domingo, 21 de outubro de 2012

Gerusa Leal - Projeto vida e obra de Raimundo Carrero



Alvarenga - a construção do personagem na obra de Raimundo Carrero
Gerusa Leal

Uma corrente mais técnica dos estudiosos da ficção considera que a literatura é jogo de palavras, de movimentos interiores, de metáforas, de símbolos, o personagem seria apenas um desses elementos. Para outra corrente, o problema central da ficção é o personagem.  Não existe história sem personagem. Mas o romance é também uma experiência de linguagem escrita, se realiza no texto.
Com esses pressupostos em vista, a idéia seria refletir sobre a construção do personagem, pensar em como ele nasce e se desenvolve. Tomamos Alvarenga, nascido em Maçã Agreste e protagonista de Seria uma Sombria Noite secreta para ilustrar esse aspecto na obra de Raimundo Carrero. Sem pretensões de defender teses, de escrever artigos, ensaios, apenas partilhando impressões sobre a criação do personagem escolhido, que o texto de Carrero provoca em mim.
Sobre Alvarenga, em sua gênese, já no texto impresso e publicado, penso num rosto na sombra, que é como Carrero diz que um personagem nasce. Nasce sem nome, porque o autor ainda está procurando a voz narrativa. Para que tenha uma voz, necessita de uma identidade. E o nome, que pode até não vir, que pode mudar ao longo do processo criativo, comporia, assim, uma identidade psicológica.
A primeira vez que entrei em contato com Alvarenga foi na leitura de Maçã Agreste, romance publicado em 1989. Lá, ocorreu-me que das sombras de Quincas Borba pode ter começado a se esboçar o rosto do personagem. O romance de Machado de Assis conta a história de Rubião, ingênuo rapaz que se torna discípulo e herdeiro do filósofo Quincas Borba, personagem do romance anterior, Memórias Póstumas de Brás Cubas e que, sendo enganado por seu amigo capitalista Cristiano e sua esposa Sofia, paixão de Rubião, vive na pele todo o fundamento teórico do Humanitismo, filosofia fictícia daquele filósofo.
Mas o que teria Alvarenga a ver com essa história toda? Em Maçã Agreste, a personagem Sofia - assim como Sofia é a esposa de Cristiano no romance de Machado -, lá na página 52, “Dirigiu-se ao atendente e pediu o romance Quincas Borba, de Machado de Assis.”
(...)
 Agora estava disposta a lê-lo. Refeita, sentia que não teria medo das palavras.
‘Rubião fitava a enseada – eram oito horas da manhã. Quem o visse, com os polegares metidos no cordão do chambre, à janela de uma grande casa de Botafogo, cuidaria que ele admirava aquele pedaço de água quieta; mas, em verdade, vos digo que pensava em outra cousa. Cotejava o passado com o presente. Que era, há um ano? Professor. Que é agora? Capitalista’.” (pág. 53 de Maçã Agreste).
Com a referência, pareceu-me, Carrero prepara o surgimento do personagem que, na página seguinte (54), começa a chegar como uma espécie de pressentimento da presença nascente, do ponto de vista da personagem Sofia: “Foi quando Sofia observou que, junto à porta, estava um homem”.
Assim, nesse momento um mero coadjuvante, um rosto nas sombras, um homem. Apenas um homem. Que vai aos poucos ganhando contornos: “Não exatamente um homem, desses que parecem afoitos e que nunca atravessam a meia-idade, acompanhantes ousados de prostitutas, mas um velho.” Alvarenga começa a ser criado, de maneira indireta, através do olhar de Sofia. Aqui já uma leve alusão, ainda velada, à relação entre Alvarenga e Raquel: “acompanhantes ousados de prostitutas” que só no desenvolvimento da narrativa vai sendo desvendada.
O personagem, agora, não é mais apenas um homem, é o acompanhante de uma prostituta e, a essa altura de sua construção enquanto personagem, um velho: “Rigorosamente, um velho. Vestido num terno azul, sem gravata, um bigode ralo embranquecido, cabelos negros pintados, e bem penteados, gordo.”
Alvarenga vai se delineando. Aos poucos vai começando a sair das sombras: “As rugas, apesar de tudo podia ver as rugas, não escondiam a velhice.” É o olhar de Sofia construindo, com delicadeza, a personagem, dando algumas leves pinceladas de um perfil físico que já deixam transparecer um pouco do perfil psicológico do homem.
Na página 55, Sofia “Lembrou-se do romance de Machado de Assis, e era como se todos ali tivessem os olhos e os sentimentos de Rubião tentando decifrá-la”.
As reflexões de Sofia sobre Rubião ficam em suspenso enquanto testemunha o depoimento denso e a reação de Jeremias à revelação de Raquel de que resolveu ser prostituta. Até agora o personagem veio sendo revelado, apresentado, por características físicas, um perfil estático, quase um retrato, pintado por Sofia. É a idade, são as roupas, os traços fisionômicos.
Lá para a página 57, Sofia volta-se outra vez ao velho e, sob seu olhar, o personagem começa a se movimentar, a ganhar vida: “O rapaz [Jeremias, irmão de Raquel, amigo de Sofia] passou a mão nos olhos, enxugando o suor que caía da testa. Repetiu o gesto, e o sorriso não se afastava dos lábios. O que, aliás, contrastava com a face do velho que olhava um e outro, um tanto atônito, às vezes também querendo sorrir, mascarado pela inquietação. Sentado, as mãos sobre as coxas, baixava sempre a cabeça para beber um gole de cerveja.”
Apenas um olhar, uma intenção de sorriso, uma inquietação, um gesto característico, mas já se movimenta. As ações são narradas representando comportamentos. Não são elementos isolados. O perfil psicológico vai sendo desenhado.
Mais adiante, à página 59, diante da revelação de Raquel: - “Quero ser prostituta” -, a narrativa volta mais uma vez o olhar ao velho: “Quatro árvores estariam mais consoladas pelo vento. De todos, porém, quem revelava absoluto abatimento era o velho. Enterrava a cabeça no peito, as mãos cruzadas entre as pernas abertas, e permanecia imóvel, uma imobilidade insólita, que significava, ao mesmo tempo, presença e distância, um objeto, ou a aproximação mais verdadeira da dor e da compreensão, um ser vivo.”
O narrador – nesse momento, Sofia – coloca o leitor agora mais em contato também com os sentimentos de Alvarenga, expressos nos gestos. Um ser vivo. As palavras começam a se mover, o texto começa a traçar, embora ainda de maneira possivelmente confusa para o leitor, a gênese do personagem que, aqui, já pulsa. Já sofre. Já é. Já existe.
Não se ouviam ruídos nem a música dos cabarés. Mas o velho, saindo do torpor em que se encontrava, num gesto que lembrou o som desafinado e grotesco de um instrumento no meio de uma orquestra, meteu a mão no prato e retirou um grande pedaço de queijo, enchendo a boca desajeitada e gulosamente. Mastigava com apetite e força, deformando a boca. Não esperou sequer que a comida descesse pela garganta, Tomou o copo de cerveja e bebeu.”
É o próprio personagem, embora ainda sob o olhar de Sofia, lançado agora ao centro da cena, do palco, quem vai, no foco da luz, em câmera fechada, em close, dando ordem ao disforme, ao caótico que caracteriza a gênese de Alvarenga. Vai “saindo do torpor”. Humanizando-se, até come; e seus gestos o vão construindo.
As frases vão se apresentando, depois os movimentos iniciais levam ao nome.
“- Rubião tem fome.
A gargalhada, imensa gargalhada de Jeremias, espantou. Ele ouvia a frase de Sofia, seguida de um arroto do velho. Sem entender a alusão ao livro de Machado, Raquel olhou estranhamente para os dois. Mas, enquanto o velho enchia, outra vez, o copo de cerveja, deixou o pequeno sorriso encantar os lábios. De certa forma, gostara da expressão.
- Rubião sabe fazer coisas.
Disse e aproximou-se do companheiro. Sofia olhou de viés para Jeremias, lembrando-se de Rubião, Cristiano Palha, Freitas e Carlos Maria e, sobretudo, da outra Sofia [a de Quincas Borba]. Que haveria ela de pensar num instante daquele? E o velho continuava, vorazmente, a devorar o queijo e a beber a cerveja.
- Vamos, Rubião, mostre a eles o que sabe fazer.
Ele levantou o rosto gordo, com o bigode sujo de espumas, imitando um sorriso, limpando os lábios com a língua:
- Você fala comigo?
Raquel colocou a mão no seu ombro:
- Com quem haveria de ser?
- Meu nome é Alvarenga. Por que me chamam assim?
Aqui fica a pergunta, lançada ao ar, para os demais personagens - e para o leitor. Nesse trecho, também, a relação do personagem com Raquel vai se modificando ao olhar do leitor. Não mais apenas um acompanhante ousado de prostitutas. Mas um companheiro de Raquel.
O narrador oculto, organizador vai, por meio do diálogo, fazendo um uso sofisticado das marcações para ir acrescentando traços ao perfil físico do personagem - dando-lhe um bigode, por exemplo -, construindo sua identidade. É o próprio personagem quem afirma seu nome, começando, assim, a destacar-se das sombras do Rubião, de Quincas Borba, e se apresentando como um outro, que os demais personagens ainda estão começando a conhecer – assim como o leitor.
É Raquel quem, à página 60, joga Alvarenga outra vez, dessa vez quase literalmente, no palco, e lhe pede que se apresente, que se defina, saia da ambiguidade que os dois nomes criam:
“- Alvarenga ou Rubião, mostre a eles suas habilidades. O velho também riu, riu e repetiu a palavra nova duas ou três vezes, apenas para ele. Contou que vivia, sozinho, com um cachorro no quarto de pensão. Isto é, precisava escondê-lo porque a hospedeira não gostava de animais nos aposentos. Sobretudo um cachorro, que colocava em risco a saúde dos outros hóspedes. O bicho era bem-comportado, não latia, não grunhia, obedecendo a todas as ordens do dono.”
Sofia e Jeremias contribuem também com seu olhar para ir plasmando Alvarenga para o leitor, de maneira indireta, o narrador colado ao ponto de vista dos personagens:
“Enquanto ele falava, Raquel serviu mais uma cerveja e mais queijo, mesmo sabendo que estava perdendo sua própria alimentação. Sofia e Jeremias esqueceram o enfado, interessados na figura ali à frente, conversando e conversando, ganhando animação, mesmo que os gestos fossem deselegantes.”
As características do personagem vão sendo melhor definidas, ele vai “ganhando animação, mesmo que os gestos fossem deselegantes”. O “mesmo que”, aqui, me chega como recurso narrativo, para não lançar luz demais, não ofuscar o leitor, não tirar seu espaço de cúmplice na construção, pois o personagem ganha animação não “mesmo que” mas  “inclusive e principalmente” por seus gestos deselegantes.
Alvarenga já tem nome, perfil físico e o narrador, ainda de forma indireta, pelos olhares dos outros três personagens, vai estabelecendo também um perfil psicológico. Já não é uma idéia nebulosa, um velho, um companheiro de Raquel. Trata-se de Alvarenga. Um ser singular, único feito cada um de nós.
Outro trecho da narrativa, à página 61, coloca o leitor em contato com a gênese de gestos que vão caracterizar Alvarenga em Maçã Agreste, quando ainda é coadjuvante, e se aprofundar em Seria uma Sombria Noite Secreta, quando se transforma em protagonista. Trata-se da cena com o personagem fazendo a performance de como adestrava o cachorro com quem vivia no quarto de pensão:
“Alvarenga balançou a cabeça. O pobre [o cachorro] entendia, mas a princípio não mostrou habilidades. Queria que o bicho ficasse em pé nas patas traseiras, o focinho levantado. Começava aí o exercício. Demonstrava, faça assim e assim. Repetindo os gestos, um bailarino balofo, o velho caminhava nas pontas dos pés pelo quarto. Assim, faça assim, repetia. O animal não saía do lugar, espiando-o.”
(...)
Mesmo depois de rebeldia e persistência o cachorro conseguiu, ainda que canhestramente, andar nas patas traseiras. No entanto, para que ele ficasse com o focinho levantado, Alvarenga precisava oferecer-lhe um pedaço de carne, pendurando-a num cordão e, suspensa, obrigando-o a abocanhá-la.”
(...)
Raquel bateu com a mão na mesa e foi ao refrigerador, retirou mais duas cervejas, enchendo todos os copos, fazendo comentários, dizendo:
- Mas você ainda não mostrou como fez para que o cachorro alcançasse o equilíbrio.
- Não precisa, basta que eles saibam que consegui.
Jeremias pediu:
- Mostre, Alvarenga, mostre.
O velho saiu da cadeira e, de pé, apanhou uma garrafa vazia na mesa. Gordo, uma figura extravagante. Ficou nas pontas dos pés, colocou a garrafa no nariz e abriu os braços. Deu os primeiros passos, a garrafa balançou, ele prosseguiu, andando e andando, mostrando um certo tipo de arrogância e, surpreendentemente, de leveza.”
O personagem já tem um nome, mas um nome não é necessariamente um destino. Enquanto vai sendo criado, pelas próprias ações, pelo olhar dos outros personagens, Alvarenga vai sofrendo alterações. Percebe-se que o narrador oculto cuida de inventá-lo, quando Alvarenga aparece de novo lá pela página 73, junto aos “Soldados da Pátria por Cristo marchando para o Centro da cidade ao sol da manhã:
“Formavam um cortejo: à frente Alvarenga, o tenente, com o cachorro num braço, soprando a corneta de vez em quando, compenetrado.”
A corneta, que aparece aqui pela primeira vez, apresentada aparentemente de forma casual, depois vai evoluindo também na sua função como elemento de composição do personagem tendo, já em seguida, à página 74, reforçada a sua importância, o seu poder na caracterização:
 “Alvarenga soprou novamente a corneta, e, desta vez, o silêncio e a expectativa estancaram, por completo, a barulheira.
         A partir desse momento, Alvarenga praticamente sai de cena, os protagonistas do romance continuam a se desenvolver, a crescer, se relacionar, puxar o fio do enredo.
Apesar de já bem caracterizado até aqui, e de todo conhecimento prévio que o autor tem dos personagens com que trabalha, que costuma registrar em imagens, perfis, anotações, Carrero parece não acreditar em personagens totalmente planejados. Nos diz, em seu Os segredos da ficção, que “até as obras planejadas, palavra a palavra, podem ser surpreendidas”.
         Surpreendidas e surpreendentes, pois lá pela página 199 Alvarenga reaparece, e nesse momento o narrador organizador, mais uma vez sob o olhar de Raquel, além de prosseguir no desenvolvimento do personagem, começa a desvendar para o leitor algo da natureza da relação entre os dois:
         “Ele riu, e ela o observava através dos cílios, um riso bem próximo da gargalhada, mostrando as gengivas roxas, porque esquecera de colocar a dentadura. A boca, ela descobriu, parecia um buraco escuro, e a língua igualmente roxa dava a impressão de uma cobra que se mexia com rapidez na moita.
(...)
         “Sacolejava o corpo, rindo oco, satisfeito. Ela, apesar da estranha sensação de desmaio, acompanhou-o no riso, embora apenas os lábios se alterassem. Sentia compaixão por aquela figura medonha que se esforçava para tirá-la da agonia e imaginava como era esquisita a impulsão de dormir com um homem daquele. Mas se acostumara com ele, acostumara-se de tal forma que perdia o sono quando não aparecia, o que era muito raro. Alvarenga chegava noite alta, sentava-se num banco à frente da pensão e ficava a madrugada toda vendo-a subir e descer com vagabundos, mendigos, operários, estivadores, estudantes, nos tempos de boa freguesia, aguardando a vez. Ia na barraca da calçada oposta, tomava uma bebida e fumava um cigarro, voltava à guarda.”
         Essa relação de dependência de um pelo outro, essa função de guardião de Raquel que Alvarenga toma a si, agrega complexidade ao personagem.
Alvarenga já está bem definido, poderia nos parecer que a partir daí iria apenas cumprir o destino determinado até aqui pelo autor. Mas para Carrero, durante o processo criador, muitas alterações podem – e devem – ser feitas. Isso vai ficando claro quando, às páginas 202/203, pelos olhos de Jeremias e Sofia, o narrador vai mostrando ao leitor que ele ainda não conhece Alvarenga como pensava que conhecia:
         “Escutando os gritos, embora anunciando num megafone as prendas e ofertas da casa comercial, Alvarenga parou, com uma placa enorme dependurada no pescoço, olhou-os, a cara pintada e a roupa de palhaço ainda toda amarrotada, muito suado, protegeu-se na parede, um chapéu colorido, e desceu, esfregando as pernas, o sol reverberando nos prédios, nas árvores, nas pessoas, nos carros.”
(...)
         Sentados num banco, Alvarenga ficou entre os dois, satisfeito porque repousava, impossibilitado, porém, de passar o lenço na testa devido à pintura, e o suor escorria pelo nariz. Passando, as pessoas não se importavam com o palhaço conversando com estranhos, grave e sério. Mesmo um palhaço antimágico, antibelo e antiengraçado, balofo e suarento.
         Um palhaço grave e sério, antimágico, antibelo e antiengraçado, balofo e suarento. Que reafirma, a partir dessa imagem, de voz própria, a missão que o move:
         “- Não me acanho do trabalho de palhaço – ele disse. – O que não quero é que Raquel passe privação.”
         Por Raquel, Alvarenga se faz palhaço, cão de guarda, sempre em seu posto, sentado numa cadeira ou num banco na calçada em frente à pensão em que ela recebe os homens, vigilante.
         É com essa imagem de Alvarenga que nos despedimos dele em Maçã Agreste, comovidos com aquela figura singular, humana, complexa. Ele não é protagonista em Maçã Agreste. Não aparece mais nas 43 páginas finais do romance. Mas levamos ele conosco no espírito, imaginando o que mais esse personagem tão rico poderia ter sido, poderia ser.
         E é com a alegria de quem reencontra um amigo que se conheceu pouco mas que se gostaria de ter conhecido melhor que vinte e dois anos depois, em 2011, na abertura de Seria uma Sombria Noite Secreta, numa atmosfera de “era uma vez”, que é o tempo da ficção, nos deparamos outra vez com nosso amigo e, apesar de tantos anos passados, porque nos foi tão bem apresentado em Maçã Agreste, de pronto o reconhecemos:
         “Na noite de um dia sempre quente e quase interminável, Alvarenga estava ali ao pé da escada: na ponta dos pés, a boca aberta, foca gorda e amestrada, a corneta na mão, esperando o peixinho dourado de chocolate.”
         Nosso amigo cresceu e apareceu. Já não é mais apenas um pressentimento, um rosto nas sombras, um coadjuvante. Já tem um nome. O escritor também sentiu, feito a gente, leitor, que o personagem prometia muito mais, merecia mais espaço, e o promoveu a protagonista, para que seu aprofundamento enquanto personagem fosse viabilizado.
         Alvarenga continua ali, ao pé da escada, gordo, na ponta dos pés, a corneta na mão, durante esses anos todos guardião de Raquel. Agora, tão amestrado quanto seu cão em Maçã Agreste. Mas o autor recorre à imaginação e o cão amestrado vira foca, o focinho levantado se muda em boca aberta, o pedaço de carne usado como incentivo se transforma no peixinho dourado de chocolate.
         Carrero volta a nos advertir, em Os Segredos da Ficção, que “até que um personagem tome forma, precisamos escrever milhares de palavras, centenas de páginas”. E é com esse fôlego que o escritor se joga na empreitada, a trajetória de Alvarenga vai se estruturando lentamente, não mais apenas um nome, mas um ser. O personagem vai evoluindo, com a ajuda da memória e da observação, trabalho, muito trabalho, alguém que se destaca com traços visíveis, claros e que, por fim, ganha autonomia psicológica.
         Fica o convite aos que se sentiram provocados a conhecer melhor Alvarenga, a se debruçarem nas páginas de Maçã Agreste, onde ele nasce e dá os primeiros passos, e de Seria uma Sombria Noite Secreta, onde vão encontrar um Alvarenga ainda mais rico e complexo, na história do camelô e da prostituta Rachel, que vivem um amor desencontrado e confuso.
Em Seria uma Sombria Noite Secreta, Alvarenga repete e aprofunda “sempre a maravilha de estar prazeroso e inocente no sangue”, esboçada em Maçã Agreste. Vive para proteger Rachel. Apesar de protagonista, vive sem palavras. Rachel é quem fala por ele, que é capaz de, mesmo ao vê-la belamente nua, sofrer a maior decepção por ela não lhe oferecer um peixinho de chocolate em agradecimento a cada amante que vai à pensão após o seu toque de corneta.
São romances marcantes, fortes, cheios de uma poesia que, principalmente em Seria uma Sombria Noite Secreta, Alvarenga e Rachel nos deixam entrever nos desdobramentos de suas histórias, nas sutilezas dos recursos narrativos através dos quais Raimundo Carrero nos dá acesso ao mundo interior e caótico que forma a mente desses dois seres atormentados. Atormentados e sofridos mas profundamente humanos.



Texto publicado em Coleção Debate I - Raimundo Carrero - Academia Pernambucana de Letras - Organização Fátima Quintas - Edições Bagaço

Marcelo Pereira - Projeto vida e obra de Raimundo Carrero

Sísifo pernambucano
Marcelo Pereira

"Data de 4 de setembro de 1974 a primeira correspondência enviada por Raimundo Carrero ao escritor Odylo Costa Filho, imortal da Academia Brasileira de Letras. O iniciante autor pernambucano escreve:

'Estou mais uma vez lhe incomodando. Mas é que sou um homem um tanto nervoso e não sei ficar quieto por muito tempo. Sofro de ansiedades. Por isso não controlei o impulso de lhe escrever novamente. Como faz pouco mais de um mês que lhe entreguei os originais de minha novela: A história de Bernarda Soledade - a tigre do sertão para uma possível edição na Artenova e, como ainda não recebi resposta, gostaria de saber como é que andam as coisas.' "

"Respirando literatura e ajudando a revelar novos valores no suplemento Pernambuco, do Diário Oficial do Estado de Pernambuco, Raimundo Carrero cumpre sua sina de Sísifo pernambucano diariamente. Voltando sempre ao rés do chão da folha em branco para a escritura de um novo livro. Ao chegar eo cume e antes mesmo de colocar a obra nas mãos do leitor e sentir-se num Olimpo, momentâneo que seja, Carrero se vê impelido a começar novamente a sua tarefa sem fim de criação"

Em Coleção Debate volume I da Academia Pernambucana de Letras - Raimundo Carrero - organizado por Fátima Quintas - Edições Bagaço  

sábado, 20 de outubro de 2012

Lourival Holanda - Projeto vida e obra de Raimundo Carrero

Raimundo Carrero: a matéria, o modo, o mundo

Lourival Holanda

"Raimundo Carrero, desde há muito, vinha apontando como promessa; agora chega a um momento meridiano de sua produção. As premiações nacionais só reforçaram a aposta de quantos, daqui, acompanham seu percurso. As superstições classificatórias desnorteiam, mais que guiam, no caso Carrero."

"O universo de Raimundo Carrero é denso, dramático - pela própria matéria que escolhe. Lucilo Varejão Filho percebeu isso desde cedo: De Carrero escritor, eu diria que é dos mais densos que temos lido. E outra coisa não poderíamos esperar de um leitor constante de Dostoievski, que ele não se cansa de revisitar."

"Nos romances mais fortes, Carrero sugere: experiência erótica e a mística - intensidades extremas que se tocam. Daqueles aos quais só o infinito sacia. A paixão desvia nossos olhos da imortalidade."

Texto completo em Coleção Debate, volume I - Raimundo Carrero, da Academia Pernambucana de Letras, Organização Fátima Quintas, Edições Bagaço

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Laboratório de Autoria Literária Ascenso Ferreira - SESC Santa Rita

Meu Vizinho, o Escritor com Cyl Gallindo (PE) e Gerusa Leal (PE)
Provocação: Nivaldo Tenório (PE)

Programação gravada na Biblioteca do SESC Santa Rita, em 08.08.12, dentro da programação do Laboratório de Autoria Literária Ascenso Ferreira


segunda-feira, 28 de maio de 2012

Participação no Projeto Nós Pós MostraPe



Desagravo

Gerusa Leal


É a terceira noite que ele não consegue dormir. Empacado. Fica olhando com inveja a liberdade, o perambular irresponsável, a frivolidade com que ela leva os dias. Faz o que quer. Ou não faz nada. Enche o saco. E ele ainda atura. Ela é que é feliz.

Feliz, eu? Sabe você o que é ser parido no lixão – no esterco?, precisar descolar o rango em restos e perebas?, ter que trepar nas horas mais quentes do dia e olhos arregalados eternidade adentro ser obrigada a contemplar tantas mazelas? Nem mesmo pisco – não sonho, não me iludo. Sabe o que é ter por sina disseminar a bubônica, febre, lepra, diarréia, tifo, disenteria?, e ainda ter que ouvir que sou a chata – abusada – que perturbo o seu sono zumbindo e voando feito doida? É demais.

Apesar de limitada a um mesmo espaço, parece estar sempre criando novos circuitos de travessia. Quando pousa, um leve aceno e logo recomeça a dança. Quem sabe me ensina o segredo dos criativos voejos. A fórmula da fertilidade. Quem sabe é a inspiração de que preciso pra poder desempacar.
Bem sei que o que te inspiro é desprezo e a mim só devotas impaciência. Acho incrível que haja no mundo babacas feito você – podendo dormir à larga e comandar o viver – a varar a madrugada, brechando uma pobre mosca, ora tenha paciência.
Paciência bem que eu tenho. Mas como a de todo mundo a minha também acaba. Apanho o mata-moscas e começo a duelar com a pequena encrenqueira. Mas como a danada é ágil. E como me desafia. Já golpeei cada móvel. O ar meia dúzia de vezes. Umas três o próprio corpo.
Quando ele senta, cansado, já desistindo da luta, pousa bem na sua frente, sobre a folha de papel. Demora-se alguns segundos, e então, dando uma rabiçaca, alça voo porta afora. Não sem antes defecar, no texto em que ele escrevia, bem claro e definitivo, um nítido ponto final.




Só por um instante

Gerusa Leal


Bum. Bum. Bum. Bum. O socador golpeia o chão compactando o solo bum bum bum bum. A poeira cinzenta cobre as botas cinzentas sem cadarços sem meias as pernas magras mergulham nas calças desbotadas, os joelhos dobram, esticam e bum bum bum bum as mãos ressecadas pelo cimento, calejadas pela madeira das hastes do socador que bum bum bum bum a camisa bem gasta aberta no peito que se contrai e distende enquanto o socador bum bum bum bum a cabeça que levanta deixando ver o rosto e bum. O socador pousa na terra, a mão segura a ponta da camisa, passa no rosto enxugando o suor.
E ela vê então o pedreiro, mas só por um instante, um ínfimo instante.
Aperta o passo atravessa a rua as pessoas indo e vindo, as fachadas das lojas, as placas, os pontos de referência, está com pressa, não sabe direito o caminho. Perde-se.
Perde a hora. Perde a urgência, se senta na tora de madeira embaixo da árvore.
E bum... bum... bum... bum... Deixa a moça ela tá descansando e bum... bum... bum... Menino, para de mexer aí e bum... bum... bum... e o ônibus parou e abriu a porta e alguém subiu dando bom dia ao cobrador. Será que tá passando mal? e bum... bum... tá tá tá tá tá tá tá o martelo na madeira desmontando o tapume.
O cheiro da rua é forte, mistura de esgoto com fruta, verdura, carne, suor, óleo diesel, flores, suspira e bum sumiu tudo, tudo parou, o silêncio zumbindo ao redor.
Foi tanto tempo, foi quase nada, e Bum. Bum. Bum. Bum.
Está atrasada, abre os olhos, levanta, atravessa a rua, caminha alguns passos, reconhece a fachada da loja, sobe as escadas, apanha o relógio que deixou no conserto.
Coloca no pulso, desce os degraus lentamente, agora tem tempo. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tic. Tic. Tic.
Merda. Parou outra vez.

http://mostrape.nospos.org/2012/galeria_escritores_marco_01.phphttp://mostrape.nospos.org/2012/galeria_escritores_marco_01.php

Projeto Nós Pós MostraPe

Apresentação

Projeto Nós Pós MostraPE

O projeto Nós Pós MostraPE é a construção de um grande catálogo vivo da jovem literatura contemporânea pernambucana. E é também uma homenagem a 20 escritores que muito contribuíram com o reavivamento, nos últimos anos, da nossa literatura.
O projeto - contemplado pelo edital 2010/2011 do FUNCULTURA – realizará 20 recitais dinâmicos entre os meses de março e novembro de 2012, em três espaços: Casa Mecane (Av. Visconde de Suassuna, 338 – Sto. Amaro), sede pernambucana da União Brasileira dos Escritores (Rua de Santana, 202 – Casa Forte) e Livraria Cultura (Rua Madre de Deus, S/N - Recife Antigo). Todos os eventos acontecerão na segunda quinzena de cada mês, às quintas-feiras, e são abertos ao público.
O formato dinâmico dos eventos e nossa estratégia de ação primam pela limitação de um número específico de escritores por apresentação com o objetivo de assessorá-los e valorizá-los através da veiculação de seus nomes em Plano de Mídia e junto à imprensa, através de notas e matérias, visando valorizar seus portfólios. Esta estratégia é um diferencial que se mostrou altamente bem aceita pelo público e principalmente enriquecedora para o profissionalismo dos escritores participantes. Basta lembrar a movimentação literária vivida em Pernambuco, principalmente em Recife, a partir do ano de 2008, época em que o projeto Nós Pós (que a partir de 2010 foi rebatizado de Projeto MOSTRA) se cristalizou junto ao público e muito contribuiu para a criação de uma nova cena literária. Os eventos serviam de ponto de encontro para, além de se conhecer e consumir os novos escritores do estado, se discutir literatura, trocar ideias e informações, se desenvolver projetos etc. A partir desses encontros – entre outros pela cidade - muitos escritores passaram a ser mais consumidos e valorizados, surgiram grupos literários, e muitos projetos foram idealizados. Desde outubro de 2007 (época do primeiro evento do projeto Nós Pós) mais de 170 artistas se apresentaram nos eventos produzidos pela produtora Nós Pós.
E pensando em reverenciar todos os que protagonizaram este Movimento, resolvemos homenagear, na figura de vinte, todos os escritores deste período para cá. A cada evento um jovem escritor pernambucano será homenageado pela sua contribuição á nossa literatura.
Na programação de cada evento o público poderá conferir o trabalho de seis escritores. A programação prevê, ainda, shows de bandas locais e exposições. Em todo o projeto serão mais de 120 artistas do estado se apresentando.
Paralelamente à produção e execução dos eventos, estamos fazendo um trabalho de catalogação dos artistas participantes, que serão disponibilizados no site mostrape.nospos.org que, periodicamente, será atualizado. Acessando regularmente o público poderá conferir textos e outras informações sobre os mais de 120 participantes, os 20 escritores homenageados e também a programação e locais de realização dos próximos eventos e os vídeo teasers do projeto.
Ainda pelo site os artistas interessados em participar da MostraPE poderão baixar a Ficha de Inscrição e conhecer os Termos de Participação.
Esperamos com este projeto contribuir um pouco mais com a Literatura de nosso estado.

Produtora Nós Pós.

http://mostrape.nospos.org/2012/projeto_apresentacao.phphttp://mostrape.nospos.org/2012/projeto_apresentacao.php

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Aconteceu


terça-feira, 22 de maio de 2012

Mallarmargens Revista de Poesia Contemporânea

http://mallarmargens.blogspot.com.br

coelhamente


de estar sentada
sonhando sem fazer nada

assim
margaridando correntes

da suculenta cenoura
restos de uma dentada 


pôr-de-sal


sobre a pedra
escuta o mar
já não lhe teme a força

escuta o mar
já o fez olhar tão longe
até onde o céu baixando

agora tão diferente
de quando a alma nos olhos
imaginando tesouros

em seu peito
a inundar-lhe de anseios
transborda um outro mar

e mesmo forte o rugido
a urgência com que clama
aprendeu com as marés

receia o desejo
de entregar-se ao infinito
suba ao seu corpo inteiro

sobre a pedra
e apurando os ouvidos
escuta as vozes do mar



Percussão

amor por trás das portas
das cortinas

pratos atirados no chão

lamento da torneira
pingando
pingando

campainha
(acorde de trombone)

coração à porta
(toque de tambor)


Gerusa Leal

   

http://mallarmargens.blogspot.com.br/search/label/Gerusa%20Leal

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Coluna Trivial variado simples no NotaPE

 por Gerusa Leal

DESAFORO
Três noites maldormidas. Que inveja da liberdade, da irresponsabilidade, da frivolidade com que essa nojenta leva os dias. Faz o que quer. Ou não faz nada. Enche o saco. E ele ainda tendo que aturar. Essa vadia é que é feliz.
Feliz, eu? Sabe você o que é ser parido no lixão – no esterco?, precisar descolar o rango em restos e perebas?, ter que trepar nas horas mais quentes do dia e olhos arregalados eternidade adentro ser testemunha de tudo que não presta? Nem mesmo pisco – não sonho, não me iludo. Sabe o que é ter por sina disseminar a lepra, diarreia, tifo, disenteria e o escambau?, e ainda ter que ouvir que sou a chata – abusada – que perturbo o seu sono zumbindo e voando feito doida? É demais.
Eu sufocado nesse quartinho apertado e a debochada desenhando as mais mirabolantes coreografias na minha frente. Não sossega, a desgraçada. Filha da mãe: fica inventando danças, enchendo o mundo de crias. E eu aqui empacado.
Bem sei que o que te inspiro é desprezo. Acho incrível que haja no mundo babacas feito você – podendo dormir à vontade e comandar o viver – a varar a madrugada, brechando uma pobre mosca, ora tenha paciência.
Paciência bem que tenho. Mas como a de todo mundo a minha também acaba. Apanho o mata-moscas e começo a perseguir a pequena encrenqueira. Mas a danada é mesmo ágil. E como me desafia. Já dei porrada em tudo quanto é móvel. No ar, meia dúzia de vezes. Umas três no próprio corpo.
Quando ele senta, cansado, já desistindo da luta, pousa bem na sua frente, sobre a folha de papel. Demora-se alguns segundos, e então, dando uma rabiçaca, alça voo porta afora. Não sem antes defecar, no texto em que ele escrevia, bem claro e definitivo, um nítido ponto final.

http://notape.com.br/blog/?p=4167
Entrevista ao Observatório Literário - segunda parte
http://observatorioliterario.blogspot.com.br/2012/05/gerusa-leal.html

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Encontro com alunos da Escola Municipal Oswaldo Lima Filho

Momentos preciosos com a turminha do 5º ano D da Escola Municipal Oswaldo Lima Filho no encontro com escritores da programação do Concerto de Leitura. Um belíssimo trabalho de base pelo qual parabenizamos a Escola e todos que a fazem possível, professores, coordenadores, funcionários e, é claro, os alunos que deixam a gente feliz pelo interesse pela leitura e a prontidão para a compreensão dos textos lidos. A turminha gosta de verdade de ler. Um presente pra quem também gosta feito eu.

http://emolf.blogspot.com.br/

terça-feira, 1 de maio de 2012

Entrevista no Observatório Literário - primeira parte

http://observatorioliterario.blogspot.com.br/

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Terça, 24/04



Café com Poesia - edição de abril do Projeto Café com Poesia, onde a Literatura é a “atração” principal. Venha prestigiar conosco! Escritora convidada: Gerusa Leal (PE)
Mediação: Mariane Bigio (PE)
Painel Temático: A Criação Literária
Horário: A partir das 19h30
Público alvo: estudantes universitários, professores, poetas, prosadores e afins.
Local: Salão de eventos do SESC Garanhuns


sábado, 21 de abril de 2012

terça-feira, 3 de abril de 2012

Diversos Afins

Conto de Gerusa Leal na Diversos Afins - 66ª Leva - abril/2012

Dedos de Prosa II

COSTUME
Foto: Kenia Vartan

Escorada na porta, olho para a cozinha: tamboretes, mesa e armário de louça enegrecidos pelo tempo, panelas, conchas e peneiras cansados pelo uso suspensos no ar por ganchos fixos no teto, a noite já bem instalada.

Em que momento havia começado a me acostumar?

O menino brinca e sorri, neto em casa de avó. Aparece de vez em quando. Não pede comida, não quebra nada, não fala, não geme nem suspira. Minha filha adorava brincar com ele, que sorria e brincava com ela de igual para igual.

Acho que por isso tudo, e porque não pede doce nem missa, também fui me acostumando.

Depois de circular para lá e para cá o dia inteiro cuidando da casa, nem pra comer se senta, Da Paz enxuga e guarda a louça do jantar e eu me sento no tamborete ao lado do fogão escutando as dez badaladas no relógio do corredor. Ela tropeça no cachorro deitado ao lado do menino, atento à brincadeira, xinga alguma coisa, pergunta se ainda preciso dela, dá boa noite e some no corredor.

Às vezes chegava a pensar, nesse trajeto sem pouso, que nada me faria mais sair da cama; que nada me restava a não ser esperar pelo nada ao final desse sertão de solo rachado, riachos secos e arbustos retorcidos. Mas havia, sim, havia algo. Ouço a risada infantil e sinto no ar o cheiro do sabonete do banho recém tomado e saboreio esse perfume como se fosse alegria.

O rosto pousado na mão, o cotovelo apoiado na perna, olho o menino girando o pião, que avança pelo piso sem se abalar pelas falhas e tábuas soltas. Mas ele está ainda muito lá adiante. Concentro-me no percurso do pião.

Em qual tábua solta é que foi mesmo que eu parei de girar?

Estamos fazendo companhia um ao outro desde o entardecer. Minha filha chega na porta, estira os olhos até o cachorro deitado ao lado do menino e pensa:

- Já devem ser dez horas.

Depois de conferir se a janela está fechada, some no corredor.

Hoje somos só nós duas e minha neta, Gabriela. Não faz muito, éramos quatro, mas fomos nos dispersando até só restarmos nós. Primeiro foi o menino, depois meu marido, pai de Sandra. Da Paz ainda ficou mais um tempo, mas depois também se foi.

O pião bambeia e para a meus pés: não ouso tocá-lo, chuto de volta para o menino, que me sorri e volta a brincar. Continua a sorrir e a brincar até que, de repente, se vai. Eu sei que ele foi ao quarto de Gabriela. Fecho o casaco sobre o peito, esfrego as mãos para aquecê-las.

Não falamos muito uma com a outra. Já faz tempo que se acabou qualquer assunto que importe. Acabou-se com o silêncio que reina na casa. Sei que ela conversaria se eu quisesse, mas não tenho vontade. As palavras não se formam, e quando alguma passa pelo pensamento, não tem força pra mover a língua. É assim. Por isso não falamos muito.

O cachorro abaixa as orelhas, pousa o focinho sobre as patas e começa a cochilar.

Cai uma gota da torneira, fazendo um som surdo na cuba da pia. Outra começa a se formar, fico esperando que engorde e caia também. Mas ela fica lá, pendurada. Não cresce. Não despenca. O vento sopra nuvens que passam transparentes pelo alto da mangueira, e a gota pendurada finalmente cai.

Sandra passa por mim puxando a gola do robe sobre o pescoço, bebe um copo de água recostada no balcão, os olhos perdidos na noite que entra pela janela. Costumava sonhar muito com minha filha no início, sempre criança, brincando com o menino. Não lembro quando parei de sonhar. Acho que foi quando nasceu minha neta, Gabriela.

Sandra também não sonhou mais. Acorda todas as noites na mesma hora, e vem à cozinha beber água.
Ouço o riso de Gabriela, de lá do berço no quartinho pintado de azul, ao lado do quarto da mãe. Sandra também escuta, seu rosto se anima, e a passos largos some outra vez no corredor.

http://diversosafins.com.br/?p=950

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Anacy

Conto de Gerusa leal em Escritores & Tal http://www.escritoresetal.com.br/main/textos/conto-textos/

Quando vi o carro de minha filha mais velha estacionado em frente ao prédio, caí na real. Tinha esquecido de todo que saí mais cedo exato porque havíamos combinado sair juntas para jantar. Entrei no prédio e sentei na mureta do estacionamento. Só então percebi o carro da segunda filha parado na vaga. Amanda não suportava que alguém faltasse a um compromisso com ela sem desmarcar. Rita era a preocupação personificada.

Eu só queria chegar em casa, tomar um banho, deitar, pôr uma música romântica e continuar curtindo a noite. Por sorte Ricardo morava a umas poucas quadras antes e o convenci de que chegaria bem em casa sozinha. No final meu sexto sentido funcionou outra vez. Teria sido constrangedor ele presenciar minhas filhas me dando bronca. Arrumei os cabelos com as mãos, respirei fundo e entrei no elevador.

Todas as luzes do apartamento acesas, Amanda no celular, Rita no telefone fixo. Assim que me viram, desligaram os aparelhos sincronizadamente e avançaram em minha direção.

- Graças a Deus, já estava ligando para a polícia. Por que seu celular está sempre fora de área ou desligado?
Já cansei de lhe dizer pra se livrar desse dinossauro e comprar um celular decente. Mas enfim, por que demorou tanto? Por onde andava?

Amanda me olhava sem dizer palavra.

- Como vêem estou viva. Para quê esse escarcéu todo? E quantas perguntas, Rita, parece uma metralhadora.

O efeito da brincadeira foi paradoxal. Rita começou a chorar se lamuriando e me acusava de insensível. Agora um mecanismo automático que eu conhecia bem havia sido acionado e uma queixa puxava uma crítica, que puxava uma queixa, e a não ser por um colapso o fenômeno só parava quando descarregavam as baterias. Olhei para Amanda.

- Tudo bem?

Ela enfrentou meu olhar num silêncio mais eloqüente que a verborréia de Rita. Meu coração se apertava. Inesperadamente Amanda desatou também a chorar.

- Você sabia que havíamos combinado de ir jantar. Custava ter ligado dando sinal de vida?

- Esqueci, desculpe, me envolvi com uma coisa e outra e esqueci.

- Ligamos para a casa e os celulares de todas as suas amigas e só o conseguimos apurar que às oito da noite você pegou uma carona para casa com uma antiga colega de faculdade, mas que ninguém tinha visto nem sabia quem era. E já são onze horas. O que queria que pensássemos?

Não tinha feito nada errado além de esquecer do compromisso com Amanda mas me sentia mais culpada que o normal. Eu com medo de ser castigada por minhas filhas por haver chegado em casa mais tarde sem ter avisado antes?

- Saí daqui cedo para encontrar com a turma no baile da terceira idade, como faço toda quarta-feira, vocês sabem. Quando já estava de saída encontrei uma velha amiga que não via há anos, está morando no nosso bairro e me convidou para voltarmos juntas, pôr a conversa em dia. Depois de um tempo deu fome, paramos para comer uma pizza e tomar um chope e continuamos caminhando para casa, fazer a digestão.

- Andando? Só as duas? Do clube até aqui? Está mesmo senil. Já ouviu falar em assaltantes, marginais, latrocínio?

Já quase perdendo a paciência, tentava recuperar a autoridade materna.

- Rita, não é tão longe assim. É bem iluminado e até essa hora ainda tinha muita gente nas ruas. Sinto ter assustado você e obrigada pela preocupação, por ter vindo até aqui. Amanda, desculpe mais uma vez o esquecimento, não foi proposital, aconteceu.

- Eu já tinha combinado uma saída com amigos quando Amanda ligou. Ela só perguntou se você estava comigo, não queria alarmar, nem disse que estava preocupada, mas eu senti no tom de voz.

- Desculpem.

- Acabei cancelando a saída para vir aqui.

- Sinto muito.

Amanda pegou a bolsa e as chaves do carro. Rita fez o mesmo. Já da porta, virou e sorriu.

- Tá, o que importa é que você está aqui e bem. Mas enfim quem é essa velha amiga? Nós conhecemos?

Já mais tranqüila, considerando a crise superada, ri.

- Na verdade não foi uma amiga. Foi um amigo – disse meio sem graça.

Ela acentuou o sorriso.

- Hum, um amigo…

E numa demonstração rara de controle, transformou o sorriso na cara mais fechada que eu já vira nela.

- É pior do que eu imaginava – Amanda falou por ela.

Suspirei arrependida de ter dito a verdade. Aquele não era mesmo o momento para isso. Só porque eu achara a coisa mais gostosa do mundo, depois de anos pensando que não existia mais para os homens, passar algumas horas com alguém gentil, confiável e atraente, e porque havia chegado em casa flutuando em nuvens e querendo que o tempo parasse, isso não queria dizer que minhas filhas ficariam felizes por mim, muito menos que veriam as coisas pelo mesmo ângulo.

As duas largaram as bolsas e sentou uma de cada lado, no sofá, me cercando.

- Eu não acredito – era Amanda com aquele seu jeito de ser tão explícita nas entrelinhas.

- Vá para casa. Seu marido já deve estar sentindo sua falta. Vá você também, Rita. Garanto que ainda não alimentou seu gato hoje. Sinto que não é um bom momento para levarmos avante esse assunto. Não há clima.

- Não, mamãe, agora queremos saber.

- Muito bem então. Encontrei com Ricardo, um antigo colega de universidade, no clube, conversamos, viemos para casa caminhando e na metade do percurso comemos uma pizza juntos. Foi isso.

- Saiu para jantar com um cara que encontrou num baile da terceira idade pela primeira vez desde a faculdade?

Incrível. Parecia até que eu tinha ido a um motel com um perfeito estranho, no primeiro encontro. Será que elas não percebiam que eu não era uma garotinha inexperiente e indefesa? Por que tanto barulho?

- Sim, foi isso mesmo, qual o problema?

- Você não sabe? Depois reclama quando a gente diz que não tem mais idade para estar saindo por aí sozinha. Por que não pergunta a qualquer adolescente? Sua filha mais nova, por exemplo. Pena que ela tenha ido dormir na casa de uma amiga. Diria com toda a clareza qual é o problema. Qualquer adolescente sabe. Com a diferença que você não é mais uma adolescente.

Elas percebiam. Não era esse então o problema.

- Além do que você não tem mais idade para essas coisas, mãe.

Estava enganada. Era esse, exatamente, o problema. E que tais coisas eu fizera para não ter mais idade para elas? Sair com um amigo? Tomar um chope? Conversar?

- Chega, meninas. Vão para casa antes que eu diga algo de que me arrependa amanhã.

Rita me deu um beijo e se despediu. Amanda saiu sem me olhar nem abrir a boca.

Tranquei a porta e sentei um instante tentando pôr as idéias e os sentimentos no lugar. Tanto tempo havia se passado desde a última vez que eu vira Ricardo. E hoje descobrir que ele já é meu vizinho há alguns anos.
Provavelmente passaria mais uma eternidade, quem sabe o resto da vida sem vê-lo. Quanta bobagem.

Pena que o embate com as meninas me deixou tão sóbria e lúcida que o restinho de encantamento que pretendia curtir até pegar no sono evaporou como por mágica. Lembrei que tinha sessenta anos e pelo menos três quilos de sobra na cintura que já desistira de tentar fazer sumir.

Embora de vez em quando me dessem preocupações, me sobrecarregassem ou me magoassem eu adorava meus filhos. E os netos então nem se fala, eram meus tesouros.

Apaguei a luz da sala e fui pelo corredor direto para a cama. Sonhei a noite inteira com Ricardo. Eu vestia um vestido lindo e esvoaçante e ele, em um terno claro, camisa sem gravata, mais elegante do que nunca, me tirava para dançar. A lua clareava a pista, que era no meio de um jardim ao ar livre e onde dançávamos a sós. Não sei de onde vinha a música nem me preocupou isso no sonho. Mas era maravilhosa. Ele pôs a mão em meu rosto, sorriu e quando pensei que ia me beijar, disse: boa noite, Anacy, e eu acordei com o toque do interfone.

- Um rapaz deixou uma encomenda para a senhora.

- Acordei agora, seu Manoel, não dava para colocar no elevador e eu pego aqui?

- Agorinha mesmo.

Quando a porta do elevador abriu pensei que ainda estava sonhando. No carpete o mais lindo arranjo de flores que eu já vira. As pernas tremeram. Peguei o arranjo antes que o elevador fechasse outra vez.

Entrei no apartamento e sentei com as flores no colo, apatetada. Havia um envelope, e dentro um cartão. Podia até ser sonho mas não era engano, era eu mesma a destinatária das flores.

Anacy,
Adorei nosso passeio ontem.
Quer jantar comigo amanhã?
Ricardo

Comecei a sorrir como se tivesse esperado por aquele convite a vida inteira. De repente caí na real outra vez. E as meninas? Ah, azar. Depois eu pensava nesse detalhe.

Acabava de colocar as flores no vaso quando o telefone tocou.

- Alô?
- Gostou das flores?
- São lindas.
- Apanho você em casa?
- Não, não, é que há uns desdobramentos, depois, pessoalmente, eu explico.
- Então o que sugere?
- Nos encontramos na pizzaria de ontem. Lá resolvemos onde jantar.
- Às oito?
- Às oito.

Tinha uma voz ainda mais sensual ao telefone.

Telefone. Liguei correndo para Graça, que ria de toda a história, e mais ainda quando lhe pedi que se algum de meus filhos ligasse querendo saber onde eu andava dissesse que eu tinha ido ao banheiro, comprar cigarros, qualquer coisa. E desse um toque para o meu celular.

- Acho isso meio absurdo, afinal você é adulta, mas se é assim que deseja serei seu álibi. Se vocês forem discretos eles nunca saberão. Afinal é apenas um jantar e pode ficar só nisso não é? Ou você tem planos mais ousados? – e riu.

- Pode parar de zoar. É só isso mesmo. A não ser que acabe não sendo – sorri. Então estamos combinadas.

Sentei junto à janela e comecei a cuidar das flores na jardineira. Quanto tempo andei tão só sem perceber.
Como pude deixar que me fizessem de velhinha quando ainda não era? Seria algum dia? Por que deixei que me convencessem de que com a separação e a idade minha vida útil havia acabado? E a não ser pela morte gente tem prazo de validade? Foi muito bom ter reencontrado Ricardo, ia ser ótimo jantar com ele e o que mais o destino nos reservasse. Mas se descobrisse agora que ele tinha sido apenas só um sonho, fantasia, o mal já estava feito.

No mercado conversei leve com a moça do caixa e as outras pessoas na fila. Comprei um batom novo.
Passei no salão, cortei e pintei o cabelo, ousei um tom e um corte diferentes. Dei metade de minhas roupas, comecei a usar outros modelos e cores que antes jamais ousaria. Minha vida não cheira mais a naftalina. Não há mais sonhos proibidos. Alguns são mais difíceis de alcançar, mas é só planejar com cuidado e paciência.
Voltei a cantar no chuveiro.

Meus filhos acabaram se acostumando a que eu não desse mais muita satisfação da minha vida. Assim como eles não me dão da deles. Deixei de temer críticas e opiniões. São só críticas e opiniões. Eles têm o direito e o dever de fazê-las. E eu as considero importantes, afinal eles me amam. Ouço e avalio a quais devo dar ouvidos. Mas as decisões, certas ou erradas, são minhas.

Passaram três anos daquele segundo jantar. Eu e Ricardo fizemos um trato. Não iríamos morrer lentamente um sufocando o outro. Mais ou menos uma vez por mês recebo um arranjo de flores com um cartão:

Anacy,
Quer jantar comigo amanhã?
Ricardo

Até quando? Quem se importa?