quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Literatura Infantil e Juvenil de Pernambuco para o Mundo

http://lij-pe.blogspot.com.br/2013/02/entrevistamos-gerusa-leal-vencedora-do.html

Entrevista a Antonio Nunes, um dos coordenadores do projeto Livro Infantil e Juvenil em Pernambuco

Prezados amigos,

Um dos motivos para que este blog viesse ao ar foi o de, além de apresentar e difundir o trabalho de vários criadores de LIJ em Pernambuco, preparar as bases para a realização do I Encontro Pernambucano do Livro Infantil e Juvenil, realizado com êxito em agosto de 2011, pelo que esperamos novas e melhores edições anuais. Há um grande número de talentosos criadores de LIJ em Pernambuco, que precisam se conhecer mais e melhor, unir forças e trabalhar em coletivo. Assim, além de convidá-los a colaborar com materiais para este espaço virtual, os convidamos a tomar parte neste projeto mais amplo que, sem dúvida, será um marco para o setor em nosso estado. Abraços a todos, Telma Brilhante e Antonio Nunes (Tonton) - Coordenadores do projeto. Contamos com vocês!

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Entrevistamos Gerusa Leal - vencedora do Prêmio APL na Literatura Infantil

É com prazer que trago ao público entrevista (por e-mail) com a escritora Gerusa Leal, ganhadora do Prêmio Elita Ferreira de Literatura Infantil de 2012, promovido pela Academia Pernambucana de Letras (APL), com o livro “Carolina”. Além de um maravilhoso conteúdo, o "papo" foi recheado de bom humor. Vale a pena conferir!
Querida amiga,
Antes de qualquer coisa, devo confessar a surpresa que foi sabê-la vencedora na categoria literatura infantil, pois não tinha ideia de que também produzia neste segmento, bem como da gostosa sensação de saber que o livro vencedor leva o nome de “Carolina”, que me é tão querido, pois é o nome de minha esposa.
A surpresa foi para mim também, Antonio. Não tenho a falsidade de dizer que não esperava algum retorno, se não esperasse, para quê teria me inscrito? Mas não tinha muita expectativa não, uma menção honrosa e/ou até nenhuma menção já seria um retorno interessante, me diria o quanto ainda me falta trilhar nessa trilha. E muito falta. Mas ser meu texto “o” premiado do ano, alegremente me surpreendeu.
  1. Este é o seu primeiro livro infantil? De que trata ou quem é “Carolina”?
Eu nunca escrevi literatura infantil. Minto: fiz algumas tentativas de esboçar um texto infanto-juvenil, mas que larguei pelo caminho, sempre achei muito difícil escrever para crianças. As crianças são um público muito exigente, e os paradigmas delas não são os do mercado (se bem que o mercado influencie, vez que influencia o público-alvo), os da academia. A criança gosta do que gosta. E a gente, ao longo da vida, vai se distanciando tanto da infância que fica difícil dialogar com ela (até com a própria infância). Carolina, por exemplo, não foi um texto escrito, em princípio, para crianças. Para ser um texto “infantil”. Mas como eu criei um filho sem nunca estimular nele a linguagem tatibitate, sempre conversando com ele como uma pessoa completa no seu estágio de vida, nunca como um débil mental ou no máximo um ser humano incompleto – como muita gente considera e com base nesse ponto de vista assim lida com as crianças – acabei descobrindo que as crianças entendiam Carolina como muito poucos adultos.
Carolina, resumidamente - já que nenhum ser humano (mesmo personagem de ficção) cabe numa caixinha de fósforo - é uma menina dos seus 5, 6 anos no máximo, curiosa, com uma vida interior muito rica, e persistente como uma mula nos seus propósitos...rs
  1. Se não, poderia nos falar um pouco desta sua produção?
Reafirmando, salvo uma tentativa frustrada, que ficou pelo caminho, nunca escrevi intencionalmente, conscientemente, para o público infantil. Carolina foi, inicialmente, fruto de um exercício em uma oficina no SESC Santa Rita, em Recife, ministrada por Maria José Duarte onde, dentre outras atividades, foi lido o texto Leitura, do livro Infância, de Graciliano Ramos. O texto de Graciliano, autobiográfico, tinha como tema o desinteresse do menino Graciliano e as dificuldades e estratagemas do seu pai para que aprendesse a ler. A proposta foi, no dia seguinte, levar um texto escrito onde a infância, própria ou de outrem, fosse mote para a narrativa. E assim fizemos, todos os participantes da dita oficina.
  1. Você utilizou memórias afetivas para compor este texto, das coisas de sua infância ou de outras meninas ou crianças próximas a você?
 Não há como escrever, para qualquer público, sem acessar a memória afetiva. Quando se trata de literatura infanto-juvenil, acredito, isso deve ser mais importante ainda. E, sim, um personagem é sempre uma montagem. Tem sempre algo da gente, tem sempre algo dos outros, tem sempre algo inventado.
  1. Como era a Gerusa criança, pensava em ser escritora? Nesta época, quais os seus livros prediletos?
 A Gerusa criança queria saber era de ser criança. Uma menina moleca, que jogava chumbada com os amigos, bola de gude, furão, e que fazia os melhores papagaios da rua, os que voavam melhor e mais alto, tudo na época de cada brinquedo, como era naquele tempo. Como uma criança muito introversiva, embora sociável, sempre adorou ler, vício que adquiriu com um pai também leitor inveterado e escritor tão autocrítico que acabou pouco publicando. Até hoje a Gerusa criança prefere ler. Escrever foi uma brincadeira descoberta outro dia, há uns dez anos quando, aposentada precocemente, se valendo da legislação previdenciária da época e abrindo mão de um quarto do salário, começou a procurar algo interessante para fazer. Em criança, lia muito Monteiro Lobato, amava uma coleção ilustrada de mitologia de um tio que até hoje tem pena de não saber onde foi parar depois da morte dele, e como viciada em leitura não pode te dizer muito mais sobre quais os livros prediletos, pois lia por vício mesmo. Quando não tinha o que ler, lia até bula de remédio, lista telefônica, dicionário...rs Mas estão vivos na memória ainda, ali pelos 10/11 anos, livros como Dom Quixote, Moby Dick, Os três mosqueteiros, que o pai lhe colocava nas mãos para que a menina Gerusa tivesse companhia em períodos em que um problema antigo na articulação dos joelhos a deixava de cama, impedindo-a de brincar de esconde-esconde na rua, subindo em árvores, com os amigos.
  1. Como percebe a literatura infantil brasileira atual, notadamente a pernambucana?
 Meu amigo, como se dizia, agora você me apertou sem me abraçar...rs Eu hoje tenho pouquíssimo contato com a literatura infantil brasileira, local ou estrangeira contemporânea. Eu ainda lia muita literatura infantil, mas sem discriminar a nacionalidade ou naturalidade do autor, quando meu filho era criança. Desde bebê sempre li para ele, praticamente todos os dias, até quando ele aprendeu a ler e não precisava mais da mãe decifrando as letrinhas pra ele. Geralmente eram paradidáticos ou livros que me descobriam nas prateleiras, onde a menina Gerusa captava que ali havia uma vivência importante para ser partilhada com a criança filho dela. Quem sabe, a partir de agora, Carolina me leve pela mão e eu comece a ter mais contato com a literatura infantil?
Comentário do editor deste blog: - Tomara!
  1. Qual a importância do ato de ler para as crianças? Como o(s) seu(s) livro(s) se insere(m) neste contexto?
Bom, eu acho que meio que já respondi essas perguntas acima. E sou suspeita para falar, pois os livros sempre foram (e acho que continuarão a ser, a seu modo), meus melhores amigos. A primeira frase de sua pergunta, pontuada como está, permite pelo menos duas respostas. É imensa a importância do ato de ler para as crianças, acho que é um dos melhores presentes que um pai, uma mãe pode dar para um filho, uma das maiores heranças, é ler para eles. As histórias enriquecem o universo infantil, instrumentalizam as crianças para lidarem com as questões que são próprias à fase de desenvolvimento psico-sócio-sexual, além de serem bons companheiros, entretenimento de primeira qualidade. A importância do ato de ler, (agora com vírgula) para as crianças, é tamanha quanto a de descobrir um universo novo, maravilhoso, inesgotável. É mais ou menos disso que trata Carolina.
  1. O que você acha da afirmativa de alguns que dizem que a leitura de livros vem perdendo espaço para as novas formas eletrônicas de literatura? E de que, em um futuro não muito longínquo, embora não se saiba bem ao certo quando, já não haverá mais livros na forma como os conhecemos em nossa infância?
Olha, você deu azar, minha bola de cristal foi pro concerto e até hoje a assistência técnica não vem encontrando peça pra reposição...rs O futuro, só a Deus pertence. O que acho é que o livro impresso tem um encantamento, mesmo para as novas gerações, que o e-book não tem. Por outro lado, o e-book é muito prático. Se você tem um tablet, aqueles livrões imensos, que você não levaria daqui pra lá para ler no ônibus, por exemplo, você pode levar. Acho que, em se tratando de livro, “qualquer maneira de amor vale a pena”.
  1. Neste sentido, qual a contribuição de eventos como a Bienal do Livro e da Fliporto que acontecem no segundo semestre deste ano?
 Veja, eu sou muito auto-crítica. Então, não poderia deixar também de ser “hetero”-crítica...rs Acho que as bienais de livros estão se transformando, cada vez mais, em meras feiras de livros. Tudo é feito em função de vender o produto livro. Enquanto isso, a literatura, propriamente dita, à de boa qualidade, às vezes passa longe. A Fliporto já é um evento mais diversificado, prioriza as conversas, os debates, as exposições literárias – embora, como todo mega-evento literário hoje em dia, para o meu gosto, abra espaço demais para “celebridades”, muitas delas autoras de obras literárias às vezes mais pobres do que alguns dos esquecidos bons escritores locais.
  1. E de iniciativas como o concurso “Brincar de Escrever” e a “Casa do Livro Infantil e da Leitura de Olinda (CLILO)”?
 Confesso a você, como já disse antes, que não costumo circular no universo da literatura infanto-juvenil – até agora. Carolina é um caso à parte. Depois de nascer de um exercício em uma oficina no SESC Santa Rita, em Recife, como todo texto meu, passou por inúmeras releituras, reescrituras, reformulações, inclusive com a troca com amigos escritores. Tudo que escrevo, negar seria a maior das ingratidões, mesmo que ele não tenha lido uma linha, tem o dedo de Raimundo Carrero, com quem fiz oficina durante oito anos. De uns dois anos para cá, por conta do AVC de Carrero, foi preciso lidar com a “orfandade” literária, enquanto ele se recuperava. Então alguns de nós nos reunimos em grupos onde trocamos sobre literatura e sobre nossos textos mais ou menos em pé de igualdade pois não é oficina propriamente dita, são grupos de discussão, onde há a abertura para colocar o texto na roda e - aprendizado de oficina - ouvir como ele chega a cada um dos escritores/leitores do grupo. Estou, há uns dois anos, me encontrando regularmente com um grupo que começou despretensiosamente e assim se mantém, de amigos que escrevem, onde a gente se reúne, come, bebe e trata de literatura. A coisa tem dado tão certo em termos de trabalharmos nossos textos que batizamos o grupo de Autoajuda Literária...rs Devemos lançar, em breve, um livrinho/coletânea de micros e mínimos, fruto de nossa produção no ano passado.
Mas eu fugi do assunto...rs Como eu te falei, a época do ano é de curtir família, estou com pouco tempo para literatura então, como alguém já disse, me desculpe a prolixidade, faltou-me tempo para ser sintética...rs
Enfim, Carolina só foi inscrita no infanto-juvenil da APL porque a Academia todo ano nos envia a divulgação dos concursos do ano, e na ocasião do de 2012 eu meio que acabava de ter uma experiência que foi determinante para que eu quisesse “testar” o texto inscrevendo ele num concurso.
O escritor Fernando Farias me indicou para uma participação no V Concerto de Leitura promovido pela Escola Municipal Osvaldo Lima Filho, no Pina. Eu não queria ir, disse a ele, e à coordenadora, que depois me ligou confirmando o convite, que eu não escrevia para crianças. Foi-me dito que a escola tinha alunos no primeiro e segundo graus então, para colaborar, arrebanhei um monte de textos e para lá me fui com a sacola cheia.
Lá chegando, me foi destinada uma turminha acho que de terceira série, entre os seus 10/11 anos de idade. Sem saber direito como me virar, comecei a ler textos meus em que tanto o protagonista quanto o tema eram crianças. Tive que selecionar, porque tenho vários nessa linha que não são, absolutamente, infantis. Para minha surpresa, as crianças adoraram, e quando li Carolina, “li”, nos rostinhos delas, que estavam acompanhando tudo, “sacando” tudo, rindo nas “horas certas”, compreendendo uma narrativa que tem lá suas elipses, lendo nas entrelinhas comigo.
Saí de lá com um sentimento maravilhoso, mais por perceber que há escolas como a Osvaldo Lima Filho onde as crianças são preparadas não para apenas decodificar palavras, mas para compreender ou atribuir de fato sentidos a um texto.
Mas logo em seguida a coisa ficou caraminholando em minha cabeça. Será? Será que foi uma experiência isolada, ou esse é um texto infantil apesar da sofisticação técnica que às vezes me faz “ler” nos rostos de plateias adultas ares de burro olhando pro presépio?...rs Então, como teste, inscrevi Carolina no infantil da APL. Logo em seguida recebi a divulgação de um outro de infanto-juvenil, este demandava mais textos, consegui selecionar entre os que escrevo a meu bel-prazer, e que talvez sejam infanto-juvenis, o suficiente para o número mínimo de páginas exigido. Sabe Deus no que dará – ou não dará – mas em geral não acompanho os concursos de infanto-juvenil. Aliás, depois da premiação do de poemas pela APL em 2005, raríssimamente tenho inscrito textos em concursos. Tenho preferido ler, escrever, reescrever.
  1. Que recado você deixaria para as crianças pernambucanas, em especial para aquelas que desejam, um dia, vir a ser escritoras como você?
 Nossa, cara, é muita responsa dar um recado para crianças, pernambucanas ou não...rs Como se trata de literatura, meu recado para as crianças que gostam de ler é: leiam. Não há maior prazer. Leiam o que gostarem. Leiam de tudo. Se ler for mesmo sua praia, ao longo da vida você vai começar a aprender a selecionar os melhores livros para ler. A prática é que leva à perfeição. Para aquelas que desejam, um dia, vir a ser escritoras (sei lá se sou, há quem me acuse de não querer ser escritora profissional e me confesso culpada...rs), meu recado seria: não faltem às aulas. Prestem muita atenção às aulas de português – ainda é assim que se chama?...rs Façam todos os exercícios que forem solicitados. Tenham um bom dicionário e uma boa gramática e consultem os dois sempre que precisarem ou até por pura diversão. Procurem dominar a ortografia, a pontuação e a análise sintática. E, acima de tudo, leiam, e leiam, e leiam.
  1. Bom, a palavra é sua, este espaço é livre para as considerações que desejar apresentar...
Só agradecer seu convite para a entrevista e parabenizá-lo e a todos os que vêm criando e mantendo espaços de resistência, de cultivo, de estímulo à criação, como são, por exemplo, as iniciativas “Brincar de Escrever” e a “Casa do Livro Infantil e da Leitura de Olinda (CLILO)”. Nós, crianças, agradecemos J Abraço fraterno.

Nós que agradecemos, Gerusa. E que muitos outros bons livros infantis ganhem vida em seus escritos.


Academia Pernambucana de Letras comemora 112 anos

http://globotv.globo.com/rede-globo/bom-dia-pe/t/edicoes/v/academia-pernambucana-de-letras-comemora-112-anos/2366675/

Deu na imprensa



Resultado dos prêmios literários da Academia Pernambucana de Letras 2012

Postagem na linha do tempo de Cláudia Cordeiro

Cássio Cavalcante enviou-nos o resultado da
PREMIAÇÃO 2012 da ACADEMIA PERNAMBUCANA DE LETRAS
A solenidade de entrega dos prêmios será no dia 25 de janeiro de 2013.
E olha só a nossa amiga Gerusa Leal conquistando o PRÊMIO Elita Ferreira – Literatura Infantil. Gerusa é um das premiadíssimas da Fliporto Digital - TOC 140 e Pernambucanidade em Jogo (foto: entre Marcílio Medeiros e Thiago Lima).
PARABÉNS, Gerusa! PARABÉNS a todos!

PRÊMIO Leonor Corrêa de Oliveira
VENCEDOR
ESCRITOR PEDRO HUMBERTO FERRER DE MORAIS
LIVRO: “REPÚBLICA DA CACHAÇA, VITÓRIA DE SANTO ANTÃO”

PRÊMIO Edmir Domingues – Poesia
VENCEDOR
ESCRITOR CIRO JOSÉ TAVARES DA SILVA
LIVRO: "ANÊMONAS"

MENÇÃO HONROSA:
ESCRITORA SÔNIA CARNEIRO LEÃO
LIVRO: “REMENDANDO TRAPOS”

ESCRITOR FÁBIO CAVALCANTE DE ANDRADE
LIVRO: “A TRANSPARÊNCIA DO TEMPO”

ESCRITOR LÚCIO FERREIRA
LIVRO: “O PÁSSARO E O MAPA

ESCRITORA BARTYRA SOARES
LIVRO: “ARQUIRTETURA DOS SENTIDOS

PRÊMIO Amaro Quintas – História de Pernambuco
VENCEDOR:
ESCRITOR GEORGE FÉLIX CABRAL DE SOUZA
LIVRO: “TRATO & MOFATRAS: O GRUPO MERCANTIL DO RECIFE COLONIAL”

MENÇÃO HONROSA:
ESCRITORES JACQUES RIBEMBOIM E JOSÉ RIBEMBOIM,
LIVRO: “UMA OLINDA JUDAICA (1537-1631)”

PRÊMIO Vânia Souto Carvalho – FICÇÃO
VENCEDOR:
ESCRITOR CÍCERO BELMAR
LIVRO:“AQUELES LIVROS NÃO ME ILUDEM MAIS”

MENÇÃO HONROSA:
ESCRITORA EDNA MARIA CABRAL DE ALCÂNTARA
LIVRO: “LUA FRIA”

ESCRITOR PAULO CALDAS
LIVRO: “PORTO DOS AMANTES”

PRÊMIO Antônio de Brito Alves – Ensaio
VENCEDOR:
ESCRITOR PEDRO NUNES FILHO
LIVRO: "GUERREIRO TOGADO"

MENÇÃO HONROSA:
ESCRITOR FLÁVIO HENRIQUE ALBERTO BARYNE
LIVRO: “EDUCAÇÃO & REPUBLICANISMO. EXPERIMENTOS ARENDTIANOS PARA UMA EDUCAÇÃO MELHOR”

ESCRITORA IVANILDE MORAIS DE GUSMÃO
LIVRO: “UM CAMINHO PARA MARX”

PRÊMIO Elita Ferreira – Literatura Infantil
VENCEDORA:
ESCRITORA GERUSA LEAL
LIVRO: “CAROLINA”

PRÊMIO DULCE CHACON – ESCRITORA NORDESTINA
VENCEDORA:
ESCRITORA LUCIENE FREITAS
LIVRO: "LIBERDADE AMORDAÇADA"

Data: 25 de janeiro de 2013 – Solenidade de Aniversário


Premiações

Da linha do tempo de Cleyton Cabral, no Facebook

O grupo autoajuda literária em fase de grandes comemorações. Os super queridos Cícero Belmar e Gerusa Leal premiados no concurso da academia pernambucana de letras. ♥♥♥



Revista Metáfora

A publicação é sempre de excelente qualidade. Vale a pena conferir todas, da primeira à quarta capa. Esta (Ano 2 - N 15 - 2012) tem como tema Escrita Criativa. Vale conferir. Aqui, uma palhinha, só pra botar água na boca.




sexta-feira, 25 de janeiro de 2013




ACADEMIA PERNAMBUCANA DE LETRAS




PREMIAÇÃO 2012

PRÊMIO Leonor Corrêa de Oliveira
VENCEDOR
ESCRITOR pedro humberto ferrer de morais
LIVRO: “república Da cachaça, vitória de santo Antão”


PRÊMIO Edmir Domingues – Poesia
VENCEDOR
ESCRITOR ciro josé tavares da silva
LIVRO: "anêmonas"

menção honrosa:
escritora sônia carneiro leão
LIVRO: “remendando trapos”

escritor fábio cavalcante de andrade
LIVRO: “a transparência do tempo”

escritor lúcio ferreira
LIVRO: “o pássaro e o mapa

escritora bartyra soares
LIVRO: “arquirtetura dos sentidos

PRÊMIO Amaro Quintas – História de Pernambuco
VENCEDOR:
escritor george félix cabral de souza
Livro: “trato & moFatras: o gRupo mercantil do recife colonial”

menção honrosa:
escritores jacques ribemboim e josé ribemboim,
LIVRO: “uma olinda judaica (1537-1631)”




PRÊMIO Vânia Souto Carvalho – FICÇÃO
vencedor:
escritor cícero belmar
LIVRO:“aqueles livros não me iludem mais”

MENÇÃO HONROSA:
ESCRITORa edna maria cabral de alcântara
LIVRO: “lua fria”

escritor paulo caldas
LIVRO: “porto dos amantes”


PRÊMIO Antônio de Brito Alves – Ensaio
vencedor:
escritor PEDRO NUNES FILHO
LIVRO: "gUERREIRO TOGADO"   
    
MENÇÃO HONROSA:
escritor FLÁVIO HENRIQUE ALBERTO BARYNE
LIVRO: “eDUCAÇÃO & REPUBLICANISMO. eXPERIMENTOS ARENDTIANOS PARA UMA EDUCAÇÃO MELHOR”

eSCRITORA iVANILDE MORAIS DE GUSMÃO
LIVRO: “UM CAMINHO PARA MARX”

PRÊMIO Elita Ferreira – Literatura Infantil
vencedorA:
ESCRITORA gerusa leal
LIVRO: “carolina”

Prêmio Dulce Chacon – escritora nordestina          
vencedorA:
escritorA LUCIENE FREITAS
LIVRO: "LIBERDade amordaçada"




Data: 25 de janeiro de 2013 – Solenidade de Aniversário

Bom dia Pernambuco

Vídeo sobre a sessão de aniversário da Academia Pernambucana de Letras e entrega dos prêmios literários 2012 da APL

http://globotv.globo.com/rede-globo/bom-dia-pe/t/edicoes/v/academia-pernambucana-de-letras-comemora-112-anos/2366675/

EUTONIA - Revista de Literatura e Linguística

http://www.revistaeutomia.com.br/v2/

EUTONIA - Revista de Literatura e Linguística

Nossa colaboração para edição do segundo semestre 2012 da Revista

Gerusa Leal

Mas hoje ainda não

Sempre chove no dia dos mortos
já são três horas da tarde
e hoje ainda não choveu.
O Captain! my Captain! Rise up and hear the bells.
Hear the sound of silence as well.
Sempre chove no dia dos mortos
mas hoje ainda não choveu.

No limiar do outro mundo
em fila eu vejo os meus
que antes de mim se encantaram.
O Captain! my Captain!
Sempre chove no dia dos mortos
e os olhos dos céus se nublaram
mas hoje ainda não choveu.

E se antes do fim do dia
a chuva me alcançar
não encontrará casa limpa
nem mesa posta também
e nada estará no lugar.

O Captain! my Captain!
que o poema encontre os versos
que dizem de aproveitar
o dia que já se finda.
Pois sempre chove no dia dos mortos
mas hoje não choveu ainda.



Ventos de inverno

Ser galho seco e quebradiço já no chão
o oscilar do ramo donde o pássaro levantou vôo
a rachadura na lama seca
pisoteada pelos passantes; ser o toque
a fome, o giro do mundo: nada
além do que fica quando cessa o som
da folha levada pelo vento.


A escuridão que fica após se consumir a vela por inteiro
mil não-entidades que se dispersam, nada
além do espaço que nunca se ocupou.

Ser o silvo, o zapt, o [ ]
que ainda não chegou e nem virá
mas inda assim mora no ventre
do futuro
ou de um passado que um dia se inventou.

Beber do cheiro do chá, do café, da sopa
do que mora além do olhar
da dor/desejo do ventre pelo orgasmo.

Ser horizonte, arco-íris, nuvem
Quimera, Grifo, Unicórnio.

Fazer de conta que é de carne e osso
mesmo sabendo que a mais leve brisa
mero roçar de desalento pela pele
basta para simplesmente deixar de
ser tempestade, tsunami, furacão
orvalho, anoitecência,
vibração de asas de uma borboleta colorida.

De concreto e aço sabendo
que os espaços vazios é que sustentam
toda a construção.

Acreditar em todos os deuses
tendo certeza de que não há nenhum
cometer tanta injustiça que de repente
o sentido do absurdo se revele.

Abandonar o sólido e o visível: passar.


Caçada

deu na tv, vocês viram?
os caras correndo lá embaixo
no morro aquele alvoroço, os gritos a debandada (e não foi legal?)

os caras de uniforme metendo a bala e o braço
cada passo um balaço (não é fenomenal?)

caçada de helicóptero na tua tv a cabo
discovery, discovery, igualzinho (tem que ver)

e todo mundo vibrou
e todo mundo aplaudiu
e todo mundo chorou

a classe média aos sorrisos foi ao céu, ao paraíso
tropa de elite, de vera, heroísmo pra valer
emoções fortes, entretenimento (sofrimento? qualé mermão?)

e todo mundo bebeu
e todo mundo fumou
e todo mundo comeu
e todo mundo trepou

eu-caçador-atirador-alvo
dependurado do helicóptero (um tiro na testa)
rojão na festa que ninguém previu (priiiuuu)

mas como se eu estava aqui tão protegido
atrás da tela da minha tv, do raio do computador?
(atrás das páginas tais dos tablóides da paróquia)

um furo no jornal, a bala (mas ó que merda)
com certeza, mesmo na testa, veio por trás
uma bala inteligente (perdida ou nada mais?)

http://www.revistaeutomia.com.br/v2/

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Do mural de Adelaide do Julinho no Face
há 11 horas



Pressa
[Gerusa Leal]

A menina no ônibus a olhava com ar
de mofa. Só no trabalho quando se
viu no espelho é que sacou que tinha
vestido o corpo pelo avesso.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Poema Ex-finge, na voz de Meimei Corrêa

Programa Domingo Romântico

Poema Ex-finge, na voz de Meimei Corrêa - Programa Domingo Romântico - Luiz Alberto Machado e Meimei Corrêa



Ex-finge
Gerusa Leal


percorre as veredas do meu corpo                       
verás que ainda há parte do humano
que fui quando assim fingia ser

tateia com vagar todos os flancos
desse ser tão incomum igual a ti

de quatro talvez me descortines
de quatro animais encontras partes
à minha humanidade amalgamada

cabeça e seios de mulher
corpo de touro (ou de cão se assim preferes)
garras de leão asas de ave
e essa imensa cauda de dragão

não temas, amado, inda sou eu
a mesma que desconhecendo, amastes
e se duvidas de mim, olha no espelho
verás que, enfim, me decifrastes


Blecaute - Uma Revista de Literatura e Artes

BLECAUTE Nº 13

http://revistablecaute.com.br/

 A edição está ótima, vale conferir da primeira à última página. 

Meu conto na edição:

Na ponta dos dedos
Gerusa Leal



Cabeça erguida, nariz empinado, não tem satisfações a dar aos cachaceiros no bar da esquina. Nem às vizinhas espiando pelas brechas das janelas que escuta fechar quando deseja boa noite dizendo-lhes o nome.
Atravessou o pontilhão sobre o riacho quase seco que corta a mata rala por trás do barraco. De taipa, dois aposentos; parecia que desabava se batessem a porta com mais força. Escuro. Levantou o capacho, a chave estava lá. Entrou tateando as paredes. Achou o candeeiro, ainda um pouco de querosene; o fósforo no lugar de sempre.
Precisava de um banho. O banheiro, nos fundos do barraco, um cubículo improvisado com tábuas catadas em restos de construção. O chuveiro, um latão de tinta que encheu com água tirada do poço com o balde. Puxando um barbante, virava despejando em outra lata cheia de furos no fundo abertos com prego e martelo, improviso do irmão enquanto ainda morava lá. Sentiu a água fria escorrendo sobre as roupas suadas e fedidas como se fosse um bálsamo.
Foi tirando peça por peça com a ponta dos dedos. Pegou o pedaço de sabão amarelo numa das brechas das tábuas, esfregou, agachou-se, enxaguou na água da bacia. Torceu, pendurou tudo na corda.
A noite era de lua. O barraco era o último da rua antes do rio, ficava isolado por um terreno baldio cheio de bananeiras. Os galhos secos dos arbustos perto do riacho não se moviam, a estiagem deixava o tempo abafado.
Puxou o barbante deixando a água escorrer sobre o corpo nu. Esfregava com força até a pele arder. Voltou para dentro do barraco se enxugando com a toalha. Largou o corpo no cobertor puído sobre o sofá de onde pulava uma mola. O silêncio só não era maior porque depois que se aquietara o grilo voltou a cantar.
Quando partiu, não pensou que um dia voltasse. Muito menos assim. Nem que sentisse falta do que deixou para trás.
Estremeceu lembrando o suíço que lhe confiscou o passaporte e deixou trancada junto com as outras, quase sem comida. Ele sorria enquanto lhe sussurrava ao ouvido sei que gosta disso mas precisa aprender a fazer bem feito eu estou aqui para ensinar.
A proposta de trabalho era irrecusável. Arabela teria por volta de quinze, dezesseis anos, se tanto. O registro de nascimento dizia que eram dezoito. Ia acontecer no exterior, ser dançarina, quem sabe com um pouco de sorte até modelo. Desde criança treinava caras e bocas na frente do espelho manchado e opaco na porta do guarda-roupa da mãe. Que havia falecido enquanto ela estava fora. Tinha dado a maior força para que aceitasse. Afinal que futuro ela ia ter ali, naquele fim de mundo, no meio de ignorantes que não percebiam o talento da moça. Por despeito ou cobiça a comiam com os olhos.
Foi a amiga que a indicou. Não comentou detalhes. Pediu uma foto, que seguiu pelo correio. O suíço chegou no carrão, quando estacionou na porta o lugar inteiro já sabia, o motorista tinha parado para perguntar onde ela morava. Cercou-a de promessas, e ela foi.
Era obrigada a prestar serviços por dezesseis a dezoito horas por dia. Acabou, como as outras, nas drogas.
De repente uma paz, um alívio ali sozinha. Um instante de culpa por não estar sentindo a falta da mãe.
Entrou no quarto, abriu a porta do guarda-roupa presa apenas por uma dobradiça, aprumou e se olhou no espelho. Bonita.
Não, ela tinha entendido mal, não era bem isso, se estava ali era porque imaginava que Arabela tivesse muita experiência e que poderia lhe ensinar a fazer coisas que tirassem o marido do caso que estava tendo com uma colega do escritório, mas havia pensado só numa conversa.
E o outro que depois de fazer de tudo com ela veio contar que acabou o noivado de seis meses porque a noiva tinha pedido para que ele a chamasse de putinha, lhe desse uns tapas, pegasse forte, crente que ele ia se amarrar. Mas ele ficou chocado com a iniciativa e gritou que não admitia que a mãe dos filhos dele parecesse uma puta. Cafajestes.
Uma puta. Respirou fundo, cansada. Queria ser prostituta. Puta, não. Esse não é um desejo que se admita nem para si mesma, mas já não tinha porque esconder dela própria. Queria ser prostituta. Livre. Ser dançarina, modelo. Ganhar o próprio sustento e não precisar vender o corpo feito as putas. Só queria se entregar sem regras, sem condições, simplesmente se oferecer.
Acariciou os seios, deslizou as mãos sobre o ventre, alisou as coxas. Passou a ponta dos dedos de leve sobre os pelos entre as pernas.
Só queria ser dona do próprio nariz. Que vantagem havia em ser prostituta se para isso acabava virando escrava? Puta.
No início não havia maldade, só prazer. Do olhar, do sorriso, do toque. A mãe era quem a despertava para a malícia, quando lhe mandava para dentro de casa se jogava bola de gude agachada com mais três ou quatro meninos, quando lhe dizia para sentar direito, puxar a saia, não sorrir tanto.
Também não era bem assim essa história de que puta não goza. Ela às vezes gozava, às vezes não. Mas o grande prazer era o de não ser mulher de um homem só.
E eles queriam que ela falasse disso quando a interrogaram depois que a polícia desmantelou o cativeiro. Eles jamais entenderiam.
Vestiu a calcinha e a camiseta. Estava com fome. Achou uma bermuda, calçou a sandália e retornou ao centro. No bar, pediu um café com leite, pão com manteiga. O cara na última mesa levantou e se aproximou do balcão. Ela sorriu. Subiram para um dos cômodos.
Quando desceu, pediu uma cachaça. Bebeu de uma vez, sem olhar ao redor retomou o caminho de casa.
Àquela hora as ruas estavam vazias. Aprumava o corpo. Mantinha a pose.
Às vezes acordava sem saber onde estava. Adormecia e as imagens se misturavam ela dançando no palco desfilando na daspu jogando bola de gude o sorriso cínico do suíço o prazer a dor os homens se sucedendo na cama a mãe morta o delegado o banho no quintal o cheiro na ponta dos dedos o cara no bar a caminhada solitária pelas ruas desertas aquilo não era hora de moça direita andar fora de casa.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

RelevO - Edição de dezembro de 2012

http://issuu.com/jornalrelevo/docs/relevo_-_edi__o_de_dezembro_de_2012

Vale demais conferir.

A edição traz um poema nosso:



Pôr-de-sal


sentado sobre a pedra
o homem escuta o mar
não o olha mais de frente
já não lhe teme a força
pois mesmo forte o rugido
pelas mãos de Deus contido
não ousa seus pés molhar

o homem escuta o mar
que já fez olhar tão longe
até onde o céu baixando
esconde o que vem de lá

não o olha mais de frente
agora tão diferente
de quando a alma nos olhos
imaginando tesouros
gostava de mergulhar

já não lhe teme a força
pois sabe que em seu peito
a inundar-lhe de anseios
tão feroz quanto o primeiro
transborda um outro mar

e mesmo forte o rugido
a urgência com que clama
aprendeu com as marés
a ir e depois voltar

não ousa seus pés molhar
pois receia que o desejo
de entregar-se ao infinito
suba ao seu corpo inteiro
e o leve de volta ao lar

pela mão de Deus contido
senta o homem sobre a pedra
e apurando os ouvidos
escuta as vozes do mar


Gerusa Leal
 


sábado, 1 de dezembro de 2012

A importância do sertão na obra de Raimundo Carrero

Texto da fala de Gerusa Leal na mesa em homenagem a Raimundo Carrero, em Arcoverde, na quarta edição da Jornada Literária Portal do Sertão, promovida pelo SESC Pernambuco


A importância do sertão na obra de Raimundo Carrero
Gerusa Leal
        


"Como escritor, não posso seguir a receita de Hollywood, segundo a qual é preciso sempre orientar-se pelo limite mais baixo do entendimento. Portanto, torno a repetir: não do ponto de vista filológico e sim do metafísico, no sertão fala-se a língua de Goethe, Dostoievski e Flaubert, porque o sertão é o terreno da eternidade, da solidão (...). No sertão, o homem é o eu que ainda não encontrou um tu; por ali os anjos e o diabo ainda manuseiam a língua".
Guimarães Rosa

Entrevista conduzida por Günter Lorenz no Congresso de Escritores Latino-Americanos, em janeiro de 1965 e publicada em seu livro: Diálogo com a América Latina. São Paulo: E.P.U. 1973



         A partir dessa fala de Guimarães Rosa, acho que posso, sem receio, afirmar que no sertão, do ponto de vista metafísico, psicológico, fala-se a língua de Raimundo Carrero. E Raimundo Carrero fala a língua do sertão. Mesmo se sertanejo não fosse. Pois a obra de Carrero, também, além de não seguir a receita de Hollywood, se escreve no terreno da eternidade, da solidão. Nos romances de Carrero, os personagens também são o eu que ainda não encontrou um tu. Na estética de Carrero, também os anjos e o diabo ainda manuseiam a língua.
         Mesmo, dizia eu, que sertanejo não fosse. E sendo, ainda mais força tem o sertão, de todos os pontos de vista, na obra de Carrero. Ainda quando a paisagem e o tema não são sertanejos, os personagens, em sua psicologia, embora urbanos, trazem dentro de si alguma espécie de sertão. E não podia ser diferente já que sertanejas são as raízes do escritor.
         No romance de estreia de Carrero, e na protagonista escolhida, Bernarda Soledade, a tigre do sertão, a partir do título o sertão se encontra presente. Mas o que chama a atenção, já nesse livro, é a força, a densidade, a vastidão dos sertões interiores. É a psicologia da protagonista, uma mulher seca na exteriorização dos seus atos, como secas parecem as fortes mulheres do sertão, seca nos gestos, nas palavras, como era da cultura sertaneja no tempo em que o romance é ambientado, como seco parece o sertão quando não chove:

“- Naquelas matas, vamos caçar muitos cavalos. Em Puchinãnã, falta um homem de músculos fortes. Poderia sair do meu ventre. Entretanto, não passo de uma mulher seca. Nenhum homem quis pousar sobre o meu corpo alvo. E os cavalos serão a presença do macho.”

Carrero, mesmo sendo sertanejo, costuma dizer que não conhece seca, pois em Salgueiro chove muito. Além disso, fica difícil falar na importância do sertão, região geográfica ou socioeconômica, pois teríamos que definir se falávamos do sertão mítico, que persiste no imaginário principalmente de quem não é da região, ou do sertão contemporâneo, que apesar de preservar cultura própria, já assimilou tanto da cultura dos grandes centros urbanos. Os dois convivem, como já disse Antônio Torres, sem se negar.
Os personagens de Carrero não têm nada dos personagens tipo da literatura regionalista. Então, não dá pra falar da importância do sertão na obra de Raimundo Carrero sem reinventar o significado da palavra.
Ariano Suassuna teria dito que o sertanejo é um povo de sobrevivência. Euclides da Cunha, que é antes de tudo um forte. Os personagens de Carrero todos lidam com a questão da sobrevivência e todos são, a seu modo, fortes, mesmo quando precisam tirar essa força de uma incomensurável fragilidade. Assim como todo ser humano. É desse substrato sertanejo que nascem também as personagens de Sombra Severa, vivendo paixões primitivas, com uma secura temperada de afetos que nunca se dizem de todo.
Se há um sertão de Guimarães Rosa, um sertão de Euclides da Cunha, um sertão de Ariano Suassuna, em As sementes do Sol – O semeador, o leitor é apresentado ao sertão de Raimundo Carrero, um sertão que, segundo o próprio escritor, foi criado como a região geográfica Arcassanta, que pode ser uma fazenda, um povoado, uma cidade, ou apenas um simples lugar deslocado do mapa, à beira da estrada, de um rio, de um açude. Érico Veríssimo inventou Antares. Outros autores preferem nomear os lugares pelo nome que receberam na tradição. Carrero diz preferir ter mais liberdade. Sua região, seu sertão começou com Santo Antônio do Salgueiro, ou simplesmente Salgueiro, e evoluiu para Arcassanta, porque, afirma o escritor, não sou retratista, sou intérprete. Esse sertão, que Raimundo Carrero carrega para onde for, aparece em algumas passagens de As sementes do Sol:

“Terminada a reza, pesou sobre a sala um silêncio morto. O silêncio da noite de Arcassanta. Um silêncio morto e suave. Um silêncio que beirava a agonia. E sem qualquer ruído, enquanto as empregadas solícitas e caladas providenciavam as outras comidas, os homens levantaram as cadeiras para se sentar.” (...)
 “Avistaram a casa-grande de Arcassanta. A casa – avarandada, alta, pintada de branco, portas e janelas azuis – apareceu no meio da neblina.” (...)
“Parecia que retornava a Arcassanta, os chinelos empoeirados, para conviver com fantasmas, almas penadas. Para escutar o bater de portas e janelas abandonadas, sacudidas pelo vento.” (...)
“Eram seis horas. Sabia porque de Arcassanta podia escutar as batidas do sino da capela de Santo Antonio do Salgueiro. Batidas monótonas, tristes, compassadas. Mais monótonas e mais tristes quando ouvidas à distância. Na lonjura das idéias.” (...)
“O cavalo fazia voltas, voltas, mas estava mesmo era retornando para Arcassanta. Involuntariamente. Sem que ele, o cavalo, nem ele, Absalão, tivessem forças para evitar.”

Carrero não evita. Em O amor não tem bons sentimentos, romance cujo cenário e temática são bem mais urbanos, retorna a Arcassanta:

“Agora me lembro do corpo de Biba nas águas barrentas do rio em Arcassanta, e tenho certeza de que na verdade estava de cócoras, por causa do hábito. Apenas de calça, sem camisa, repousava os braços nos joelhos, os pés na lama. Não foi assim desde o começo, confesso que não foi assim. Disse aos policiais tantas vezes, apesar das pancadas.”

 Arcassanta, o sertão de Raimundo Carrero, aparece em outros romances, mesmo sem esse nome, de outras maneiras. Em Sombra Severa, por uma narrativa de forma seca, com frases curtas e incisivas, economia verbal que caracteriza o lacônico Judas. O sertão como região está presente no romance, mas mais como paisagem para um enredo que se passa muito mais dentro do que fora dos personagens. É do sertão de dentro que vêm também as impressões, os pensamentos, as solidões de Judas:

“Judas pensou em tudo isso depois que trouxe o tamborete, sentou-se encostado na parede da casa, o alpendre recendendo a matos verdes, e acendeu o cigarro, cuja fumaça – antecipada pelo vaga-lume do fósforo – ensombreou o rosto ossudo e taciturno já escurecido pelas abas do chapéu, ombros arriados, um olhar sofrido – o touro que o habitava -, gestos monótonos de quem sabe que a noite não recua.”

Carrero já disse, em outro momento, que foi no Sertão, vendo os homens nas feiras, vendo os vaqueiros, que sua vida começou a ter sentido. Não só os homens fortes e trabalhadores, os vaqueiros, mas também os bêbados, os loucos, os fracassados. Não só os homens, mas também as mulheres. Não só as mulheres secas e de uma virtude severa, austera, mas também as prostitutas.
Foi nesses homens e mulheres observados desde a infância, primeiro no sertão, que também a vida de seus personagens ganhou sentido. Já em As sementes do Sol – O Semeador, Carrero reflete sobre questões que ganham características únicas sob o Sol de um sertão que transmite a seus personagens a cultura e os valores de uma região, embora sejam questões universais, como por exemplo as da religião, da morte:

 “As vizinhas rezavam em torno do caixão. Davino e os filhos sentaram-se na mesa para o almoço. Apesar da morte da esposa, não permitiu que alterassem os hábitos da casa. Mesmo quando recebia os pêsames, ordenou que as empregadas preparassem um cozido gordo. Não admitiu sequer que Mariana, tão frágil quanto um vulto, permanecesse ao lado do caixão. Desejava todos na mesa, todos. (...)
Davino fez o Nome-do-Pai. Todos o acompanharam. Segurando uma velha Bíblia de capa negra, rezou o salmo. Terminada a oração, os talheres tiniam. Mariana, mais ausência do que vida, colocou umas poucas colheradas no prato. As lágrimas escorriam pela face. Lutava para servir-se. Escutavam-se, vindos da sala de visitas, os cânticos fúnebres.
Lourenço tocou com o cotovelo em Absalão:
- Ainda não foi visitar o rio onde sua mãe suicidou-se?
Davino levantou a voz.
- Não quero que fale deste assunto agora. Aliás, você conhece suficientemente os costumes desta casa, Lourenço. Sabe que não é permitido falar na mesa. É no silêncio da mesa que se agradece a Deus pela abastança.”

Questões como a embriaguês habitual do personagem são também tratadas, em As sementes do Sol, à luz dos costumes, valores e cultura sertaneja:

“A mesa, Absalão sabia, não era ali como um templo. Era uma arena. Uma luta. Lourenço sempre falava, embriagado ou não. Embora fosse raro não estar embriagado. Ester o repreendia, poupando o nervosismo e o refinamento do marido. Muitas vezes reuniu os filhos antes das refeições para pedir que não rissem com as brincadeiras do tio.”

O cenário da figura do patriarca à cabeceira da mesa, do respeito que lhe devia toda a família, dos cuidados da mulher para que esse respeito não fosse afrontado pela ingenuidade das crianças ou pelo destempero do parente embriagado, ganha contornos típicos pela influência da formação sertaneja do escritor, o que fica bem evidente nas cenas e diálogos lidos. Típicos nesse aspecto, pois as questões, é preciso reafirmar, são universais. Como bem lembra Tolstoi na abertura de Anna Karenina, no sertão pernambucano ou na Rússia, as famílias infelizes são infelizes cada uma a sua maneira. E é dessa infelicidade, dessas agruras, dessas angústias, desse eu que ainda não encontrou um tu, seja no sertão, seja nos espaços urbanos, que a obra de Carrero fala, através da vida de seus personagens.
Pincei algumas poucas obras, alguns poucos personagens que, a meu ver, exteriorizam mais a importância do sertão na obra de Carrero. Mas em todos os seus personagens o leitor vai encontrar, de alguma forma, essa força, esses valores, essa cultura sertaneja, mesmo que os personagens, repito, sejam urbanos. Foi a forma que encontrei para não fugir ao tema proposto pela mesa, para não seguir por um viés reducionista, por uma análise sociológico-geográfica.
A obra de Carrero é vasta, seus personagens são complexos, a raiz sertaneja é um dos múltiplos aspectos que nutrem suas narrativas – sua Arcassanta, que ele carrega para onde for. Importante, sim, mas mesmo quando explicitado, na obra de Raimundo Carrero o sertão aparece como elemento de composição, cenário para a reflexão sobre temas e questões humanas de ocorrência e importância universal. Ou, como diria Autran Dourado, perda recente para a literatura brasileira, grande escritor e teórico da prosa de ficção:

“Os críticos-sociólogos recebem os personagens como gente, ainda estão na mimesis, quando os criadores muito pouco se preocupam com isso, a não ser secundariamente, para passar a sua moeda falsa e iludir – da mesma maneira que com a metáfora – o leitor: o bom do personagem é ter um corpo...”

Os personagens de Carrero têm corpo mas, acima de tudo, têm alma. E é muito mais nessa alma que circula, metaforicamente, o sangue sertanejo do autor.