terça-feira, 23 de junho de 2009

Joana

Palavra que me assustei quando a garota bateu no vidro. A camiseta surrada torcida pela mão direita, com a esquerda faz sinal para eu abrir. Primeiro aceno que não, com a cabeça, depois abro só um pouco.

- É para quadrilha?

Vejo-a levantar a cabeça, abrir mais os olhos negros e balbuciar:

- É, sim, senhora.

Apanho uma moeda de um real na carteira e ponho na mão da menina. Pelo retrovisor, de costas, caminha devagar demais para quem devia aproveitar o sinal fechado abordando outros carros. Interessante como é ilusória a distância aparente do que se vê pelo retrovisor.

O sinal abre, ponho o carro em movimento. Continuo pensando na mocinha. Mais que pensando, vendo. Trajava short curto, que acentuava as pernas longas e jovens, camiseta e chinelos, os cabelos castanhos colados à cabeça por grampos, ou biliros, como os chamava minha avó.

Minha avó. O arraial era no final da rua em que morava, a poucos metros da casa de meus pais. Local interdito para nós fora da época em que começavam os ensaios até as festas juninas. Meus pais - meu pai pouco falava, minha mãe era a porta-voz oficial - diziam que a vizinhança do fim da rua era de gente que não devíamos freqüentar. Mas perto do São João conseguíamos convencê-los a deixar participarmos dos ensaios e preparativos para os festejos. Sob os olhos vigilantes de minha avó sentada na cadeira favorita na calçada, os dedos ágeis tecendo paninhos de crochê.

Parecia constrangida, não tinha a desenvoltura dos rapazes e moças que nos abordam nos sinais de trânsito, nessa época do ano, alguns vestindo por cima das camisetas, shorts, bermudas ou calças compridas, saias modelo matuto estilizado já meio surradas, e até esboçando passos de dança enquanto os outros fazem a coleta junto aos motoristas. Ainda estamos em abril e eu havia esquecido que hoje em dia passou semana santa já é São João.

Ela me deu a moeda. Não ia dar não. Eu vi. Não sei onde arrumei cara pra mandar ela abaixar o vidro. Nem precisei falar nada. Pra quadrilha. Nem tinha pensado nisso. Já tinha a fala preparada e ensaiada. Apostava que ia ser mais difícil.

Mais do que vendo, sentindo, ou pressentindo, enquanto se aproximava do carro. Já estava lá. Mas me pareceu que aumentou depois que eu pus a moeda em sua mão. Vou para casa levando, no banco do carona, o constrangimento da mocinha no corpo e num rosto que não trazia o sorriso despreocupado de jovens curtindo vésperas de festas.

- É pra quadrilha.

- Como é?

- De São João.

- Outro dia.

Diabo.

Curtia a festa mas gostava era dos ensaios, as paqueras, os namoricos, mesmo não conseguindo que Edu fosse meu par. O consolo é que na festa todo mundo dança com todo mundo. Invejava Laura. Mas ela engravidou, não pôde naquele ano e foi minha chance. Na hora da formação dos pares, o meu também não apareceu, de cama com resfriado. Daí para o namoro foi um pulo.

- A senhora podia colaborar?

- Quadrilha?

- É, de São João.

- Tenho não.

Meleca. Que é que eu faço?

- Moço, colabora?

- Tenho uma proposta melhor, sobe no carro.

Nojento.

Isso não vai dar certo. Tô perdida.

- Moça, colabora?

Mais um real. Beleza.

- Moço, uma ajuda.

- Com esse sorriso posso até ser o noivo.

- Na minha quadrilha já tem noivo, moço.

- Tá bom, toma aqui um trocado. Mas se o noivo largar a noiva, sempre passo por aqui.

- Moça, um trocado pra ajudar nas roupas.

- Tô precisando de faxineira.

Puta.

Vamo, vamo, Joana / findou-se o inferno / houve um bom inverno / há fartura no sertão. / Ai, Joana, traz pamonha, milho assado / vou matá de bucho inchado / quem num crê no meu sertão.

Parecia tão insegura, vai ver tinha ensaiado todo um discurso para me convencer a contribuir e eu frustrei antecipando a razão da abordagem. Posso até ter ofendido quando simplesmente pus a moeda na mão dela. Como eu posso ser desastrada às vezes. Não adianta agora ficar me martirizando, não tive intenção, ela supera.

- Como é que é, galera? Vamos somar o apurado.

- Levantei trinta paus. Deu mais uns trocados mas eu tava com sede, comprei uma coca.

- Aqui tem mais vinte e cinco.

- Quarenta e três.

- E tu, traste? Conseguisse ao menos cinco paus?

- Fala assim comigo não.

- Ih, Joana, vem com choradeira não, já te disse. Ou entra no esquema ou tudo acabado entre nós. Me dá logo esses trocados. Porra, que é que é isso? Deixa eu contar. Cinqüenta e dois paus e quarenta e cinco centavos. De que jeito arranjasse essa grana? Eu não vou devolver nada não tu tá sabendo. Aqui é bateu morreu. Vai, diz logo, esperta.

Laura fazia sucesso como os rapazes. Talvez por isso também estivesse incluída por minha mãe na categoria dos proscritos do fim da rua. Minha melhor amiga na época acabou sendo também uma moradora do fim da rua. Tereza. Conquistou até minha mãe, que passou a dobrar a metragem na compra da chita para o vestido de matuta e costurar o meu e o dela. Os padrões do tecido e modelos um pouco diferentes, para não parecermos par de jarros, éramos as matutas mais bem vestidas da festa. Nem assim tínhamos vez quando Laura estava no grupo.

- Foi no sinal, eu juro. Como tu dissesse pra eu fazer.

- Tu agora deu pra mentir também, foi?

- Ai, foi no sinal sim, uma dona me deu uma idéia que deu certo.

- Uma idéia? Que papo é esse? Ficasse contando nossos planos pros otários é? Mas só levando bolacha mesmo.

- Não, ai, foi nada disso. Ela pensou que eu tava recolhendo pra quadrilha de São João. Me deu facinho facinho, eu nem precisei dizer nada.

- Como é que é?

- Pois é. Foi assim. Eu aí comecei a passar o papo nos outros motoristas. Mesmo um bocado não dando nada, apurei isso aí.

- E não é que a esperta pensa, pessoal. Bom, muito bom. Com mais cem pratas dá pra comprar o ferro. Vai ser assim, então. Tu vai voltar pro sinal e conseguir o restante da grana.

Quem havia de dizer que meu namoro com Edu só durasse três meses? Ele era um arraso mas a gente não tinha nada a ver um com o outro. Logo depois que acabamos, sumiu no mundo. Diziam que o pai mandou ele morar em São Paulo com um tio, para estudar. E Laura nunca mais falou comigo.

- É perigoso. Imagina se aparece gente de quadrilha mesmo. É capaz até de me bater.

- E desde quando isso é problema? Pelo menos apanha pra levantar a grana. Muda de sinal, sei lá, te vira. Te dou três dias.

Ô semana cheia. Ainda bem que é sexta, recebi salário, vou fazer compras e mais tarde pego um cinema.

Lá vêm de novo os meninos malabaristas.

Que será que foi feito de Laura? Dizia que eu tinha roubado o namorado e um dia ia me arrepender. Bobagens de adolescentes. Lembro que teve uma menina. Eu achava lindo o nome que tinha lhe dado.

E esse sinal que não abre. Como era mesmo o nome da garota?

- Joana, pega a bolsa, pega a bolsa. Vai embora, dona, vaza, vaza. Se olhar pra trás leva chumbo.

- Era ela.

- Ela quem?

- A moça do sinal. Acho que me reconheceu.

- Não interessa, esperta. Ela nunca mais vai saber da gente. E dona Laura vai ganhar uma bolsa de madame, que eu só quero o recheio da carteira e o celular. Viu como tu não podia arranjar namorado melhor?

Vamo, vamo, Joana / findou-se o inferno / houve um bom inverno / há fartura no sertão. / Ai, Joana, traz pamonha, milho assado / vou matá de bucho inchado / quem num crê no meu sertão.

10 comentários:

Wagner Marques disse...

Muito denso, viu!

adorei!

Gerusa Leal disse...

Obrigada, Wagner, pela visita e pelo comentário.
Abraço

Alvaro disse...

Muito bom!

Gerusa Leal disse...

Obrigada, Álvaro.
Abraço

MJFortuna disse...

Gostei muito Gerusa, parabéns!

Abraço

Gerusa Leal disse...

Obrigada, Maria.
Abraço

Luiz Alberto Machado disse...

Maravilha sua arte, minha poetamigalinda!!! Tudo demais, matando as saudades e votando no Flor de Gelo para ser o melhor dos melhores.
Beijabrações
www.luizalbertomachado.com.br

Gerusa Leal disse...

Obrigada, Luiz Alberto, pela visita e pelo voto.
Muita paz e alegria na vida.
Beijos

jovensemeninosderuasuindara.blogspot.com disse...

Incrível como a autora transmite com veracidade o texto que traz e representa as jovens Joanas brasileiras. "...vou matar de bucho inchado, quem num crê no meu Brasil".
Parabéns Gerusa pelo lindo trabalho aparesentado no blog.
Mariah Santos

Gerusa Leal disse...

Oi, Mariah. Um prazer receber tua visita. Feliz por haver gostado do conto. Obrigada pela visita e pelo comentário.
Beijos