade? Foi muito bom ter reencontrado Ricardo, ia ser ótimo jantar com ele e o que mais o destino nos reservasse. Mas se descobrisse agora que ele tinha sido apenas só um sonho, fantasia, o mal já estava feito.
No mercado conversei leve com a moça do caixa e as outras pessoas na fila. Comprei um batom novo.
Passei no salão, cortei e pintei o cabelo, ousei um tom e um corte diferentes. Dei metade de minhas roupas, comecei a usar outros modelos e cores que antes jamais ousaria. Minha vida não cheira mais a naftalina. Não há mais sonhos proibidos. Alguns são mais difíceis de alcançar, mas é só planejar com cuidado e paciência.
Voltei a cantar no chuveiro.
Meus filhos acabaram se acostumando a que eu não desse mais muita satisfação da minha vida. Assim como eles não me dão da deles. Deixei de temer críticas e opiniões. São só críticas e opiniões. Eles têm o direito e o dever de fazê-las. E eu as considero importantes, afinal eles me amam. Ouço e avalio a quais devo dar ouvidos. Mas as decisões, certas ou erradas, são minhas.
Passaram três anos daquele segundo jantar. Eu e Ricardo fizemos um trato. Não iríamos morrer lentamente um sufocando o outro. Mais ou menos uma vez por mês recebo um arranjo de flores com um cartão:
Anacy,
Quer jantar comigo amanhã?
Ricardo
Até quando? Quem se importa?
Quando vi o carro de minha filha mais velha estacionado em frente ao prédio, caí na real. Tinha esquecido de todo que saí mais cedo exato porque havíamos combinado sair juntas para jantar. Entrei no prédio e sentei na mureta do estacionamento. Só então percebi o carro da segunda filha parado na vaga. Amanda não suportava que alguém faltasse a um compromisso com ela sem desmarcar. Rita era a preocupação personificada.
Eu só queria chegar em casa, tomar um banho, deitar, pôr uma música romântica e continuar curtindo a noite. Por sorte Ricardo morava a umas poucas quadras antes e o convenci de que chegaria bem em casa sozinha. No final meu sexto sentido funcionou outra vez. Teria sido constrangedor ele presenciar minhas filhas me dando bronca. Arrumei os cabelos com as mãos, respirei fundo e entrei no elevador.
Todas as luzes do apartamento acesas, Amanda no celular, Rita no telefone fixo. Assim que me viram, desligaram os aparelhos sincronizadamente e avançaram em minha direção.
- Graças a Deus, já estava ligando para a polícia. Por que seu celular está sempre fora de área ou desligado?
Já cansei de lhe dizer pra se livrar desse dinossauro e comprar um celular decente. Mas enfim, por que demorou tanto? Por onde andava?
Amanda me olhava sem dizer palavra.
- Como vêem estou viva. Para quê esse escarcéu todo? E quantas perguntas, Rita, parece uma metralhadora.
O efeito da brincadeira foi paradoxal. Rita começou a chorar se lamuriando e me acusava de insensível. Agora um mecanismo automático que eu conhecia bem havia sido acionado e uma queixa puxava uma crítica, que puxava uma queixa, e a não ser por um colapso o fenômeno só parava quando descarregavam as baterias. Olhei para Amanda.
- Tudo bem?
Ela enfrentou meu olhar num silêncio mais eloqüente que a verborréia de Rita. Meu coração se apertava. Inesperadamente Amanda desatou também a chorar.
- Você sabia que havíamos combinado de ir jantar. Custava ter ligado dando sinal de vida?
- Esqueci, desculpe, me envolvi com uma coisa e outra e esqueci.
- Ligamos para a casa e os celulares de todas as suas amigas e só o conseguimos apurar que às oito da noite você pegou uma carona para casa com uma antiga colega de faculdade, mas que ninguém tinha visto nem sabia quem era. E já são onze horas. O que queria que pensássemos?
Não tinha feito nada errado além de esquecer do compromisso com Amanda mas me sentia mais culpada que o normal. Eu com medo de ser castigada por minhas filhas por haver chegado em casa mais tarde sem ter avisado antes?
- Saí daqui cedo para encontrar com a turma no baile da terceira idade, como faço toda quarta-feira, vocês sabem. Quando já estava de saída encontrei uma velha amiga que não via há anos, está morando no nosso bairro e me convidou para voltarmos juntas, pôr a conversa em dia. Depois de um tempo deu fome, paramos para comer uma pizza e tomar um chope e continuamos caminhando para casa, fazer a digestão.
- Andando? Só as duas? Do clube até aqui? Está mesmo senil. Já ouviu falar em assaltantes, marginais, latrocínio?
Já quase perdendo a paciência, tentava recuperar a autoridade materna.
- Rita, não é tão longe assim. É bem iluminado e até essa hora ainda tinha muita gente nas ruas. Sinto ter assustado você e obrigada pela preocupação, por ter vindo até aqui. Amanda, desculpe mais uma vez o esquecimento, não foi proposital, aconteceu.
- Eu já tinha combinado uma saída com amigos quando Amanda ligou. Ela só perguntou se você estava comigo, não queria alarmar, nem disse que estava preocupada, mas eu senti no tom de voz.
- Desculpem.
- Acabei cancelando a saída para vir aqui.
- Sinto muito.
Amanda pegou a bolsa e as chaves do carro. Rita fez o mesmo. Já da porta, virou e sorriu.
- Tá, o que importa é que você está aqui e bem. Mas enfim quem é essa velha amiga? Nós conhecemos?
Já mais tranqüila, considerando a crise superada, ri.
- Na verdade não foi uma amiga. Foi um amigo – disse meio sem graça.
Ela acentuou o sorriso.
- Hum, um amigo…
E numa demonstração rara de controle, transformou o sorriso na cara mais fechada que eu já vira nela.
- É pior do que eu imaginava – Amanda falou por ela.
Suspirei arrependida de ter dito a verdade. Aquele não era mesmo o momento para isso. Só porque eu achara a coisa mais gostosa do mundo, depois de anos pensando que não existia mais para os homens, passar algumas horas com alguém gentil, confiável e atraente, e porque havia chegado em casa flutuando em nuvens e querendo que o tempo parasse, isso não queria dizer que minhas filhas ficariam felizes por mim, muito menos que veriam as coisas pelo mesmo ângulo.
As duas largaram as bolsas e sentou uma de cada lado, no sofá, me cercando.
- Eu não acredito – era Amanda com aquele seu jeito de ser tão explícita nas entrelinhas.
- Vá para casa. Seu marido já deve estar sentindo sua falta. Vá você também, Rita. Garanto que ainda não alimentou seu gato hoje. Sinto que não é um bom momento para levarmos avante esse assunto. Não há clima.
- Não, mamãe, agora queremos saber.
- Muito bem então. Encontrei com Ricardo, um antigo colega de universidade, no clube, conversamos, viemos para casa caminhando e na metade do percurso comemos uma pizza juntos. Foi isso.
- Saiu para jantar com um cara que encontrou num baile da terceira idade pela primeira vez desde a faculdade?
Incrível. Parecia até que eu tinha ido a um motel com um perfeito estranho, no primeiro encontro. Será que elas não percebiam que eu não era uma garotinha inexperiente e indefesa? Por que tanto barulho?
- Sim, foi isso mesmo, qual o problema?
- Você não sabe? Depois reclama quando a gente diz que não tem mais idade para estar saindo por aí sozinha. Por que não pergunta a qualquer adolescente? Sua filha mais nova, por exemplo. Pena que ela tenha ido dormir na casa de uma amiga. Diria com toda a clareza qual é o problema. Qualquer adolescente sabe. Com a diferença que você não é mais uma adolescente.
Elas percebiam. Não era esse então o problema.
- Além do que você não tem mais idade para essas coisas, mãe.
Estava enganada. Era esse, exatamente, o problema. E que tais coisas eu fizera para não ter mais idade para elas? Sair com um amigo? Tomar um chope? Conversar?
- Chega, meninas. Vão para casa antes que eu diga algo de que me arrependa amanhã.
Rita me deu um beijo e se despediu. Amanda saiu sem me olhar nem abrir a boca.
Tranquei a porta e sentei um instante tentando pôr as idéias e os sentimentos no lugar. Tanto tempo havia se passado desde a última vez que eu vira Ricardo. E hoje descobrir que ele já é meu vizinho há alguns anos.
Provavelmente passaria mais uma eternidade, quem sabe o resto da vida sem vê-lo. Quanta bobagem.
Pena que o embate com as meninas me deixou tão sóbria e lúcida que o restinho de encantamento que pretendia curtir até pegar no sono evaporou como por mágica. Lembrei que tinha sessenta anos e pelo menos três quilos de sobra na cintura que já desistira de tentar fazer sumir.
Embora de vez em quando me dessem preocupações, me sobrecarregassem ou me magoassem eu adorava meus filhos. E os netos então nem se fala, eram meus tesouros.
Apaguei a luz da sala e fui pelo corredor direto para a cama. Sonhei a noite inteira com Ricardo. Eu vestia um vestido lindo e esvoaçante e ele, em um terno claro, camisa sem gravata, mais elegante do que nunca, me tirava para dançar. A lua clareava a pista, que era no meio de um jardim ao ar livre e onde dançávamos a sós. Não sei de onde vinha a música nem me preocupou isso no sonho. Mas era maravilhosa. Ele pôs a mão em meu rosto, sorriu e quando pensei que ia me beijar, disse: boa noite, Anacy, e eu acordei com o toque do interfone.
- Um rapaz deixou uma encomenda para a senhora.
- Acordei agora, seu Manoel, não dava para colocar no elevador e eu pego aqui?
- Agorinha mesmo.
Quando a porta do elevador abriu pensei que ainda estava sonhando. No carpete o mais lindo arranjo de flores que eu já vira. As pernas tremeram. Peguei o arranjo antes que o elevador fechasse outra vez.
Entrei no apartamento e sentei com as flores no colo, apatetada. Havia um envelope, e dentro um cartão. Podia até ser sonho mas não era engano, era eu mesma a destinatária das flores.
Anacy,
Adorei nosso passeio ontem.
Quer jantar comigo amanhã?
Ricardo
Comecei a sorrir como se tivesse esperado por aquele convite a vida inteira. De repente caí na real outra vez. E as meninas? Ah, azar. Depois eu pensava nesse detalhe.
Acabava de colocar as flores no vaso quando o telefone tocou.
- Alô?
- Gostou das flores?
- São lindas.
- Apanho você em casa?
- Não, não, é que há uns desdobramentos, depois, pessoalmente, eu explico.
- Então o que sugere?
- Nos encontramos na pizzaria de ontem. Lá resolvemos onde jantar.
- Às oito?
- Às oito.
Tinha uma voz ainda mais sensual ao telefone.
Telefone. Liguei correndo para Graça, que ria de toda a história, e mais ainda quando lhe pedi que se algum de meus filhos ligasse querendo saber onde eu andava dissesse que eu tinha ido ao banheiro, comprar cigarros, qualquer coisa. E desse um toque para o meu celular.
- Acho isso meio absurdo, afinal você é adulta, mas se é assim que deseja serei seu álibi. Se vocês forem discretos eles nunca saberão. Afinal é apenas um jantar e pode ficar só nisso não é? Ou você tem planos mais ousados? – e riu.
- Pode parar de zoar. É só isso mesmo. A não ser que acabe não sendo – sorri. Então estamos combinadas.
Sentei junto à janela e comecei a cuidar das flores na jardineira. Quanto tempo andei tão só sem perceber.
Como pude deixar que me fizessem de velhinha quando ainda não era? Seria algum dia? Por que deixei que me convencessem de que com a separação e a idade minha vida útil havia acabado? E a não ser pela morte gente tem prazo de validade? Foi muito bom ter reencontrado Ricardo, ia ser ótimo jantar com ele e o que mais o destino nos reservasse. Mas se descobrisse agora que ele tinha sido apenas só um sonho, fantasia, o mal já estava feito.
No mercado conversei leve com a moça do caixa e as outras pessoas na fila. Comprei um batom novo.
Passei no salão, cortei e pintei o cabelo, ousei um tom e um corte diferentes. Dei metade de minhas roupas, comecei a usar outros modelos e cores que antes jamais ousaria. Minha vida não cheira mais a naftalina. Não há mais sonhos proibidos. Alguns são mais difíceis de alcançar, mas é só planejar com cuidado e paciência.
Voltei a cantar no chuveiro.
Meus filhos acabaram se acostumando a que eu não desse mais muita satisfação da minha vida. Assim como eles não me dão da deles. Deixei de temer críticas e opiniões. São só críticas e opiniões. Eles têm o direito e o dever de fazê-las. E eu as considero importantes, afinal eles me amam. Ouço e avalio a quais devo dar ouvidos. Mas as decisões, certas ou erradas, são minhas.
Passaram três anos daquele segundo jantar. Eu e Ricardo fizemos um trato. Não iríamos morrer lentamente um sufocando o outro. Mais ou menos uma vez por mês recebo um arranjo de flores com um cartão:
Anacy,
Quer jantar comigo amanhã?
Ricardo
Até quando? Quem se importa?
quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
Os cães
Conto publicado no volume II da coletânea PUBLIQUE-SE! Literatura na Hora! editado pela Livrinho de Papel Finíssimo Editora (livrinhoeditora.blogspot.com / livrinhoeditora@gmail.com), fruto de projeto viabilizado na VIII Bienal do Livro de Pernambuco, com patrocínio da FUNDARPE e da Secretaria de Cultura do Estado de Pernambuco. (a ilustação aqui no blog não consta na publicação)
A criança apertada entre os braços, a mulher atravessa o bairro desolado, o nariz enfiado por baixo da manta que cobria a cabeça do menino recostada em seu ombro, para esconder o rosto. Sabe que foi loucura, queria apertar o passo mas anda quase sem respirar, espreitando a matilha que invadia as ruas desertas. Não devia, foi bobagem. Não, não pode ficar com a criança.
O menino olhou para ela. E sorriu. E estendeu os bracinhos em sua direção. Ninguém prestou atenção quando o pegou no colo e saiu andando. Devagar.
Devagar como agora, para não atiçar os cães. Pensa em jogar uma pedra mas não havia pedras na rua, além do mais se acertasse mesmo na cabeça de um e o matasse aí sim estaria perdida - quem mata um cão deve a alma a São Lázaro e será castigado. Ela sentia que seria castigada, de um jeito ou de outro. Nem sabia o nome do pequeno. O menino começa a chorar, empurra seu peito com as mãozinhas, talvez seja só frio, ajeitou a manta, ele esperneia, apertou ainda mais forte, sentiu o líquido quente empapando seu corpo, precisava chegar em casa, lavar a criança, trocar a roupa urinada, dar-lhe algo que comer, improvisar um lugar para ele dormir, mas não pode andar mais depressa, os cães. Os cães imundos, cães pretos de olhos amarelos - de onde surgiam? - multiplicavam-se e espalhavam-se por todos os lados, seus braços doem de carregar o menino, coloca a criança no chão, andam de mãos dadas - passaria por seu filho? -, anoitece. Está cansada, mas não pode parar - os cães. Servis e covardes criaturas, agora em bandos, ameaçadores, rosnam como se fossem valentes, um para e uiva, deve estar vendo alma do outro mundo nas sombras do fim de tarde - todo agouro para o teu coro, animal tinhoso. Ninguém nas ruas, só ela e a criança. E os cães. Lambendo as feridas da mulher e do menino estatelados no asfalto do cruzamento.
Não devia ter roubado a criança. Não devia. Sabia que seria castigada.
Caminha com o menino, de mãos dadas, pelo bairro desolado. Devagar. Para não atiçar os cães.
Gerusa Leal
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
Mas hoje ainda não
http://www.escritoresetal.com.br/site/2011/11/mas-hoje-ainda-nao/
Sempre chove no dia dos mortos
já são três horas da tarde
e hoje ainda não choveu.
O Captain! my Captain! Rise up and hear the bells.
Hear the sound of silence as well.
Sempre chove no dia dos mortos
mas hoje ainda não choveu.
No limiar do outro mundo
em fila eu vejo os meus
que antes de mim se encantaram.
O Captain! my Captain!
Sempre chove no dia dos mortos
e os olhos dos céus se nublaram
mas hoje ainda não choveu.
E se antes do fim do dia
a chuva me alcançar
não encontrará casa limpa
nem mesa posta também
e nada estará no lugar.
O Captain! my Captain!
que o poema encontre os versos
que dizem de aproveitar
o dia que já se finda.
Pois sempre chove no dia dos mortos
mas hoje não choveu ainda.
Resultado Final do II Prêmio #TOC140
1° @marcos1moura GOYA TRAGOU MEU SONO// Éluard eternizou-se em minhas pálpebras/ Matisse sarou as feridas/ E até hoje vangogueio/ Pelos campos da cana #TOC
Marcos Roberto Moraes de Moura. Recife, PE.
22316 (36.37%)
2° @simonebrichta Ex-impressionismo// No lago do cisne/ a bailarina de Degas/ ouviu o grito de Munch. #TOC
Simone de Fátima Brichta. Fortaleza, CE.
Simone de Fátima Brichta. Fortaleza, CE.
12587 (20.52%)
3° @Daniele_SF BLECAUTE// TV não liga/Computador trava/E o que seria da nova era /se por trás dos prédios /não houvesse um céu sem tomada? #TOC
Daniele Souza Freitas. Criciúma, SC.
Daniele Souza Freitas. Criciúma, SC.
9967 (16.25%)
4° @GerusaLeal O outono cintila em prata nos cabelos dela / No sorriso largo e na blusa florida / ainda passeia descuidada a primavera.#TOC
Gerusa Barbosa Leal. Olinda, PE.
Gerusa Barbosa Leal. Olinda, PE.
8953 (14.59%)
5° @flaviomachado59 águia//embalsamada/pousa na palmeira/os gritos de desesperos.#TOC
Flavio Machado. Cabo Frio, RJ.
Flavio Machado. Cabo Frio, RJ.
4032 (6.57%)
6° @carlaceres Arco-Íris // Mil pingos de chuva / seduzem a luz solar / que, em cores, se curva. #TOC
Carla Ceres Oliveira Capeleti. Piracicaba, SP.
Carla Ceres Oliveira Capeleti. Piracicaba, SP.
1353 (2.21%)
7° @rodrigodomit Minimalismo: Papelão sobre tela / jornal sobre calçada // Muito pouco sobre quase nada // A dura arte de sobreviver #TOC
Rodrigo Domit. Rio de Janeiro, RJ.
Rodrigo Domit. Rio de Janeiro, RJ.
1252 (2.04%)
8° @Sempoesianaoda OLHOS DE LIZ TAYLOR-Tão fácil antes/falar deles:/céus acesos na tela./Difícil é agora/que se apagaram/como safiras engolidas por lobos # TOC
Sérgio Bernardo. Nova Friburgo, RJ.
Sérgio Bernardo. Nova Friburgo, RJ.
434 (0.71%)
9° @adrianarazia: OBRA// No avesso do barro/ Fractais adâmicos// Impressões digitais do oleiro/ Engendram alma/ Vida/ Arte/ No corpo terral do pote #TOC
Adriana Cristina Razia. Quatro Barras, PR.
Adriana Cristina Razia. Quatro Barras, PR.
304 (0.5%)
10° @juauqxz Homologia// Não à toa/ o movimento de abrir janelas,/ abrir asas/ e abrir livros é o mesmo:/ é o movimento da liberdade. #TOC
João Paulo Silva Mammana. Sumaré, SP.
João Paulo Silva Mammana. Sumaré, SP.
154 (0.25%)
Total de Votos: 61352
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
Escritores & Tal
Só por um instante
http://www.escritoresetal.com.br/site/2011/09/so-por-um-instante/
Bum. Bum. Bum. Bum. O socador golpeia o chão compactando o solo bum bum bum bum. A poeira cinzenta cobre as botas cinzentas sem cadarços sem meias as pernas magras mergulham nas calças desbotadas, os joelhos dobram, esticam e bum bum bum bum as mãos ressecadas pelo cimento, calejadas pela madeira das hastes do socador que bum bum bum bum a camisa bem gasta aberta no peito que se contrai e distende enquanto o socador bum bum bum bum a cabeça que levanta deixando ver o rosto e bum. O socador pousa na terra, a mão segura a ponta da camisa, passa no rosto enxugando o suor.
E ela vê então o pedreiro, mas só por um instante, um ínfimo instante.
Aperta o passo atravessa a rua as pessoas indo e vindo, as fachadas das lojas, as placas, os pontos de referência, está com pressa, não sabe direito o caminho. Perde-se.
Perde a hora. Perde a urgência, se senta na tora de madeira embaixo da árvore.
E bum… bum… bum… bum… Deixa a moça ela tá descansando e bum… bum… bum… Menino, para de mexer aí e bum… bum… bum… e o ônibus parou e abriu a porta e alguém subiu dando bom dia ao cobrador. Será que tá passando mal? e bum… bum… tá tá tá tá tá tá tá o martelo na madeira desmontando o tapume.
O cheiro da rua é forte, mistura de esgoto com fruta, verdura, carne, suor, óleo diesel, flores, suspira e bum sumiu tudo, tudo parou, o silêncio zumbindo ao redor.
Foi tanto tempo, foi quase nada, e Bum. Bum. Bum. Bum.
Está atrasada, abre os olhos, levanta, atravessa a rua, caminha alguns passos, reconhece a fachada da loja, sobe as escadas, apanha o relógio que deixou no conserto.
Coloca no pulso, desce os degraus lentamente, agora tem tempo. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tic. Tic. Tic.
Merda. Parou outra vez.
domingo, 31 de julho de 2011
Notas Cotidianas e Literárias X
UM POEMA DE GERUSA LEAL
Em Versilêncios (2008), Gerusa Leal pratica uma escrita delicada e sem alarde, mas também sem resignação nem aceitação cega do que a rodeia. Vive e exprime situações cotidianas em sua inteireza ou parcialidade. Questiona os atos simples da vida para melhor compreendê-los. Interage com o ambiente exterior através da poesia que enfoca ângulos diferenciados de visada na percepção de seres e objetos, na fatura que passa a limpo como espetáculos do mundo um vaso de flores, uma laje de prédio, uma vizinha próxima e ao mesmo tempo distanciada. E isto se verifica tanto naqueles dias em que nada dá certo e é preciso esperar pelos instantes seguintes em que porventura o mundo e as idéias retornem ao seu imprevisível lugar. Não intenta estabelecer, nos seus poemas, nenhum ciclo novidadeiro ou fluxo inventivo impossível de ser conseguido por agora. É um fato que, na atualidade, escasseiam materiais concernentes e renovados para isso, no caos de uma grande produção que vem permeando a poesia ao longo dos séculos. Sem se abater, ela trabalha com afinco os materiais líricos que se mostram à mão. Por isso, dirá no poema “Escrevedor”:
não escrevo o que não sinto
amadora que sou
sinto o que não escrevo
jeito de driblar a dor
escrevo o que não sinto
salvo a vida
não sinto o que não escrevo
nem percebo que vivi
O poema não partilha ilusões, falseadas às vezes, ou assimiladas cotidianamente pela sina do ser poeta. Vislumbra a condição e o fingimento pessoano, que anula a dor suposta e a real, e, por uma ironia suprema e incisiva, passa a reafirmar sensivelmente o amor. Assim, no estrato secular e fragmentário das formas e sentidos, Gerusa Leal procura descartar discretamente a “dor”. Elege a “vida” antes da escrita do que não se sente. E assume o silêncio do não escrever que não se amplie em vida, que não renda homenagem ao milagre de se estar vivo.
http://omundocircundante.blogspot.com/2010/02/notas-cotidianas-e-literarias-x.html
Em Versilêncios (2008), Gerusa Leal pratica uma escrita delicada e sem alarde, mas também sem resignação nem aceitação cega do que a rodeia. Vive e exprime situações cotidianas em sua inteireza ou parcialidade. Questiona os atos simples da vida para melhor compreendê-los. Interage com o ambiente exterior através da poesia que enfoca ângulos diferenciados de visada na percepção de seres e objetos, na fatura que passa a limpo como espetáculos do mundo um vaso de flores, uma laje de prédio, uma vizinha próxima e ao mesmo tempo distanciada. E isto se verifica tanto naqueles dias em que nada dá certo e é preciso esperar pelos instantes seguintes em que porventura o mundo e as idéias retornem ao seu imprevisível lugar. Não intenta estabelecer, nos seus poemas, nenhum ciclo novidadeiro ou fluxo inventivo impossível de ser conseguido por agora. É um fato que, na atualidade, escasseiam materiais concernentes e renovados para isso, no caos de uma grande produção que vem permeando a poesia ao longo dos séculos. Sem se abater, ela trabalha com afinco os materiais líricos que se mostram à mão. Por isso, dirá no poema “Escrevedor”:
não escrevo o que não sinto
amadora que sou
sinto o que não escrevo
jeito de driblar a dor
escrevo o que não sinto
salvo a vida
não sinto o que não escrevo
nem percebo que vivi
O poema não partilha ilusões, falseadas às vezes, ou assimiladas cotidianamente pela sina do ser poeta. Vislumbra a condição e o fingimento pessoano, que anula a dor suposta e a real, e, por uma ironia suprema e incisiva, passa a reafirmar sensivelmente o amor. Assim, no estrato secular e fragmentário das formas e sentidos, Gerusa Leal procura descartar discretamente a “dor”. Elege a “vida” antes da escrita do que não se sente. E assume o silêncio do não escrever que não se amplie em vida, que não renda homenagem ao milagre de se estar vivo.
http://omundocircundante.blogspot.com/2010/02/notas-cotidianas-e-literarias-x.html
terça-feira, 26 de julho de 2011
Despedida: encantou-se nosso Luiz Carlos
http://notape.com.br/blog/?p=3096#comment-513
Faleceu na noite desta segunda-feira, 25 de julho, nosso querido colaborador Luiz Carlos Monteiro. O poeta e crítico nasceu em Sertânia e, pelas notícias que chegam, encantou-se também no sertão pernambucano, em Sertânia. Era graduado em Pedagogia, com mestrado em Teoria da Literatura pela UFPE. Publicou, entre outros, os livros de poesia Na solidão do neon (Pirata, 1983), Vigílias (Fundarpe, 1990), Poemas (Ed. Universitária da UFPE, 1999) e O impossível dizer e outros poemas (Bagaço, 2005).Já com saudades, demais!
quarta-feira, 20 de julho de 2011
O susto chega no calor da tarde (ou no frescor da manhã?)
por Gerusa Leal
A conversa era sobre Literatura e Realidade. Em cinco de maio, Castello nos dizia: “Acompanho a fala de meu amigo e percebo, de repente, que sua doença - afora todas as contingências médicas, que são reais - é um sintoma literário. A escrita de Carrero força com fúria as fronteiras da literatura, desferindo golpes duros na própria cauda (como "pedras que se consomem").”
Diante desse comentário de Castello, e ao iniciar a leitura do romance SERIA UMA SOMBRIA NOITE SECRETA - frase de Retrato do Artista quando Jovem, que Carrero emprestou de Joyce, para título e início da epígrafe da nova obra – me chega com um certo sabor de biografia às avessas, denunciando o quanto de sua alma, de seu sangue e de seus nervos Carrero doou ao apaixonante Alvarenga, protagonista dessa sua mais recente narrativa publicada, e que será lançada dia 21 na Livraria da Jaqueira.
E aí, tanta razão tem Castello, fica muito difícil separar o homem do escritor (a literatura da realidade). Para Alvarenga, o susto chega no calor da tarde. Para Carrero, foi no início do dia ou, como diz meu amigo, Às vésperas do sol. Um susto em que talvez a ficha só tenha caído depois. Diria Alvarenga: “Porque só depois é que a gente percebe o perigo que correu.”
Não dá pra deixar de pensar que a voltagem de investimento no protagonista do romance foi tão alta que em alguns momentos o narrador parecia estar escrevendo uma biografia antecipada do autor. Alvarenga, também “Ele se viu sem controle. A primeira sensação era de que estava perdendo o controle do corpo. Tem isso? Tem isso mesmo de perder o controle do corpo? Uma coisa por demais esquisita.”
Uma coisa por demais esquisita, amigo Carrero. A vida e a literatura, irmãs de sangue, têm coisas muito esquisitas. E Alvarenga talvez seja um personagem tão apaixonante, apesar de tão próximo da gente de maneiras que a gente não consegue explicar racionalmente, porque mesmo não sendo irmão de pai e mãe, é seu irmão de sangue. Pulsa em suas veias o sangue que você lhe doou, em transfusão que, diria Castello, talvez quase lhe custou a própria vida.
Mas não vamos falar mais de Carrero, nosso amigo querido, mestre e exemplo na literatura, e de vida, de força, de determinação, de entusiasmo e de um humor que faz rir à própria morte. Pois Carrero nós já conhecemos e amamos. Vamos falar e ir atrás de conhecer, viver, rir e chorar com Alvarenga, que foi sorveteiro, sim. Que toca corneta, sim. Que nutre, sim, um afeto de total doação e abnegação por Rachel. Mas que é tão único, e tão vivo, que apesar de toda falta de capacidade de se expressar, e até de se entender a si próprio, nos encanta com sua humanidade.
Alvarenga que “não sabia fazer nada de propósito”. Alvarenga em quem, apesar de toda bizarrice, “Há algo de reverente.” Que nunca decorou o nome da mãe. Que cresceu com aqueles sapatos e aquelas roupas tão maiores do que ele, e “de não trocar nunca.” A quem qualquer um teria “imensa dificuldade para olhá-lo, aquele menino na sua pureza, na sua elegância.”
Alvarenga nos apaixona tanto e nos convence tanto com a sua realidade, sua autonomia, mesmo tão dependente de Rachel, que quase esquecemos que não estamos bem apenas olhando pelo buraco da fechadura e enxergando gente de verdade existindo. Que há ali um autor calejado, em todos os sentidos, que sofisticadamente entrega a narrativa à personagem e pede: “Você conta por mim, Rachel, conta?” E a quem Rachel responde: “para evitar sua exposição, por orgulho e vaidade, eu conto. O que você faz é organizar. Está bem?” Ou terá sido a Alvarenga que Rachel respondeu?
E assim Rachel, quem sabe se “por orgulho e vaidade”, acredita que é ela, e só ela, quem conta a história. A história de Alvarenga. Contada na verdade pelo grande romancista que, apesar de uma obra tão madura e consistente, apesar do total domínio técnico dos recursos de criação, continua em busca da invenção, da superação, de forma apaixonada, mesmo com todas as angústias desse processo que muitas vezes, lá pelo meio da obra deve pensar: “Não devia ter chegado até ali, não devia, e agora não sabia mais andar, e tinha que atravessar a ponte, tinha de continuar andando, ah, meu Deus, para que foi começar, por que fizera a loucura de chegar até ali?” Ou teria sido Alvarenga quem pensou?
O escritor, em Seria uma sombria noite secreta, nos conta uma outra história incomum, com personagens absurdamente cativantes, envolve-nos, seduz-nos com as personalidades dos dois, com seus jeitos de serem gente embora, como diria ainda Castello, “insubordinados, que não se submetem a regras e que agarram a vida com desespero, mas com fé.”
E às vezes Alvarenga pensa ah, “Nunca escolheria uma ponte se lhe fosse dado escolher.” Ainda bem que não lhe é dado, meu amigo Carrero, para a riqueza da literatura, e para sorte nossa, que saímos sempre outros dos mergulhos em seus romances. Mas chega de falar em Carrero, vamos atrás de Alvarenga pois “Agora o olho era ele.” Vamos nos empapuçar de boa literatura, escrita por quem vive a literatura feito a vida pois, sem isso, “A vida é tão pouco, não é?”
Serviço:
Sessão de autógrafos: 21 de julho, 19 horas, na Livraria Jaqueira - Recife/PE
http://www.interpoetica.com/site/index.php?/O-susto-chega-no-calor-da-tarde-ou-no-frescor-da-manhã.html
quinta-feira, 14 de julho de 2011
Histórias Possíveis - edição 61
HP 61
junho 19, 2011 por historiaspossiveisDos Colaboradores
Meu filho – Daniela Mendes
Vi uma meia suja jogada no canto do banheiro, a água de uma piscina se espalhando para fora depois de um berro “Olha mãe”. Continue aqui
Quando se acabam os andares – Dheyne de Souza
Mas você está louca? Você pode me explicar o que raios merda caralho é isso? Continue aqui.
Autorretrato – Erwin Maack
A grande sensação que o assaltou foi a da inevitabilidade da morte. Ela o atingira profundamente ao levar seu velho. Continue aqui
Costume – Gerusa Leal
Em que momento havia começado a me acostumar? Continue aqui
Todas as cores da vida – Leandro Resende
Tudo constrange a quem chega. Mas não ocorrem tantas visitas. Só pizzas e putas. Poderia dizer a todos que aquilo era um mesa-de-centro, um aparador. Continue aqui.
Paris, meio Dia – Lucia Bettencourt
Um padre, jovem, atlético, não resiste ao encanto da jovem, de seus cabelos desalinhados, de seus ombros delicados e friorentos por baixo do xale florido. Continue aqui.
Ela insiste em falar comigo em húngaro – Wesley Peres
Ela fala português, não muito bem, mas o suficiente, mais do que suficiente para que eu a entenda em português. Continue aqui
Dos Assinantes
Vivendo de brisa – Bernardo MoraisE como amar ainda era de graça, Oriomba e sua recém eleita patroa deixaram-se envolver pelo relento irresistível do depois, de forma que, adormecidos, não deram atenção à panela de alumínio fundido. Continue aqui.
Caixa de Espelhos – José Carneiro leão
Mesmo assim, pela saudade dele, por querer vê-lo e sentir sua presença, vesti uma roupa de estreia, maquiei-me finamente, preparei o cabelo só para abrir a caixa de espelhos. Continue aqui.
Imagem: Wenders, Wim. Der Himmel über Berlin
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