segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

HISTÓRIAS POSSÍVEIS - Edição de Natal




imagem: Natasja Fourie


“O mundo está em decomposição, graças a Deus”.
Jacques Lacan

DOS COLABORADORES

Daniela dos Santos, Dia Seguinte
Daniela Mendes, Descartável para quem não aprecia detalhes
Dheyne de Souza, num canto natal
Erwin Maack, Amigo Secreto
Gerusa Leal, Um cochilo depois do jantar
Leandro Resende, O Papai Noel que sabia demais
Lúcia Bettencourt, História do Natal
Susana Fuentes, Natal clandestino
Wesley Peres, Xícara de chá cheia de café

domingo, 20 de dezembro de 2009

POESIA VIVA DA CIDADE

Poema meu no blog de Juareiz Correya, que vale conferir http://www.jcorreya.blog-se.com.br/blog/conteudo/home.asp?idblog=16039

OLINDA, de Gerusa Leal 



Trago na boca da memória o gosto
ácido-adocidado das caipirinhas
sorvida na juventude dos teus carnavais.

Os ventos das lembranças despenteiam-me
os cabelos quando do alto da alma
olho para Recife ouvindo os sinos da Sé.

Tuas ladeiras ensinaram-me o gingado
que levo por onde eu for. assim como
o aprendizado de esperar sempre a surpresa
em cada esquina que me leva
aos quatro cantos do mundo.

A tua lua me traz o fogo do beijo
trocado com quem não lembro
naquela noitinha fresca
de amores adolescentes.

Te vejo, Olinda, oscilando com o vento
nas palhas dos teus coqueiros.
E te respiro no cheiro da maresia
que me entranha as narinas
sempre que volto a me abrigar nestes teus braços
acolhedores e sorrio o teu sorriso
de gente simples que te vive inconsciente
da vida tanta com que tu nos presenteias
nos teus pensares de cidade secular.

E enquanto tu nos ninas com as badaladas
dos sinos das tuas igrejas na hora da ave-maria,
sonho meus sonhos de menina pés descalços
a pular as tantas ondas sempre mornas do teu mar.
 

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Lua Negra




Poema do livro Versilêncios, no excelente blog de César dos Anjos.

http://sistemapoetico.blogspot.com/2009/12/lua-negra.html

Poeta menor, senti-me agraciada por aparecer na impecável seleção do César. Para quem gosta de poesia de primeira, vale conferir o blog inteiro.

http://sistemapoetico.blogspot.com/

sábado, 28 de novembro de 2009

VOZES FEMININAS - Festival de Inverno de Garanhuns 2009

Mariane Bigio, Silvana Menezes e Biagio Pecorelli, em apresentação na Casa da Palavra, no Festival de Inverno de Garanhuns, em Julho de 2009.  Abrem o vídeo com trechos de dois poemas meus, do livro Versilêncios.
http://www.youtube.com/watch?v=DcXXwPqrE4U  

terça-feira, 24 de novembro de 2009

HISTÓRIAS POSSÍVEIS - EDIÇÃO ESPECIAL DE ANIVERSÁRIO


EDIÇÃO 54 – Superedição Comemorativa de 2 Anos



imagem: zdzislaw beksinski

“Se acreditamos com tanta ingenuidade nas idéias é porque esquecemos que foram concebidas por mamíferos”.
“Para quem respirou a Morte, que desolação o odor do Verbo!”
“Muito antes da física e da psicologia nascerem, a dor desintegrava a matéria e a angústia a alma”.
“ (…) aceita essa chaga de nove aberturas que é o corpo, segundo oBhagavad-Gita. A sabedoria? Sofrer dignamente a humilhação que nos infligem nossos nove buracos”.
[Emil Cioran, em Silogismos da Amargura, tradução de José Thomaz Brum, Ed. Rocco]

DOS COLABORADORES

André de Leones, Não aconteceu muita coisa no primeiro assalto
Daniela Mendes, … estou completamente idiota
Dheyne de Souza, A costura dos braços no sono
Erwin Maack, Cabras da peste
Gerusa Leal, Os Cães
Leandro Resende, HQ do tempo estacionário
Maurício Melo Júnior, Urbanas fotografias humanas
Nereu Afonso, Crônica de enfermaria
Susana Fuentes, Uma estranha no vento
Wesley Peres, Acordado dentro do corpo

DOS CONVIDADOS

Isabel Roriz, Tratado absorto de um ser inadvertido
Paulo Guicheney, Terceiro Movimento

DA ASSINANTE

Tere Tavares, No crepúsculo todas as cordas são pardas

HISTÓRIAS POSSÍVEIS

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

2º PRÊMIO LITERATURA NO CELULAR - VENCEDORES

Confira os dez textos vencedores do 2º PRÊMIO LITERATURA NO CELULAR da FLIPORTO 2009.

 http://www.fliporto.net/2literatura_celular_vencedores.html 

O meu foi classificado em 6º

 "Amanhã já é setembro, 


mas os ventos de agosto 


sem mesura ou cerimônia  


nem fúria nem desalento 


ainda dançam e fustigam 


as veredas do sem tempo 


que se desenham no rosto."

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Bienal - Lançamento Contos de Oficina



No lançamento de Contos de Oficina 2009, na Bienal do Livro de Pernambuco, com Cleonice, Inah, Carrero e Ney. Foto cortesia de Heleno e Udinha.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

sábado, 24 de outubro de 2009

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Bienal do Livro de Pernambuco - Sessão de autógrafos




Em sessão de autógrafos de Versilêncios na Plataforma de Lançamentos da Bienal Internacional do Livro de Pernambuco 2009, com André Cervinskis, prefaciador do livro, e Silvana Menezes, poetisa e atriz que fez recital com poemas da autora no evento.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Bienal do Livro de Pernambuco - Homenagem a Terêza Tenório


Na foto, da esquerda para a direita, Ariadne Quintela, Lucila Nogueira, Wellington de Melo, Adélia Coelho e eu. Participação em recital em homenagem à poetisa Terêza Tenório, onde disse o belíssimo
Vivendo o nunca mais
Terêza Tenório

Meu Pai sozinho
Meu pai sempre em silêncio
A silhueta do meu Pai

Na noite fria meu pai sorrindo

O nunca mais é fera

No mês de maio meu pai sempre presente
seu cachenet cinzento

Meu pai ora calado
ausente

É fera o nunca mais

sábado, 17 de outubro de 2009

Edição 53 de HISTÓRIAS POSSÍVEIS




Escritores não são pessoas normais feito eu e você. Escritores têm “bloqueio” – um jeito pretensioso de dizer que eles não têm porra nenhuma na cabeça. Você não vê carteiros parados no meio da rua, a mão cheia de envelopes, falando sozinhos: “Não adianta! Por mais que eu entregue cartas, eu jamais farei uma obra-prima! Ou cirurgiões: “Não adianta! Implantar esta ponte de safena não fará de mim um novo James Joyce!”
As pessoas simplesmente fazem. Plantam tomates. Colhem abóboras. Pilotam tratores. Praticam abominações com animais de pequeno porte. Escritor não. Escritor trava. Escritor estanca. Escritor estrila. E aí, meu amigo, não há o que fazer, a não ser, talvez, usar o bloqueio a seu favor e escrever um conto.
[Edson Aran]

DOS COLABORADORES

Gerusa Leal, Toque
Lúcia Bettencourt, Pornoproust
Nereu Afonso, Queria mesmo é que um raio caísse no final da história!

DO CONVIDADO

Halley Margon V. Jr., Malevich, 1905

E DA ASSINANTE

Andrea Mello, Mergulho

[ Imagem: site Obvious]

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

No júri da RECITATA, torneio poético/performático no Pátio de São Pedro, no Festival Recifense de Literatura 2009, que nos deixou fartamente nutridos de questões para reflexão literária. Parabéns, mais uma vez, a Heloísa Arcoverde e equipe.

domingo, 13 de setembro de 2009

HISTÓRIAS POSSÍVEIS - Edição 51



Sabine has put on lipstick, high heels and a polka-dot dress. It’s the christening of her sister’s first baby. “Peqqeraava? Am I beautiful?” Sabine asks. She lifts her skirt up revealing her star panties and a pair of laddered tights. Iorunaraalid. You’re wonderful, I reply, grab hold of her and start to dance.I’ve often watched Sabine dance at the village hall without wanting to join in. But now that were alone in her uncle’s house I surrender to both the dance and Sabine. We dance across tables, chairs and mattresses. Wilder and wilder. Through the open window we can hear the church bells chime but Sabine insists: Aamma, aamma, qilinnermud ilinniardiiatsiikkid. More, more. Let me teach you how to dance!
[Foto e texto: Jacob Aue Sobol. GREENLAND. Tiniteqilaaq. 2001. Greenlandic Sabine MAQE.]

Dos Colaboradores:

Daniela Mendes, Mal Secreto
Gerusa Leal, Photoshop
Lúcia Bettencourt, Mamãe não pode saber
Marco Aurélio Cremasco, Dona Irê
Nereu Afonso, [comédia da angústia em frase única]
Wesley Peres, Carta De Um Romano Albino Ao Pai [pingos caindo nos seus devidos iiiis]

e+

Jorge Barbosa, Barra Circular

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

De(mente)

Poema De(mente), do livro Versilêncios, publicado (na coluna da esquerda) no blog do poeta amigo Felipe Júnior. Vale navegar pela riqueza da poesia veiculada pela página.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

©simonia fukue

Participando, como convidada, da edição de agosto da ESCRITORAS SUICIDAS

domingo, 9 de agosto de 2009

Outono

a tarde ainda se faz dia

hesita em anoitecer


o vento cochila imóvel

cansado de tanto calor


a madressilva repousa

na jardineira do muro

pensando em nada

quieta

feito a rua a seus pés


a tarde se estremece

e volta a entardecer


outono de faz de conta

chuva que não se lembra

do compromisso marcado


no terraço ela sonha

com o verão que passou

o livro aberto no colo


alguma mão invisível

move de leve a roseira

tirando uma folha morta


ela sorri e levanta

lembrou-se do pai

por quê?

Porque hoje é dia dos pais.

"Ah, se esse mundo eu fizera
duas coisas não criara:
o tempo, que tudo altera
e a distância, que separa."
Cornélio Leal

Uma quadrinha do meu pai, que o tempo já levou mas que nunca me deixou.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

DIVERSOS AFINS - 35ª Leva

Foto: Alexandre Fonseca

CICERONEANDO



Antes mesmo que pudéssemos estar aqui convivendo com nossos ecos a se dispersarem por todas as partes, sempre existiu o primeiro senhor de todas as horas – o silêncio. Alguns já o cantaram em prosa e verso, percebendo nele uma fonte complexa e misteriosa de saberes. Até pode parecer que necessitemos com urgência atirar nossa verborragia para todas as direções, evocando as atenções para o que pode soar além de nossas óbvias falas. Outros podem perceber a torrente de palavras como um modo de afugentar-se da solidão intensa e cortante das horas. No entanto, o desacelerar dos ímpetos é capaz de nos revelar que há vida abundante e esclarecedora no silêncio íntimo e pessoal de cada um de nós. A cada Leva que se anuncia, pulsa uma descoberta do mundo, tal como apregoava uma visceral Clarice Lispector. Como num jogo de coincidências inimagináveis, as pessoas que por aqui passam agora tecem os fios de uma cumplicidade inerente ao ser humano: o percurso pelos temas recorrentes da alma. Há o compartilhar de paisagens intimistas nas vozes poéticas de Mara Faturi, André de Freitas Sobrinho, Graça Pires,Miguel Ángel Muñoz, Rafael Nolli, Nestor Lampros e Alexandre Bonafim.Pelas escutas em torno das falas do artista plástico Sérgio Lucena, os propósitos da arte assumem um caráter do olhar sublime sobre a essência da qual somos realmente feitos. Em Gerusa Leal e Valéria Freitas, as linhas abrigam os fragmentos nossos que sobraram depois da grande explosão. Na crônica de Tekka Whitman, a memória é uma senhora cuja eternidade sempre rondou desavisada sob o sol. Sentimentos humanos contraditórios habitam a tônica da resenha cinéfila de Larissa Mendes. Tudo aqui é devidamente compartilhado com as imagens poéticas captadas pelas sensíveis lentes do fotógrafo Alexandre Fonseca, cujo registro nos assoma pelos recortes humanos que transcendem o real. Eivada de silêncio, luzes e verbos uma Trigésima Quinta Leva de expressões conduz os passos adiante.

Fabrício Brandão & Leila Andrade

terça-feira, 23 de junho de 2009

Joana

Palavra que me assustei quando a garota bateu no vidro. A camiseta surrada torcida pela mão direita, com a esquerda faz sinal para eu abrir. Primeiro aceno que não, com a cabeça, depois abro só um pouco.

- É para quadrilha?

Vejo-a levantar a cabeça, abrir mais os olhos negros e balbuciar:

- É, sim, senhora.

Apanho uma moeda de um real na carteira e ponho na mão da menina. Pelo retrovisor, de costas, caminha devagar demais para quem devia aproveitar o sinal fechado abordando outros carros. Interessante como é ilusória a distância aparente do que se vê pelo retrovisor.

O sinal abre, ponho o carro em movimento. Continuo pensando na mocinha. Mais que pensando, vendo. Trajava short curto, que acentuava as pernas longas e jovens, camiseta e chinelos, os cabelos castanhos colados à cabeça por grampos, ou biliros, como os chamava minha avó.

Minha avó. O arraial era no final da rua em que morava, a poucos metros da casa de meus pais. Local interdito para nós fora da época em que começavam os ensaios até as festas juninas. Meus pais - meu pai pouco falava, minha mãe era a porta-voz oficial - diziam que a vizinhança do fim da rua era de gente que não devíamos freqüentar. Mas perto do São João conseguíamos convencê-los a deixar participarmos dos ensaios e preparativos para os festejos. Sob os olhos vigilantes de minha avó sentada na cadeira favorita na calçada, os dedos ágeis tecendo paninhos de crochê.

Parecia constrangida, não tinha a desenvoltura dos rapazes e moças que nos abordam nos sinais de trânsito, nessa época do ano, alguns vestindo por cima das camisetas, shorts, bermudas ou calças compridas, saias modelo matuto estilizado já meio surradas, e até esboçando passos de dança enquanto os outros fazem a coleta junto aos motoristas. Ainda estamos em abril e eu havia esquecido que hoje em dia passou semana santa já é São João.

Ela me deu a moeda. Não ia dar não. Eu vi. Não sei onde arrumei cara pra mandar ela abaixar o vidro. Nem precisei falar nada. Pra quadrilha. Nem tinha pensado nisso. Já tinha a fala preparada e ensaiada. Apostava que ia ser mais difícil.

Mais do que vendo, sentindo, ou pressentindo, enquanto se aproximava do carro. Já estava lá. Mas me pareceu que aumentou depois que eu pus a moeda em sua mão. Vou para casa levando, no banco do carona, o constrangimento da mocinha no corpo e num rosto que não trazia o sorriso despreocupado de jovens curtindo vésperas de festas.

- É pra quadrilha.

- Como é?

- De São João.

- Outro dia.

Diabo.

Curtia a festa mas gostava era dos ensaios, as paqueras, os namoricos, mesmo não conseguindo que Edu fosse meu par. O consolo é que na festa todo mundo dança com todo mundo. Invejava Laura. Mas ela engravidou, não pôde naquele ano e foi minha chance. Na hora da formação dos pares, o meu também não apareceu, de cama com resfriado. Daí para o namoro foi um pulo.

- A senhora podia colaborar?

- Quadrilha?

- É, de São João.

- Tenho não.

Meleca. Que é que eu faço?

- Moço, colabora?

- Tenho uma proposta melhor, sobe no carro.

Nojento.

Isso não vai dar certo. Tô perdida.

- Moça, colabora?

Mais um real. Beleza.

- Moço, uma ajuda.

- Com esse sorriso posso até ser o noivo.

- Na minha quadrilha já tem noivo, moço.

- Tá bom, toma aqui um trocado. Mas se o noivo largar a noiva, sempre passo por aqui.

- Moça, um trocado pra ajudar nas roupas.

- Tô precisando de faxineira.

Puta.

Vamo, vamo, Joana / findou-se o inferno / houve um bom inverno / há fartura no sertão. / Ai, Joana, traz pamonha, milho assado / vou matá de bucho inchado / quem num crê no meu sertão.

Parecia tão insegura, vai ver tinha ensaiado todo um discurso para me convencer a contribuir e eu frustrei antecipando a razão da abordagem. Posso até ter ofendido quando simplesmente pus a moeda na mão dela. Como eu posso ser desastrada às vezes. Não adianta agora ficar me martirizando, não tive intenção, ela supera.

- Como é que é, galera? Vamos somar o apurado.

- Levantei trinta paus. Deu mais uns trocados mas eu tava com sede, comprei uma coca.

- Aqui tem mais vinte e cinco.

- Quarenta e três.

- E tu, traste? Conseguisse ao menos cinco paus?

- Fala assim comigo não.

- Ih, Joana, vem com choradeira não, já te disse. Ou entra no esquema ou tudo acabado entre nós. Me dá logo esses trocados. Porra, que é que é isso? Deixa eu contar. Cinqüenta e dois paus e quarenta e cinco centavos. De que jeito arranjasse essa grana? Eu não vou devolver nada não tu tá sabendo. Aqui é bateu morreu. Vai, diz logo, esperta.

Laura fazia sucesso como os rapazes. Talvez por isso também estivesse incluída por minha mãe na categoria dos proscritos do fim da rua. Minha melhor amiga na época acabou sendo também uma moradora do fim da rua. Tereza. Conquistou até minha mãe, que passou a dobrar a metragem na compra da chita para o vestido de matuta e costurar o meu e o dela. Os padrões do tecido e modelos um pouco diferentes, para não parecermos par de jarros, éramos as matutas mais bem vestidas da festa. Nem assim tínhamos vez quando Laura estava no grupo.

- Foi no sinal, eu juro. Como tu dissesse pra eu fazer.

- Tu agora deu pra mentir também, foi?

- Ai, foi no sinal sim, uma dona me deu uma idéia que deu certo.

- Uma idéia? Que papo é esse? Ficasse contando nossos planos pros otários é? Mas só levando bolacha mesmo.

- Não, ai, foi nada disso. Ela pensou que eu tava recolhendo pra quadrilha de São João. Me deu facinho facinho, eu nem precisei dizer nada.

- Como é que é?

- Pois é. Foi assim. Eu aí comecei a passar o papo nos outros motoristas. Mesmo um bocado não dando nada, apurei isso aí.

- E não é que a esperta pensa, pessoal. Bom, muito bom. Com mais cem pratas dá pra comprar o ferro. Vai ser assim, então. Tu vai voltar pro sinal e conseguir o restante da grana.

Quem havia de dizer que meu namoro com Edu só durasse três meses? Ele era um arraso mas a gente não tinha nada a ver um com o outro. Logo depois que acabamos, sumiu no mundo. Diziam que o pai mandou ele morar em São Paulo com um tio, para estudar. E Laura nunca mais falou comigo.

- É perigoso. Imagina se aparece gente de quadrilha mesmo. É capaz até de me bater.

- E desde quando isso é problema? Pelo menos apanha pra levantar a grana. Muda de sinal, sei lá, te vira. Te dou três dias.

Ô semana cheia. Ainda bem que é sexta, recebi salário, vou fazer compras e mais tarde pego um cinema.

Lá vêm de novo os meninos malabaristas.

Que será que foi feito de Laura? Dizia que eu tinha roubado o namorado e um dia ia me arrepender. Bobagens de adolescentes. Lembro que teve uma menina. Eu achava lindo o nome que tinha lhe dado.

E esse sinal que não abre. Como era mesmo o nome da garota?

- Joana, pega a bolsa, pega a bolsa. Vai embora, dona, vaza, vaza. Se olhar pra trás leva chumbo.

- Era ela.

- Ela quem?

- A moça do sinal. Acho que me reconheceu.

- Não interessa, esperta. Ela nunca mais vai saber da gente. E dona Laura vai ganhar uma bolsa de madame, que eu só quero o recheio da carteira e o celular. Viu como tu não podia arranjar namorado melhor?

Vamo, vamo, Joana / findou-se o inferno / houve um bom inverno / há fartura no sertão. / Ai, Joana, traz pamonha, milho assado / vou matá de bucho inchado / quem num crê no meu sertão.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Lançamento da FreePorto

Vídeo de lançamento da FreePorto

http://www.youtube.com/watch?v=tvudLmD_7Is

terça-feira, 26 de maio de 2009

JAGUADARTE



Era briluz. As lesmolisas touvas
Roldavam e relviam nos gramilvos.
Estavam mimsicais as pintalouvas,
E os momirratos davam grilvos.

"Foge do Jaguadarte, o que não morre!
Garra que agarra, bocarra que urra!
Foge da ave Felfel, meu filho, e corre
Do frumioso Babassurra!"

Ele arrancou sua espada vorpal
E foi atrás do inimigo do Homundo.
Na árvora Tamtam êle afinal
Parou, um dia, sonilundo.

E enquanto estava em sussustada sesta,
Chegou o Jaguadarte, ôlho de fogo,
Sorrelfiflando através da floresta,
E borbulia um riso louco!

Um, dois! Um, dois! Sua espada mavorta
Vai-vem, vem-vai, para trás, para diante!
Cabeça fere, corta, e, fera morta,
Ei-lo que volta galunfante.

"Pois então tu mataste o Jaguadarte!
Vem aos meus braços, homenino meu!
Oh dia fremular! Bravooh! Bravarte!"
Ele se ria jubileu.

Era briluz. As lesmolisas touvas
Roldavam e relviam nos gramilvos.
Estavam mimsicais as pintalouvas,
E os momirratos davam grilvos.

Augusto de Campos [transcriação de Jabberwocky, de Lewis Caroll]

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Na lata


Entrevista concedida ao poeta Samuca, e publicada no seu blog http://samucablogsantos.blogspot.com/ Confiram, lá, esta e outras matérias interessantes.

domingo, 17 de maio de 2009

Histórias Possíveis


Edição 42 da revista eletrônica Histórias Possíveis http://historiaspossiveis.wordpress.com/

“A razão cria cárceres mais escuros que a teologia. O inimigo do homem se chama Urizel (a Razão), o “deus dos sistemas”, o prisioneiro de si mesmo. A verdade não precede a razão e sim à percepção poética, isto é, da imaginação. O órgão natural do conhecimento não são os sentidos nem o raciocínio; ambos são limitados e na verdade contrários à nossa essência última, que é desejo infinito: “Menos do que tudo não pode satisfazer o homem”. O homem é imaginação e desejo”.[Otávio Paz, trad. de Sebastião Uchoa Leite]
Dos Colaboradores,
Gerusa Leal, de vidro transparente – com prescrições eu irei te preencher para facilitar a tua vida dolorosa
Leandro Resende, Primeiro Epílogo
Lúcia Bettencourt, A morte e a donzela
[Imagem: Richard Kalvar.]

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Resenha de Versilêncios no Homem Nerd


Resenha de Versilêncios no site http://www.homemnerd.com.br/
É só clicar na capa do livro após chegar no site que acessa a resenha. Se gosta de boas resenhas, principalmente de FC, passeie pelo site.

sábado, 9 de maio de 2009

um haicai recifense

entre os dedos
do pé da árvore
cócegas de grama

sábado, 2 de maio de 2009

Reverso do nada

Poema meu publicado no blog do Samuca. Confiram e naveguem pelo blog que tem, dentre outras pérolas, saída do forno, entrevista com a poeta Graça Graúna http://samucablogsantos.blogspot.com

sexta-feira, 1 de maio de 2009

terça-feira, 28 de abril de 2009

sábado, 18 de abril de 2009

eterno

mais que sorriso silente
mais que ruidosa mudez

mais que paleta de tintas
ressacada, quebradiça
que o pincel endurecido
no ateliê deserto

mais que partir outra vez
dói a terrível certeza
do retorno sempre certo


do livro Versilêncios

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Entrevista

Entrevista ao poetamigo, compositor, advogado, radialista, editor, cultivador e divulgador das artes e da cultura e gentefiníssima Luiz Alberto Machado, pernambucano radicado atualmente em Maceió, para o seu blog Varejo Sortido http://varejosortido.blogspot.com/2009/04/poetas-pernambucanos-entrevista-gerusa.html

terça-feira, 14 de abril de 2009

Foto no lançamento de Versilêncios

Foto no lançamento de Versilêncios, dia 26 de março 2009 na Biblioteca pública do Estado de Pernambuco - Digital Arte Imagem

segunda-feira, 6 de abril de 2009

in preciso

há proibições demais nas placas da vida
também tantos deve e é preciso
inscritos em letreiros quando olhamos para dentro
que raramente pisamos descalços
nos gramados de nossos sonhos


é proibido também divagar
assumir o devaneio pelo devaneio
é preciso viver?
o que diabos há de preciso
em qualquer arte?

terça-feira, 24 de março de 2009

Entrevista



A poesia de Gerusa Leal


O Café colombo conversou com a contista e agora poetisa Gerusa Leal, que está lançando o premiado Versilêncios.



Ouça o áudio em http://www.cafecolombo.com.br/

quarta-feira, 11 de março de 2009

Lançamento

Obra vencedora do Prêmio Edmir Domingues de Poesia 2007 da Academia Pernambucana de Letras, o livro é nosso primeiro solo.
Edição da autora, patrocínio do Sistema de Incentivo à Cultura da Prefeitura do Recife. Via Livros (2137-0300). / Livraria Imperatriz Shopping Tacaruna / inter.g@terra.com.br R$ 20,00

Serviço:
Lançamento em 26 de março de 2009, das 19h às 21h
Recital do grupo Vozes Femininas
Local: Biblioteca Pública do Estado de Pernambuco
Rua João Lira, s/nº, Parque 13 de Maio
Fones: 3181 2647 / 3221 3716

Sejam bem-vindos

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Ana-crônica

O pai, cioso da virtude das filhas, sob a guarda de uma tia, permitiu que fossem ao baile no clube. A tia acreditava que o corte de cabelo à escovinha, quase máquina zero, dos meninos do Colégio Militar era garantia de masculinidade e certeza de casamento bem sucedido. Vista grossa se as via pulando o frevo de mãos dadas com algum. A única condição era passar na mesa a intervalos onde não houvesse tempo para mais que um beijinho, um amasso sem sair do salão.
Treze anos, e não achava graça nos meninos.
Saquinhos de filó cheios de confete e serpentina, fantasias, ele aparece. Muito, muito, muito mais velho que ela. Hoje seria chamado de tio. Olhou e estendeu a mão. Foi.
No meio dos foliões, abraçados, a cabeça repousada no peito dele. Sentiu que lhe cheirava os cabelos. E a cada quarto de hora batia o ponto na mesa da tia.
No primeiro cheiro no pescoço, o frio na espinha. Ele sorriu.
Ninguém falava. Fim de baile. Sem despedida. Não com palavras.
Dia seguinte, lá estavam outra vez, ela, a tia, as primas.
Tédio.
De repente uma mão. Quente. Um olhar, um sorriso. O cheiro nos cabelos, no pescoço.
Terça-feira gorda. Mal pisava o chão. Era o último dia e mesmo assim nada era dito, não se conversava. Circulavam pelo salão, mãos dadas, abraçados.
Hora de ir embora. Nem despedida, muito menos telefones.
Carnaval. Até hoje traz pressentimento de um roçar de rosto, um calor, um cheiro no cabelo, no pescoço, um arrepio. E a nostalgia do desejo por um beijo na boca que nunca aconteceu.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Imagem: Noturna, de Amanda Com

Visitem o blog Ela Nua é Linda http://novobloguerotico.blogspot.com/ o erótico de Luiz Alberto Machado, confiram a bela formatação onde me presenteou com meus poemas em destaque na edição desta quinta-feira 12 de fevereiro de 2009, e se deleitem com o blog inteiro que está belíssimo, de muito bom gosto em todos os sentidos.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Nós Pós realiza encontro na sorveteria Santo Doce

Na última 5ª feira, dia 22 de Janeiro, em concorrido encontro, o movimento Nós Pós realizou encontro na sorveteria Santo Doce, nos Aflitos, com a participação dos escritores Felipe Jr., José Terra, Yugo Taroo, Gerusa Leal e Mariane Bigio.
Acesse os textos lidos durante o evento, no blog do Nós Pós, na lista de links ao lado esquerdo desta página.

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Nota veiculada na edição de 25 de janeiro do informativo A voz do Escritor, da União Brasileira de Escritores, Seção Pernambuco.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Rabanadas

Desceu do ônibus e atravessou a rua. Era uma tarde quente. Nem percebeu que estava parado em frente da casa. Ouviu a voz da mulher chamando pelo filho. Já fazia tanto tempo. Baixou a cabeça, virou-se para seguir seu caminho e parou outra vez.

Naquele dia o cachorro perseguiu o menino latindo. Apanhou o primeiro objeto que a mão alcançou. Mas não precisou usar, o garoto havia subido na árvore onde acabara de pendurar a gambiarra, arrastando no tombo parte da fiação e fazendo várias lâmpadas coloridas espatifarem-se no chão.


- Droga. Vai cortar o pé, infeliz.

O moleque correu para dentro de casa.

A mulher está de pé junto ao fogão, os cabelos presos por um lenço. Parece que só enxerga as panelas. Prepara o almoço mas já cortou o pão para as rabanadas.

Escuta o arrastar dos chinelos e vê uma blusa desbotada se aproximando. Ela sempre sabia quando ele chegava e vinha encontrá-lo no portão. Levantou a cabeça e olhou ao redor como se não a tivesse visto.

- Já vou abrir.

Deu um passo para o lado parou e olhou a mulher. A blusa desbotada sobre a saia larga de estampado florido também já desmaiado. Não acreditava em violência. Não devia ter feito aquilo.

Caminhava devagar, o rosto sem expressão como se até as rugas houvessem esquecido a própria história. É de estatura mediana mas os ombros arqueados a fazem menor embora a firmeza do olhar afaste qualquer impressão de fragilidade. Ele tenta se lembrar de como ela era e só consegue ver uma jovem numa foto amarelada de casamento. Uma jovem que parece nunca ter sido ela.

- Venha, entre.

Despregou-se do chão e passou para dentro do jardim. O rosto dela ganhara um aspecto definitivo feito o das esculturas no museu onde ele ficara circulando enquanto esperava que a tarde passasse e não desse mais tempo de ir. A primeira vez fora pedir que lhe perdoasse e se o enxotasse mal o visse isso não o surpreenderia.

Limpava os pés no capacho com os olhos entre o chão e a guirlanda verde com um sino dourado pendurada na porta.

- Entre.

Sentou-se à mesa no canto da sala enquanto ela, arrastando os pés, sumiu no corredor que dava para a cozinha de onde vinha o cheiro doce. Serviu-lhe duas e ocupou a cadeira em frente, calada, as mãos cruzadas sobre a mesa, olhando ele cortar pedaços da rabanada e levá-los à boca.

Quando acabou, ela levantou-se, apanhou a travessa com o restante do doce, o prato vazio e lentamente sumiu outra vez no corredor. Ele imagina que assim como na sala, no restante da casa permaneça tudo igual, os mesmos móveis, nos mesmos lugares, os mesmos quadros pendurados nos mesmos pregos nas mesmas paredes, a mesma árvore no quintal.

Nunca foram de conversar muito mas se diziam o indispensável e passavam um pelo outro sem evitarem se esbarrar. Naquele dia ela queimou-se na panela de feijão que se esparramou por todo o chão da cozinha. Ele havia entrado atrás do menino com o chinelo na mão e quando ela se abaixou para limpar ergueu-a pelo braço xingando-a de estúpida e perguntando e agora o que nós vamos almoçar?

Ficaram as marcas na pele alva do braço e ele saiu batendo a porta. Sem coragem de contar que fazia um mês que passava os dias perambulando pelos parques, igrejas, museus, depois de conferir mais um anúncio de emprego onde não se interessavam por seus serviços.

- Beba a água. Está gelada.

Quando chegou ela não estava e só uma semana depois recebeu o bilhete onde dizia que estava trabalhando na casa de uma família e o menino ficava com ela. No mesmo bilhete e pelo mesmo portador escreveu que voltasse para a casa, não a incomodaria.

Secou os lábios com as costas das mãos. Quando ela voltou da cozinha já estava de pé ao lado da porta. Caminhou atrás dela que fechou o portão e quando já voltava para dentro ele girou sobre os calcanhares. Ela parou.

- E o menino?

- O menino está bem.

Entrou na casa e ele atravessou a rua para apanhar o ônibus.
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Publicado na edição de 20 de dezembro da revista eletrônica Histórias Possíveis

Marilyn Lisa

alguma coisa há de vegetal
nos cachos repolhudos dos teus cabelos
nos teus lábios monroe
no teu sorriso lisa

alguma coisa há de espectral
no tom tofu da tua pele
no rosa macerado do teu rosto
no sépia desbotado em tuas vestes

alguma coisa há de surreal
nos traços comestíveis do teu rosto
e esse teu olhar de modo oposto
tem algo de ser sobrenatural

sábado, 17 de janeiro de 2009

A última refeição

Escutou os gritos agudos ouviu também e sentiu as vibrações dos golpes no assoalho de madeira. Gregório precipitava-se pelo corredor e quase se choca com Mara que saía afobada do gabinete. Disparou entre os dois, forçou a passagem por uma brecha na porta da cozinha, no mesmo pique escalou o muro e mergulhou na lixeira. Ali estaria seguro.

Tateou alguma coisa para matar a fome. O ventre aberto do pássaro oferecia-lhe o manjar das vísceras expostas e ainda mornas, com que se regalou.

Por instinto, contorceu-se, virando a cabeça para a porta. Alguma razão que não conseguia desvendar levava-o a reviver a última refeição. Ouviu Gregório gritar alguma coisa e seu coração se contraiu. Mas Inocêncio replicou com serenidade. A voz suave devolveu-o ao relativo conforto do devaneio com o último jantar.

Pendia, de cabeça para baixo, seguro, atado pelos membros inferiores. A vertigem da rápida descida, misturada à dor aguda da queimadura. Já não era uma sensação nova. Não o apavorava mais tanto. Mesmo assim, sentiu-se miserável e infeliz como nunca. Se é que se poderia chamar de sentimento ao desfalecer que lhe percorria o corpo e ameaçava engolfar-lhe o cérebro.

O contato do instrumento frio trouxe-o de volta. Era tudo confuso. Agora explorava o baú que um dia encontrara aberto no gabinete. O brilho da lâmpada no teto refletia-se nos artefatos de metal e isso o fascinava. Uma sombra o alertou de que não estava mais só. Sentiu o toque da mão, ouviu o grito agudo e retesou-se pronto para fugir. Mas a gargalhada grave e cristalina, já tão familiar, o acalmou. Enquanto os passos, o choro e a risada se afastavam, aproveitou para escapar da armadilha.

Depois da refeição, gostava de se esgueirar pelos móveis. Lembrou-se daquele frasco em cima do aparador em que numa madrugada esbarrara enquanto fazia seu passeio exploratório. E do susto quando mais rápido do que imaginava a lâmpada se acendeu, flagrando-o desprotegido. Estudou cuidadosamente o ambiente em volta e mergulhou na gaveta das fotos.
Então novamente o calor do fogo. Havia compreendido que de nada adiantava, mas talvez por puro reflexo estorcia-se, guinchava. Grudava-lhe na pele o líquido morno e gosmento. Torturava-o a ardência nos pontos onde perdera os pelos.

O trecho roído na borda da foto que emoldurava o rosto pálido da moça não lhe afetava a beleza. Degustava-a despreocupada e lentamente. Cabelos negros presos em coque, ornados pela grinalda de flores miúdas, os olhos castanhos, grandes, profundos e tristes, foi a última imagem que seu cérebro reteve antes de tudo escurecer.

Já não se movia mais, mas ainda estava ali. O suficiente para sofrer, em algum lugar da já quase inexistente consciência, a dor mais lancinante. Era lenta e se prolongava, parecia não ter fim. Depois de algum tempo, chegava, aos ouvidos, apenas, o som de batidas, num bombo, gigantesco, e distante, o líquido morno, pingando, dentro do recipiente, sob sua cabeça.

Acabara-se a urgência. E a sensação de perigo. Já se esquecera do mundo quando sentiu outra vez o fogo lambendo-lhe o corpo. Não havia mais dor. Terminara a agonia. As imagens iam e vinham, em flashes, e foram se dissipando, virando sombra de sombra, até ficarem opacas e cinzas. Feito o pelo chamuscado.
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Texto publicado no caderno especial em homenagem a Machado de Assis, na coletânea Contos de Oficina 2008, organizada por Raimundo Carrero, lançada em 08 de novembro de 2008 na Festa Literária Internacional de Porto de Galinhas – ano IV.

ex-finge

percorre as veredas do meu corpo
verás que ainda há parte do humano
que fui quando assim fingia ser

tateia com vagar todos os flancos
desse ser tão incomum igual a ti

de quatro talvez me descortines
de quatro animais encontras partes
à minha humanidade amalgamada

cabeça e seios de mulher
corpo de touro (ou de cão se assim preferes)
garras de leão asas de ave
e essa imensa cauda de dragão

não temas, amado, inda sou eu
a mesma que desconhecendo, amastes
e se duvidas de mim, olha no espelho
verás que, enfim, me decifrastes

Sonhando com cavaleiros andantes

Marta, me conta outra vez aquela história do carro que assombra as ruas da cidade em noites de lua nova, saindo do edifício-garagem abandonado, assustando os casais que namoram nos pátios de estacionamento, e dentro das casas e apartamentos, sobressalta as mulheres com o ronco do motor e as arrancadas que ecoam na solidão das madrugadas, acelera sobre a insônia das crianças e dos idosos, com o derrapar dos pneus no asfalto silencioso. Me conta, Marta, como a alma do motorista do homem se separou.

Pois bem, Leandro, vou te contar outra vez como foi que se passou. Mas espera um pouco, Marta, sei que há muito te conheço mas sempre esqueço quem és. Agora já não importa, Leandro, quem é que eu sou. Apenas ouve a história que há tanto tempo te encanta. O que eu vou te contar é mesmo a pura verdade, embora tudo que eu saiba é só por ouvir falar.

Dizem que o rapaz, naquela manhã, pulou da cama bem cedo, vestiu roupa de viagem, jogou nas costas a mochila, calçou os tênis novos e pôs a mala na mão; seu sorriso era um sol. Despediu-se então dos pais entrou no carro e partiu. Falam que estava noivo de moça em outra cidade e nesse dia viajava pra com ela se encontrar.

A moça o esperava também ansiosa e alegre, de casamento marcado, tudo pronto, era só ele chegar.

Mas numa curva da estrada, numa errada ultrapassagem o tal carro derrapou girou na pista três vezes capotou girou mais uma e desceu pelo barranco.

De madrugada, geava muito na serra por isso só no outro dia é que foi localizado, bem sentado ao volante, o cinto de segurança preso ainda no lugar. Falam que os motoristas do caminhão que o acharam, e os caras da perícia não conseguiam explicar as marcas de pneus que batiam com os do carro também no sentido oposto do fatídico acidente, subindo pelo barranco arrancando terra e grama e na pista prosseguindo na direção em que vinha.

Marta, mas quem será que seria aquela moça a quem veio procurar? Será que ela ainda vive? Será que ainda o espera? Será que algum dia os dois irão se encontrar?

Não sei, Leandro, só lembro de estar há tempos na janela do quarto do apartamento dos meus pais no oitavo andar quando o velho entrou bem sério, me abraçou, baixou os olhos, saiu sem nada dizer. Do que eu me lembro depois, só do vento nos cabelos, da sensação que voava e de estar aqui contigo em noites de lua nova te contando um vez mais essa porra dessa história.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

aquática

Navega-me,
que me faço mar.
Não para me singrares de velas enfunadas.
Teu deslizar há de fazer marolas
que hás de alisar docemente.
Eu crescerei em vagas impetuosas
e te farei soçobrar.
Mergulharás em mim e eu, maremoto.
Até que,
juntos,
na praia morna,
em branca espuma
morreremos.
Publicado em Pimenta rosa, coletânea de poemas e textos eróticos de 16 autoras pernambucanas - edição das autoras - esgotado.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Os brincos prateados

Arrumava os cabelos com as mãos onde quer que estivesse, sem precisar de espelho. Fizera isso vezes sem conta. A vida não contribuía para amenizar os traços.
Tivesse o cuidado de não dar moleza desde o início, não estava passando por tanta decepção. Sim, pode-se perder o controle do lance, ser trapaceada e levar uma rasteira. Dava lá as escorregadas dele, ela sabia, sempre tinha uma explicação você que é meu amor, ela precisava que a convencesse. Não era mais menina, ralando daquele jeito, chegando em casa à noite no bagaço. Em vez de chorar, devia era soltar foguete.
Retocou o batom, também sem espelho, contornando os lábios com precisão.
Calma. Tenho que ter calma. Adianta me descabelar? Por que não escutei a voz da razão? Teria percebido que era sorte demais para ser verdade. Tem cabimento acreditar que um rapagão daqueles ficasse com ela muito tempo? Uma tonta, é o que foi. Ainda por cima deixar de se cuidar para vestir ele com roupa de marca, fazer prestação pra financiar o carro usado que tanto queria e botar no nome dele, onde já se viu? A amiga alertou, e daí? E daí que para seu azar apaixonou-se. Toda a sensatez foi parar na lata do lixo. Na lata de lixo.
Enxugava as mãos no vestido, suadas feito quando era adolescente.
Isso pode acontecer com qualquer uma.
Andava de um lado para o outro na sala. Na imaginação o rosto do amante, cara lisa, barba feita, no meio do mundo.
Sabia quando estava chegando pelo barulho do elevador, ficava de pé olhando a porta, aguardando que ele abrisse. Entrava, pegava pela cintura, virava de costas, empurrava para o sofá e ali mesmo a possuía, ela de quatro. Como uma cadela.
Escurecia lá fora, o ar frio do inverno entrando pelo apartamento.
O cordão dourado com a letra M, que usava sempre, era fantasia, imitação barata. Único presente que lhe dera em três anos; bem mais vagabundo que o par de brincos prateados com pedrinhas brilhantes que encontrara na gaveta de cuecas e meias, por baixo de tudo, bem lá no fundo, comprado com o dinheiro dela para a outra: sacudiu na cara dele, aos gritos, como se isso resolvesse alguma coisa.
Ele negou, era surpresa, para comemorar a data em que se mudou para a casa dela, mas não faz mal, e adulou, e fez carinho, levou pra cama, e ela se acalmou. Colocou os brincos.
Dia seguinte fazia quatro anos, um sábado. Culpada por haver desconfiado dele, comprou dois metros de viscose à prestação, abriu a máquina de costura, pegou a tesoura grande para cortar a camisa. Com sorte estaria pronta antes que ele voltasse da pelada com os amigos.
Cedo ainda, nem prestou atenção no barulho do elevador abrindo. Tocaram a campainha, não podia ser ele. Deu de cara com a ninfeta dizendo para ela passar os brincos, que não engolia essa de ter paciência e abrir mão para uma velha enrugada, pelancuda, só porque ele tinha pena.
Bateu a porta, sentada na sala não escutava nada, nem os berros da outra de isso não vai ficar assim, até que tudo ficou silêncio, olhou ao redor, a máquina aberta, o tecido na mesa, devia ser intriga da garota, ele não ia dizer uma coisa dessas dela, de que jeito a outra sabia dos brincos?, dizia para si mesma que não era nada daquilo, haveria explicação, sempre tinha uma, a visão dele abraçado com a ninfeta, a voz dentro da cabeça sussurrando no ouvido da outra você é que é meu amor, imagina se tem comparação com aquela velha enrugada, pelancuda, é que ela é tão sozinha, tenho dó, paciência que vou dar um jeito.
Dar um jeito.
Na delegacia, arrumava os cabelos com as mãos, retocou o batom, se deixou conduzir para a cela. Com a roupa do corpo, de chinelos, usando os brincos prateados.

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O conto Os brincos prateados foi classificado em primeiro lugar entre os 10 melhores para compor o livro do Prêmio Maximiano Campos de Literatura 2006, selecionados pelo escritor, crítico e professor da Universidade Federal de Pernambuco – UFPE Luis Carlos Monteiro. O conto foi publicado também na antologia Panorâmica do conto em Pernambuco, em 2007, e na edição de nº 23, de 4 de setembro de 2008, da revista eletrônica Histórias Possíveis.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Gaza

o dia terminava
e o poente, escurecendo o céu
não poupava às criaturas terrenas
a sede

apenas aumentava a escuridão
o silêncio entrecortado de gemidos

nos hospitais, nas ruas
o percorrer dos ásperos caminhos
e das lastimosas visões
que as retinas
mesmo na escuridão
insistiam em exibir

divididos em três
invocamos os deuses
as musas
os homens
mas não nos chegam alimentos
remédios
sequer livros ou alaúdes
onde mitigar ou cantar nossa dor

nossas crianças já não dormem
o sono dos inocentes

wall-eribu

Sol na moleira, sacos de lixo, cheiro de fome. Dois pacotes de macarrão, dois pacotes, inteirinhos. Caruncho a gente bota no sol e eles fogem.
Ninguém por perto a ressaca da virada de ano deixou todo mundo jiboiando, de fome ou barriga cheia, em sombra de árvore, de teto de papelão ou de cachaça.
Deus ajuda quem cedo madruga é tudo nosso.
Uma pia, meu Deus, uma pia. Tá rachada mas a gente cola com o resto de durepóxi que encontramos na lixeira do prédio de luxo semana passada e tá limpeza. Uma pia, meu deus, só falta a torneira. O lixão há de prover.
Remexo restos de rosas todas tão frescas ainda. Aquela garrafa de cidra dá um bom vaso. Flores pra alegrar o barraco.
Preciso achar outro par de meias vermelhas. Essas são da última vez que vi Paris, não dá mais pra remendar.

Um jornal inda no plástico, que maravilha. Bancário surta, foge de manicômio e vira mendigo.